29.4.05

Dos



sóis escondidos se sabe apenas que estão ali.
Adivinha-se o seu calor por detrás do manto cinza que tantas vezes os cobre.
Contam histórias de encantamento e Ícaros alados em busca dos seus braços de fogo. São verdades absolutas na promessa de renascimento até ao fim dos tempos.

Das nuvens se espera que um qualquer sopro verdadeiro as empurre para longe. Ou que retomem a sua condição de água para que, no horizonte súbito e azul, o círculo perfeito se erga altivo e, enfim, visível sobre o mundo.

27.4.05

Porque

a cidadania não é só uma palavra bonita que fica bem "sacar" quando se pretende impressionar o parceiro.
Cidadania é a participação de cada um de nós, o contributo, ainda que ínfimo, que possamos dar, para fazer desta uma sociedade melhor e do mundo um local mais seguro para os nosso filhos viverem.
E solidariedade é ajudar quem está hoje um pouco pior que nós - mesmo que seja na perspectiva egoísta de um dia virmos a ser ajudados caso o necessitemos.

Porque devíamos todos tentar ser pessoas um pouco melhores do que aquilo que somos, leiam, por favor, este post da Catarina.
E façam qualquer coisa.

Tenho

uma história para contar.
Preciso que me ouçam, em silêncio, como se fingissem não ouvir, para que não me falte a coragem e me trema a voz.
Apenas vos quero saber ali.
Começarei por rodear a questão central. Vou falar-vos de uma praia perdida por entre a floresta luxuriante, do caminho que desce em ziguezague até à areia branca e fina.
Que a mulher percorreu de sandálias na mão, um chapéu de palha no cabelo e o azul no olhar. Talvez vos conte das pedrinhas lisas e coloridas que a maré foi trazendo com o tempo. E do búzio grande que encerra a voz do Mar...
Para ganhar um pouco mais de tempo, peço-vos que a imaginem sentada na imensidão do areal deserto. Uma forma humana a perturbar a Natureza. Ou em comunhão com ela. O vento a despentear-lhe os cabelos, fios longos e soltos com cheiro a maçã verde, como cordas de seda que lhe fustigam o rosto. Partículas brilhantes de areia vão cobrindo a figura imóvel, como que a querer transformá-la em parte integrante do cenário. Para que não destoe, para que se entranhe na paisagem tal como se fosse uma pedra ou uma onda de espuma. Para que, aos poucos, o equilíbrio perfeito que veio perturbar seja reencontrado, como acontece com um qualquer organismo vivo que reaje ao invasor até o eliminar ou assimilar no sistema.
Passará muito tempo ali, o olhar fixo no horizonte. Só.
Ninguém saberá o que pensou, que emoções lhe aceleraram o sangue e ruborizaram o rosto, que mágoa lhe humedeceu o olhar ou que lembrança lhe curvou os lábios num sorriso.
Para que não se perca o vosso interesse, irei descrever a grande vaga que lhe beijou a pele em gotas de frescura. Os reflexos prateados na superfície da água, sob a luz do final do dia.
Sómente quando vos sentir impacientes, um frémito súbito e fugaz a percorrer os corpos imóveis à minha frente, apenas aí, quando não possa mais fugir do final inevitável, voltarei à história que vos prometi. Um segredo guardado numa caixinha de âmbar, no fundo da gruta mais perdida do mundo. Um mistério que apenas os sábios podem conhecer.
Pedir-vos-ei, olhando as vossas cabeças baixas, que sejam fiéis guardiões da magia e da esperança. De céus azuis e aves brancas de longas asas, em liberdade.
E só depois de ter a certeza que nada os travará, que ficará em segurança, vos direi então que olhem aquela onda em que desaparece o dorso brilhante desse ser, meio Homem meio peixe, que naquela praia deserta, ao entardecer mergulhou em direcção à vida.

25.4.05

Blogar é uma virtude

É difícil para mim falar de um dia longo e intenso, especial, tal como foi difícil quando, finalmente, por volta das 2 da manhã me coube dar o pontapé de saída naquela conversa sobre blogs. Tinha sobre os ombros a enorme responsabilidade de não defraudar os meus amigos. Os que tinha convidado a estar ali e que me deram a maior prova de confiança e amizade que se pode dar a alguém: deram a cara, perderam o anonimato que é condição essencial a um blogger. E confiaram em mim para o fazer. Este era o principal factor para o nervosismo e pressão que senti ao dizer Boa-Noite à plateia que ali estava, àquela hora da madrugada, plena de diferentes motivações.
Depois, a exposição. Estar ali a olhar para uma quantidade de caras com que me cruzo no café, no supermercado, ao entrar para o serviço, não na qualidade de representante de uma entidade qualquer, mas na qualidade de Mar, do Espelho Mágico. A sensação de me estar a desnudar perante tanta gente que não me conhece e que, naturalmente, não tem que gostar de mim.
E que, a partir daquela hora, passou a ter acesso a coisas que, normalmente, dizemos apenas aos mais íntimos amigos e que, naturalmente, gostam de nós e não nos julgam.
Essas coisas estão aqui, ao abrigo do anonimato que agora deixou de existir.

