5.5.22

Fantasma

De vez em quando voltas-me como se um bando de andorinhas em migração para o sul. Quase nunca te espero, entretida que estou em te esquecer, enredada na vida morna de trabalho casa trabalho. Apareces na esquina da tarde, quando o fulgor do céu não me deixa evitar-te, iludindo as fugas que costumo inventar para que não me assalte a tua voz macia. Fintas-me o engenho com que te enterrei, morto em vida de corpo ausente. Nas madrugadas de insónia ou quando, numa razia arriscada, sem eu querer nem ter como te escapar, me invades olhos e sentidos enquanto disfarço e finjo que me interessa o preço do dólar ou aquele artigo tão importante na prateleira do supermercado.
E só quando me rendo, suspiro e deixo que me invadas, nesse momento breve que passa como um sopro de Verão, reclamas de novo esse estatuto de fantasma e regressas ao mundo onde não pertenço.
Nessa altura volta a vida morna, de trabalho casa trabalho e apenas a memória de um dia de Verão perdura como se nunca tivesse desaguado no Inverno.


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