No entanto, à medida que falava, deu-se um fenómeno interessante: olhar para o lado e ver as pessoas que comigo estavam a viver aquela aventura, cheios de confiança, de brilho interior, bonitos, a aguardar a sua vez de falar, com a segurança que lhes dava o facto de acreditarem no que estavam ali a fazer, foi como um sopro de ar puro e criou em mim a enorme convicção de que era importante o que nós íamos fazer naquele momento. E que era preciso transmitir a todo o custo essa verdade a quem tinha passado por aquele longo dia e chegado áquela hora para nos ouvir. A nós, aos bloggers.
Dai até ao final foi só a subir. Em seriedade e certezas. Em emoções e risos. Em vontade de continuar.

Ouvir cada um daqueles seis bloggers a falar para a audiência (alguns dos quais pela primeira vez...), sob a luz dos holofotes, transmitindo as razões de ter criado um blog, explicando como funciona e defendendo as virtudes deste priveligiado meio de comunicação, a maior de todas elas, a possibilidade de fazer amigos e provando que é verdade esse pressuposto - estarmos ali juntos, demonstrou-o cabalmente - foi um momento mágico e inesquecível.
Como lindíssimo foi, ao olhar em frente, saber que ali estavam os "nossos" comentadores e amigos, de brilho nos olhos e sorrisos de força.

Não interessa se foi o maior ou o menor encontro de blogs de sempre. Ou sequer se foi o melhor. Ou se estavam a partilhar o momento connosco pessoas fantásticas, de blogs famosos à escala nacional.
Interessa o sentimento que ali nos unia e nos fazia iguais, e que se tornou visível a quem quis ver, nos sorrisos, nos olhares, na cumplicidade com que reforçávamos as idéias uns dos outros, nas piadas que se contaram, no abraço com que nos despedimos à saída.
Interessa sabermos que valeu a pena.
Que, quanto mais não seja, a blogosfera já nos permitiu termo-nos encontrado, termos enriquecido as vidas uns dos outros, termos partilhado esta vontade de estarmos juntos, com outras pessoas que, através de nós, puderam conhecer um bocadinho melhor esta comunidade a que pertencemos.

Se dúvidas houvesse (e não havia, de todo), ter-se-iam esfumado por completo naquela noite, aí pelas 4 da manhã, já na madrugada do dia 24 de Abril, ao ver aquela cafetaria cheia de gente, presa nas palavras, desta vez não escritas, dos bloggers convidados. E não eram só bloggers, outros da mesma espécie, que ali estavam. Eram pessoas que quiseram ouvir falar desta nova realidade de comunicação, ver os pioneiros (daqui a 10 anos seremos considerados os pioneiros da blogosfera), que a descobriram e a ela aderiram com entusiasmo. Pessoas que nos ouviram até ao fim da noite, que quiseram perceber nossas motivações, aprender connosco a validade deste meio na difícil arte de fazer amigos.
E, talvez, pessoas que acabaram a descobrir a vontade de, também eles, criar um blog.

A todos os que nos acompanharam e a todos vocês, amigos, que fizeram este momento comigo, um enorme obrigada.

(Reformulando: e a prova de que este blog não é nada sem vocês e dado que o sistema de comentários do CommentThis está com um problema qualquer e eu não sei o que farei se perder os comentários que tenho para trás, e não venho cá fazer nada se não fôr para vos ler, instalei provisóriamente o Haloscan. Tenho saudades vossas!)

Blogs Beja 2005

Uma quase-directa ontem, um dia de hoje para saborear os últimos momentos com gente amiga muito linda, o dia antes do 25 de Abril até há bocado à meia-noite, os foguetes, Vivó 25 de Abril, o Espelho Mágico a esta hora todo marado e sem conseguir ver o sistema de comentários, e eu aqui semi-acordada a tentar dizer-vos que adorei cada minuto e que logo conto, mas se quiserem saber detalhes a Catarina e a Gotinha já lá têm as principais histórias do Dia Mundial do Livro mais inesquecível para mim. (os outros não sei, que também não consigo abrir a porra dos links, amanhã se verá.)

22.4.05

Voltando

aqui à linha editorial "cartaz de espectáculos" (pelo menos até acabar a semana e antes que os mais entusiastas do Dia Mundial do Livro me batam...), tenho a informar-vos que, conheci há pouco o Roberto de Freitas que vai animar alguns dos momentos do dia de amanhã.
Tal como é comum a todos os contadores de histórias que conheço, sejam de que nacionalidade forem, tem aquele ar doce e delicado de quem possui os mistérios das lendas e dos contos no seu interior. Vão gostar dele ;-)

Quanto ao Antonio Sarabia, é um escritor de destaque na moderna narrativa iberoamericana. As suas obras de aventuras, publicadas em vários países (Os Contos do Vulcão é um dos traduzidos para português), e a participação em livros colectivos de contos, tal como "Contos Apátridas" transformaram-no numa referência incontornável na literatura contemporânea. Atentem na sinopse deste seu romance:



A Taberna da Índia

Um retrato admirável da Sevilha das Descobertas


Pouco ouro e ainda menos especiarias era o que traziam das Índias os primeiros navegadores que seguiram os passos de Colombo. O que de facto carregavam nos seus porões eram centenas de escravos índios, que vendiam mal desembarcavam no porto de Sevilha. E vão ser dois índios os protagonistas de A Taberna da Índia: o jovem Cristobalillo, trazido da Hispaniola por don Pedro de las Casas e empregado como pajem do seu filho Bartolomé, e uma bela canibal vendida a um taberneiro de Triana e rapidamente transformada na atracção do local pela fascinação erótica que produz e pela sua fama de trazer boa sorte a todo aquele que dela se aproximar.

Com admirável plasticidade e um extraordinário conhecimento da época, Antonio Sarabia reconstrói o quadro daquela Sevilha excitada pelas maravilhas mal entrevistas dos Descobrimentos e traça ao mesmo tempo uma terrível parábola da violência cega que haveria de manchar de sangue e infâmia a conquista dos novos territórios.

´

Em Beja, amanhã, Antonio Sarabia.

21.4.05

Dia Mundial do Livro 2005


Consegue imaginar um lugar onde a cada pessoa é dado, por direito próprio e para toda a vida, acesso à cultura, num sem-fim de livros, vídeos e cd's, todos ao alcance da mão?

Consegue imaginar um sítio onde, ao entrar, se sinta em casa e, simultâneamente, em todos os lugares do mundo, onde pode estar com toda a liberdade e simplesmente deixar-se invadir pelo espírito do lugar, sentar-se diante de um computador e, rapidamente, encontrar o que precisa sem que ninguém lhe pergunte o que está ali a fazer?

Consegue imaginar-se, confortavelmente sentado a desvendar mistérios e lendas, a perscrutar culturas através dos livros, dos vídeos, dos cd's e da internet?

Existem lugares assim, não é preciso imaginá-los.
Chamam-se BIBLIOTECAS PÚBLICAS MUNICIPAIS

e há sempre uma perto de si. Perto do coração!


Não são apenas os bloggers a escrever coisa bonitas ;-)
(do programa do Dia Mundial do Livro, 2005, na Biblioteca Municipal José Saramago - Beja, já em circulação)

Contráriamente

ao que possa pensar quem passa de vez em quando por este espaço de divulgação "cóltural" e abanca ao balcão a beber uma "mines" enquanto come uns tremoços e observa a azáfama da directora técnica, gerente, operadora de som e luz, apresentadora, empregada de limpeza, Presidente da Direcção e, em simultâneo, membro único do Conselho de Administração e da Assembléia Geral e artista de TV e Disco de serviço, quando não há cachet para pagar a outros, a gaja, entenda-se, a ilustre proprietária do estabelecimento, tem mais o que fazer!

Ou seja, ficam vocelências avisados que, durante o dia de hoje não vai haver nenhuma novidade no cartaz de espectáculos, uma vez que ainda não descobri como é que se faz para conseguir estar em dois lados ao mesmo tempo.

Faxavôr de apagar as luzes quando sairem, por causa da seca, da crise e não vá dar-se o caso de algum sem-abrigo decidir que isto aqui é um bom sítio para abancar. Bom Dia!

20.4.05

Do cansaço...

...e outras coisas mais terminadas em *oda-se

tais como ter a merda do computador cravado em spam, que se colou, como qualquer microorganismo virulento que se preze, a alguma das partes deste corpo feito de (um computador é feito de quê?) sei lá que componentes e que agora não consigo desinstalar. Seja lá o que fôr, isto fecha-me o Microsoft Explorer, não me deixa abrir o email, encrava-me o monitor a meio de uma simples leitura e eu sei lá. Podem imaginar o que é que isso representa para quem, como eu, está a meio de algo - o encontro de Sábado - que passa quase exclusivamente pelo computador...isto, aliado ao cansaço de passar dias a correr, de ter que postar coisas em relação a este compromisso que assumi convosco, os convidados que hão-de fazer do Dia Mundial do Livro em Beja, um sucesso e um momento que irá ficar guardado nas memórias de muitos de nós, e os outros que, não podendo estar presentes, de alguma forma nos acompanham, aqui, na caixinha virtual e vibram com a nossa alegria de irmos estar juntos e esperam notícias.
Daí, a quase ter um ataque de coração pelo mal entendido com a Gotinha (;-) ali na caixa de comentários mais abaixo, foi um fósforo. Pensar que poderia ter ofendido alguém, por uma gaffe que cometi estúpidamente, e que isso iria acontecer apenas porque não nos conhecemos e neste espaço virtual não temos olhos para ler a alma da pessoa que temos à frente ou timbres de voz para perceber da mágoa ou do riso, afectou-me de uma forma que não imaginaria. O que me transportaria agora (ajudada por uma certa conversinha telefónica, diga-se a bem da verdade, obrigada pá!), para a reflexão sobre a verdadeira importância que isto deve, ou não, ter nas nossas vidas, as reais, se não estivesse cheia de sono e conseguisse raciocinar, o que não é o caso.

Criam-se aqui laços, sem dúvida. Amigos de verdade, alguns. A quem tivémos a sorte de conhecer ao vivo e a cores e confirmar, ou não, que queríamos mesmo ser amigos, extra blogs.
Mas da mesma forma se criam, com tanta facilidade, equívocos. E que nos afectam, porque somos todos de carne e osso, do lado de cá, tal como nos afecta se, no dia-a-dia em que nos movemos, descobrirmos que algo correu menos bem com alguma das pessoas que nos rodeiam. É uma reacção normal e saudável, temos é que aprender a relativisá-la.

Tudo isto, já nem é a propósito da Gotinha que é muito "boa onda" e que se apressou a desmascarar a brincadeira que tentou fazer comigo e que eu, fruto das porras todas que refiro mais acima, terminadas sem *oda-se, não percebi (bem tansa é o que sou, o que ainda me vão gozar cá, à conta disto... ;-)).

Mas, tudo isto, é a propósito de a minha filha ir amanhã a uma viagem de estudo. Do seu entusiamo infantil enquanto, ao jantar, preparávamos a mochila com os lanches e da minha falta de atenção. Dos meus "sim, querida", "ok, meu amor", "sim, levas os sumos de que gostas", enquanto nem a ouvia, a pensar no que teria corrido mal dentro desta caixa. Da pressa que tive em a deitar, não porque a queria a descansar cedo, mas porque ansiava por vir aqui, ver o que se tinha passado de errado, enviar emails a desculpar-me, corrigir tudo, fazer tudo certo. Gosto de dar o meu melhor naquilo que faço, quando me comprometo. Gosto de dar as melhores respostas às responsabilidades que assumo. Aí tento fazer tudo certo.

Não fiz nada certo hoje, com o meu bem mais precioso. Foi tudo errado. E não há nada, neste mundo, que o justifique.

E este texto, não valendo nada, não emendando nada, é uma tentativa de redenção, a estas horas da noite.

18.4.05

E cá está ele

com a devida ressalva a eventuais surpresas que ainda venham a acontecer...

Quem quiser associar-se à iniciativa pode chegar a que horas quiser e participar em tudo o que lhe apetecer ou limitar-se a ficar sentado na cafetaria da Biblioteca e a pôr em dia as revistas ou artigos científicos mais recentes.
Sintam-se à vontade para chatear a equipa que vai andar por lá a cirandar, (eu incluida...) e que tem como missão fazer tudo para vos "satisfazer o desejo de requinte", que é como quem diz para que se sintam em casa (vão ver que o conseguimos!).
O jantar por entre as estantes dos livros, lamentávelmente, será só para os convidados oradores e acompanhantes, mas Beja tem uma quantidade considerável de restaurantes e tascas a preços variados, com boa cozinha alentejana. (se quiserem saber, perguntem a alguém nesse dia) e podem sempre trazer farnel para acompanharem a prova do Barca Velha ;-)

No final da noite, a açorda alentejana está garantida para os mais resistentes (sempre quero ver quantos é que se aguentam à bronca...)

Mal posso esperar pela vossa visita!


DIA MUNDIAL DO LIVRO
23 de Abril
PROGRAMA

Manhã - “Arruaça” de palavras nas ruas da cidade
Organizado pelas alunas estagiárias do curso de Animação Sócio-
Cultural da ESE de Beja

14.30h/24h Mercado do Livro

15.00h - Histórias na minha cidade – o livro gigante dos contos de
Beja
Com a participação dos alunos da ESE de Beja e dos ilustradores
Cristina Malaquias, Miguel Horta, Pedro Leitão e Carla Pott

17.30h - No fundo da mata eu vi
Sessão de contos pelo contador brasileiro Roberto de Freitas

19.30h - Para que as nossas histórias tenham um final feliz
espectáculo de contos para jovens e adultos, por Roberto de Freitas

20.30h - Apresentação do livro Barca Velha: Histórias de um Vinho
da autoria da jornalista Ana Sofia Fonseca; colaboração do
enólogo José Maria Soares Franco
Prova do néctar dos deuses

21.00* - Letras de Espanha
conversa à volta dos livros com os escritores Rosa Montero e
Antonio Sarabia

22.00h - Paixão, Amor e Sexo
pelo psiquiatra Francisco Allen Gomes

23.00h - Falam, falam...ou a escrita de humor em Portugal
por Ricardo Araújo Pereira, da equipa dos “Gato Fedorento

24.00h - Camões é um poeta rap
pelo grupo de teatro Arte Pública

24.30h - Eu blogo, tu blogas, ele bloga... com a presença (e a revelação) dos autores do 100nada, Charquinho, Ruínas Circulares, Gato Fedorento, Espelho Mágico, BLOGotinha, Barnabé e Blogue de Esquerda.

01.30h – Espectáculo musical Vozes do Brasil

* das 21.00 às 23.00 A Biblioteca organiza um serviço de babysitting, para que possa disfrutar, em pleno da nossa programação

Numa cidade acordada, uma biblioteca sem sono

Uma noite para mais tarde recordar! 23 de Abril até às tantas!

17.4.05

Ufffffffff!!!!!

Fui parar, por curiosidade, deixa-me cá só ver o estilo daquilo, (como sempre e foi assim que o gato morreu, mas adiante), a partir de um blog que estava a ler, a um novo blog, de um dos colunáveis da nossa praça, que é como quem diz alguém que é televisionável e outras coisas mais terminadas em ante, (como importante, para quem não percebeu...dasse, que tem de se explicar tudo), que não vou dizer quem é, porque não acho que deva e até nem interessa para o caso, que é o que vem a seguir.

Cruzes, que aquilo é uma lambebotice pegada, uma peganhice, uma coisa a tresandar a pouco sentida e genuina, a lisonja barata só porque é in comentar o blog deste gajo (com o devido respeito que até tenho alguma simpatia pelo senhor).

Venho aliviada, o que é bem visível lá no título deste post, por não ter tido o horror de encontrar, entre os comentadores, nenhum dos meus amigos ou sequer dos blogs que tenho linkados e que habitualmente visito.

O que me leva a um tema que me parece interessante abordar na conversa de sábado, ou antecipar em posta, como irá fazer o meu sócio, Shark, no seu blogue e que é a sorte que temos de não ser colunáveis. Assim, temos a certeza que quem nos comenta, fá-lo porque sente vontade disso, porque a posta lhe causou algum tipo de emoção, porque se sente bem a entrar na conversa com a outra malta que também pára por ali, o que à partida pressupõe que terão pontos em comum. Ou só porque lhe apetece insultar-nos, o que não deixa de ser um motivo tão legítimo como outro qualquer...
Imagino que não deve dar gozo nenhum a um gajo, entrar na sua própria caixa de comentários e não saber quanto daquilo é verdadeiro. Porque, como já concluimos em mais do que uma ocasião, um blogue também se faz dos comentadores que tem. E julgo que poucos discordarão deste pressuposto.
Discordem ou concordem, fica o repto lançado.

Paixão, Amor e Sexo

é o tema da conversa que o psiquiatra Francisco Allen Gomes irá ter connosco, lá para as dez horas da noite, com todos quantos tivermos a sorte de estar na Bilioteca Municipal José Saramago de Beja, no próximo Sábado.

Paixão, Amor e Sexo: são estas as palavras que dão o título ao conjunto de textos que Francisco Allen Gomes editou em livro a propósito da sexualidade humana, dissecando-as até chegar à ideia de como regem a conduta humana.
No final da análise dos conceitos (leia-se o primeiro capítulo) fica a ideia de que o comum entre a paixão, o amor e o sexo, ... é mesmo o sexo, conforme salientou o autor! E vai desde logo avisando que não há receitas ou soluções milagrosas: é a “diversidade” que domina esta área e isso é “uma fonte de problemas”.
Um bom ponto de partida para a discussão é uma das frases que ele escreve neste seu livro: “Pobre sexo: ou não se faz e sofre-se; ou faz-se e sofre-se ainda mais”.



Um livro indispensável se atentarmos na Sinopse:

Em PAIXÃO, AMOR E SEXO, Francisco Allen Gomes, médico psiquiatra, debruça-se sobre a química dos grandes vínculos afectivos, as origens e continuidade do amor, o erotismo, o desajustamento sexual e as causas do sofrimento emocional, mostrando que as desordens da paixão são bem mais perturbadoras do que muitas das disfunções sexuais.
FRANCISCO ALLEN GOMES aborda, de forma sintética mas rigorosa, as questões mais prementes da sexualidade humana, numa obra que reflecte a sua vasta experiência clínica e o conhecimento da investigação científica mais recente.
Um sério contributo para comprender melhor a sexualidade e para uma tomada de consciência da forma como cada um reage, sente e se emociona, nas suas interacções amorosas e sexuais.


E eu diria ainda mais: Uma conversa indispensável, no dia 23.

15.4.05

Tenho

desde o passado Domingo, dois cravos vermelhos dentro de uma jarra. É uma jarra fininha e transparente, que está em cima da bancada da cozinha.
De cada vez que entro na cozinha, olho para aqueles dois cravos vermelhos, não um, não um molho deles, mas dois, e lembro-me de 31 anos de vida.
31 anos, desde 74 até ao dia de hoje, ou melhor, até ao próximo dia 25.
Acabei de vir agora da cozinha e pareceu-me ouvir o Zeca a cantar...

Não sei bem porquê mas achei que tinha de partilhar esta informação convosco.

14.4.05

Mundo inventado

O lago redondo com a escultura de mármore rosado que parece uma folha e tem um pássaro lá pousado. Branco. O pássaro.
O ruído de água que corre, sem se ver, e que às vezes nem se ouve porque nem sequer corre. Aquele lago está muitas vezes avariado. Gosto de ouvir a água correr, das vezes em não está. Avariado. Há grandes chapéus de sol, de linho branco, que nos protegem da luz forte, quando nos sentamos, de frente para o lago a ouvir a água. Mas eu não quero ser protegida do sol, porque mo cobrem com esta espécie de telhado portátil? Quando aqui me sento, de pernas esticadas, em frente do lago, é para que os raios de sol me aqueçam e a luz me doure a pele e se reflicta nos cabelos. Quero que o sol me beije.
Gosto de cheirar o aroma de café, que sai de mansinho pela porta e se instala nas narinas, numa antecipação gulosa do que irão sentir as papilas. Na língua, as papilas e o café, em goles pequenos, muito quente, muito forte, muito bom. Continuo a tentar ouvir a água correr. Não quero que se sentem junto a mim, inventem uma desculpa, sorriam, Boa-Tarde, contornem o local onde me encontro, este é um momento escolhido por mim, ninguém tem o direito de o mudar. Trago um livro. É um livro pequeno, de páginas amarelecidas, que guardam o toque de muitas mãos. Com a minha, traço a textura do papel, passeio os dedos pelas páginas como se acariciasse um rosto, aqui estou, também, para sempre neste livro. Talvez possa ser um personagem daquela história. Será esse o momento supremo em que, deixo de ser quem está ali, sentada sob o toldo, de frente para o lago, e transponho esse limbo que nos separa do mundo dentro dos livros. Um mundo inventado em que também se pode existir. E amar.

Quando virou a página, viu que caminhava por um campo verde, cheio de papoilas. O sol na pele e um pássaro que, de vez em quando, lhe pousava no ombro. Branco. Parou de repente para ouvir melhor. Algures, o barulho de uma cascata de água a correr. Sorriu.

Pára tudo!!!

Dizia alguém ali em baixo, que parecia haver pessoas a saber das iniciativas do programa do Dia Mundial do Livro, antes mesmo de eu as pensar.
Eu cá diria antes que, nisto como em outras áreas da vida, há quem não consiga perceber porque é que está out. Precisamente por não ter capacidade para estar in. E tenta, tenta, remar contra a maré, sem querer ver que a força desta o lançará sempre de encontro às rochas pontiagudas. Onde, naturalmente, se esborrachará todo, em frente a toda a gente.

Ora bem, meus caros, este relambório para colocar os pontos nos ii e anunciar outra revelação, mas esta não digam nada, MESMO!
Muito, mas muito em segredo (tou a baixar o tom de voz, cheguem lá para aqui as orelhas) posso adiantar, com pompa e circunstância e trompetes a tocar (só falta a passadeira vermelha, mas já há quem se tenha oferecido para a estender, por isso não me preocupo), que...
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Os famosíssimos Barnabé e Blogue de Esquerda vão também estar presentes!
Será possível? Há quem não queira acreditar, mas como?, ouvem-se desmaios e risos nervosos pela sala, um frou-frou de cochichos em catadupa, as linhas telefónicas congestionam, preparam-se posts de emergência e novas estratégias de aproximação, e agora, e agora??
É simples, pomos mais dois lugares à mesa!
;-)

13.4.05

Atendendo

ao interesse que está a despertar a iniciativa Eu Blogo, Tu Blogas, Ele Bloga, nos locais mais insuspeitos, dentro e fora da blogosfera, adianto apenas mais um cheirinho, dizendo-vos que vamos ter a presença de alguém, que o caríssimo Luis Ene descreve, no seu blog, desta forma:

Rosa Montero é a menina de vestidinho curto e meias brancas que passou quatro anos presa a uma cama. A adolescente rebelde que abandona a casa paterna quando poucas se atreviam a fazê-lo. A jovem meia "hippy" que, no fim do franquismo, divide o apartamento com uma amiga e só come queijos, maçãs, ovos cozidos e barras de chocolate. A filha de toureiro, feita acérrima defensora dos direitos das mulheres, dos imigrantes, dos animais. A profissional a quem se confia responsabilidades enormes - como entrevistar a peculiar Indira Ghandi ou cobrir a entusiástica queda do Muro de Berlim. A escritora de 53 anos, cabelo vermelho, tatuagem no antebraço, que a crítica aprendeu a respeitar.

Rosa Montero recusou-se a crescer, crescendo. "Algum bem faremos à sociedade com o nosso crescimento meio abortado, com a nossa maturidade tão imatura, pois de outra forma não permitiriam a nossa existência", escreve ela em "A Louca da Casa". Fala dela, sim. Fala dos ficcionistas em geral também. Porque dentro de um escritor mora muita gente. "O romance é a autorização da esquizofrenia" e "ser romancista é conviver harmoniosamente com a louca de cima", a imaginação.

Dos diversos livros de Rosa Montero, há que destacar "A Filha do Canibal", "Amantes e Inimigos", "Paixões" (todas da Editorial Presença) e "Histórias de Mulheres (da Asa). Mas "A Louca da Casa" é, para ela, a sua obra maior. Não por ser a última, adverte. Por ser algo "único".


Segundo segredo (shhhhhh): Ela mesma, Rosa Montero.



À conversa com todos os que cá estiverem, no dia 23.

12.4.05

Estou aqui

que nem posso!
Sabe tão bem, mas tão bem, ter um segredo que só nós conhecemos, com mais meia dúzia de "eleitos"!
Lálálálálá...pois sabe...mas ainda sabe melhor quando se pode contar a alguém, atenção pá, que é segredo, ouviste? vê lá, não me lixes, olha que não é para dizer ainda, ok? Então olha, sabias...e lá fica o nosso segredo, ajuramentado e guardado por outro alguém que, por sua vez, dali a algumas horas, há-de dizer a outro, bem, estou aqui que nem posso, tenho que te contar mas olha!, foi a X, ouviste? e só me contou a mim, por isso vê lá...e assim sucessivamente, numa cadeia interminável de fiéis guardiões de segredos...cof, cof...fechados a sete chaves.
Pois bem, a partir de agora, e só aqui para vocês que ninguém nos ouve (lá isso, é literalmente...), adorado público, senhoras e senhores, meninos e meninas, tenho a honra de apresentar, em primeira mão, Eu blogo, Tu blogas, Ele bloga..., numa Biblioteca perto de si (de mim, mais própriamente, e para sorte minha, ehehehe), com a presença, já confirmada (yes!!), dos queridos autores dos famosos blogues, Ruínas Circulares, 100nada, Charquinho, mais a BLOGotinha e ainda, do não menos famoso Ricardo Araújo Pereira que irá lançar a confusão, que é como quem diz, para o caso em apreço, moderar a conversa, que se pretende informal, divertida, irreverente, informativa q.b., participada (querem vir???), em suma, uma visão sobre esta nova forma de escrita, ou de "produção independente" (independente de editoras, entenda-se), que vai adquirindo maior importância, a cada dia que passa, no "admirável mundo" da blogosfera. E será uma visão muitíssimo abalizada, se tivermos em conta que os mocitos e as mecitas se encontram lá no cimo dos tops todos das estatísticas, quer seja de número de visitas ou de número de comentários, do Weblog, que é assim a modos que o senhorio dos gajos, e do Blogger que é o mesmo mas é estrangeiro.

Não haveria altura mais adequada para o fazer do que agora, a propósito das comemorações do Dia Mundial do Livro, no próximo dia 23 de Abril, ou não fossem estes autores, cada um ao seu estilo próprio, os protagonistas da criação de verdadeiros textos literários.
E pronto, shhhh, não digam a ninguém, brevemente a coisa será tornada pública, com todos os detalhes.
Ah, e eu sou a anfitriã (again...), até porque sou amiga dos gajos, pensavam o quê, que não ia aproveitar este facto para me pôr em bicos de pés, não?!! Era só o que faltava, depois do trabalhinho que tive ...(tu incluída na categoria gajo, como é óbvio Catarina...) ;-)
Lálálálálálá...tou que nem posso...

10.4.05

Percorremos




por vezes, as nossas memórias, como quem segue pelos trilhos marcados no caminho que desbrava uma floresta. São marcas indeléveis no percurso, que modificaram a face do arvoredo e lhe deram novo rosto, deixaram carreiros de terra batida onde antes havia mato, e ao lado do caminho o círculo de pedras onde acendemos uma fogueira para combater o frio da noite.
Ficaram por lá, essas marcas da passagem por aquele caminho, em direcção a outros.
E assim são também as memórias que temos de tempos idos, em que caminhámos por dentro de nós e nos transformámos, de jovens à descoberta do mundo, em adultos, pessoas mais ricas e plenas de vivências bonitas.
Muitos anos mais tarde, por uma picardia do destino, cruzamo-nos com outras pessoas que, nessa altura, provávelmente, se sentaram de costas viradas para nós na ponta de um mesmo banco corrido. Ou se debruçaram na mesma balaustrada de madeira de uma certa discoteca junto ao mar, talvez a escassos metros de distância, na varanda sobre os rochedos iluminados, onde as vagas morriam docemente em noites de lua-cheia...Há caminhos escritos nas estrelas, sem qualquer dúvida. E o Seagull foi um dos vários locais marcantes da minha juventude, nos loucos anos 80. Tal como o Jamaica e o Tokyo, ou os bolos quentes da padaria da Praça do Chile, numa qualquer das alvoradas esfomeadas que nos encontravam à saída de mais uma noite inesquecível.
São registos que não é possível esquecer, responsáveis pelo que somos hoje como pessoas. Foram momentos de sorver a vida em todo o seu esplendor, de criar laços, de desenvolver sentimentos de pertença e de partilha. Quantas vezes nos teremos cruzado, nas filas que esperavam pela saída dos tabuleiros de pastéis de nata e bolas de berlim fumegantes, a espalhar o seu doce aroma pelas avenidas envoltas na humidade da madrugada? Quantas noites no Cais do Sodré, com Jim Morrison e Riders on the Storm nos ouvidos e uma superbock na mão, escadas que um desce e outro sobe, a caminho dos lavabos?
E, no entanto, hoje, aqui estamos nós. Capazes dos mesmos actos loucos e irrefletidos desse tempo.
Com a mesma irreverência desses tempos de cabelos compridos e vestes negras. Em que sonhávamos ser jornalistas, antropólogos no meio de uma tribo perdida ou artistas de circo.
Eis-nos, no adro de uma pequena igreja branca com barras azuis, numa qualquer localidade perdida do interior, numa tarde soalheira de Primavera.
Nos olhos, o mistério de uma chispa que afinal não tem idade. Nas mãos abertas, a química complexa, como se fosse o magnetismo de um metal raro. No peito e nos corações, o esvoaçar de asas que, só quem sabe o valor das pequenas coisas consegue sentir.

Hoje, os locais são outros, já quase não há florestas por desbravar, a padaria do Chile poderá ter fechado. Mas a força que move os seres especiais, essa, não morre nunca.

8.4.05

A partir

de hoje passei a fazer parte da restrita lista de eleitos que o Jorge Morais considera terem capacidade de desempenhar o papel de convidado da semana no seu blog.
Óbviamente vaidosa com a proposta, esforcei-me por produzir qualquer coisita que não envergonhasse quem me dirigiu tão gentil convite. Se o consegui ou não, não sei, mas sei que o "intróito" que ele escreveu ao meu texto me catapultou o ego lá para as nuvens.
Obrigada de novo, Jorge.


Como escreveu Fernando Pessoa, "Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu". Resumindo, o mar pode ser uma fonte de tormentos, mas é também uma espécie de Espelho Mágico.

No entanto, algo está errado, no mundo real. Sendo o mar tão belo, na minha modesta opinião, deveria ser feminino. Felizmente, na blogosfera, este erro foi corrigido, e temos a Mar, plena de maresia tornada poesia, reflectindo a beleza das suas palavras pelo Espelho Mágico.

E hoje, a Mar veio encher este meu blog de odores, imagens, sons, sabores e sensações marinhas. Usem os cinco sentidos e deixem-se arrastar com as suas palavras...

O muro


(depois hei-de trazê-lo para cá, mas agora penso que deve ser lido em casa do anfitrião) :-)

7.4.05

A pensar

que, nesta treta de blogs, como na vida, encontramos de todas as variedades de género humano. A diferença é que aqui, os gajos deixam coisas escritas, preto no branco, que tornam mais fácil a identificação.

Pena é não lhes podermos espetar com uma etiqueta nas orelhas...

(esclarecimento: post a embirrar com uma cena que vi num outro blog que não este - mais específicamente, em dois - e que nada tem a ver com os queridos comentadores que tenho a sorte de ter por aqui)

O muro

Do outro lado do muro estava o mundo. E nunca o tinha atravessado. Nunca a coragem suficiente para o subir a pulso, um pé aqui, numa saliência da pedra coberta de musgo verde, outro mais acima, os dedos bem seguros numa ranhura, a força de braços, um impulso e enfim, o topo, a parede plana e o horizonte do outro lado, a perder de vista. Não que soubesse como era, mas imaginava que seria assim: a grandeza infinita e azul. Parecia-lhe que haveria de ser azul não sabia bem porquê, talvez porque o seu olhar apenas conseguia ver o céu e essa cor e por isso imaginava que ela, do lado de lá, se estenderia a tudo o resto.

Sonhava todos os dias com o momento em que haveria de pousar os braços no topo do muro e deixar-se ficar, em êxtase, em contemplação. Talvez depois se sentasse. As pernas penduradas já do lado de lá, a balançar, as mãos no regaço ou estendidas para o céu, tão altas que quase tocariam as nuvens. Aqueles pedaços brancos de algodão, que às vezes tentava alcançar subindo para cima de um monte de terra. Ficaria ali muito tempo. Sentada, a recuperar o fôlego, à espera que o coração parasse de bater em galope louco, resultado de um misto do esforço dispendido na subida e da ansiedade que a consumia. Dividida entre o medo do desconhecido, e o desejo de desvendar os seus mistérios.

Certa vez, ousara subir para duas ou três das enormes lajes que compunham o muro, a perder de vista em direcção ao céu. Mas não mais que isso. Sabia que no dia em que se decidisse, já não haveria volta atrás. A subida teria que ser de sentido único, irreversível. Seria o dia em que deixaria de ser quem era, para passar a ser quem sempre tinha querido ser. Aquela por quem esperara toda a vida. Quieta, ali, enclausurada na arena plana delimitada pelo muro, naquele espaço à sua medida onde estava desde que se conhecia e onde, aos dias azuis se sucediam as noites e as estrelas, num calendário que ela seguia religiosamente, para nunca se esquecer de quanto tempo passara. Desconhecia tudo o que estava para além destes seus dias, do regato cristalino onde se banhava, desta espécie de redoma que lhe permitia existir com tranquilidade e segurança, contudo, sem magia.
Às vezes encostava-se às paredes de pedra fria, ao musgo fresco com cheiro de terra, fechava os olhos e deixava que despertassem todos os outros sentidos. Aspirava com deleite o aroma que adivinhava do lado de lá, a flores e a maresia, ouvia o piar aflito de um pássaro mais incauto que, por vezes, ali se prendia, sentia com a palma das suas mãos suaves a rugosidade da pedra. Colava todo o seu corpo ao muro, como se quisesse, dessa forma, abraçar o mundo que estava do outro lado. Tão próximo...

Uma noite, àquela hora em que a aurora já raia de cor-de-rosa o escuro do céu, acordou em sobressalto. Mais que o estrondo, o barulho, tinha sido o tremor no seu peito o que a havia despertado. O pressentimento.
E quando se ergueu, ainda confusa, olhando em redor, não viu o muro. O círculo de céu azul que via sobre a sua cabeça todos os dias, tinha crescido para todos os lados, rodeava-a, estendia a mão receosa ainda e tocava a imensidão. Deu alguns passos hesitantes, depois mais um e foi então que o viu. Estava ali de pé, parado, imponente como uma estátua de sal, contra o brilho do sol acabado de nascer, que a ofuscava.

Sem nada dizer, encarou-o com o seu olhar sonhador e deu-lhe a mão.

6.4.05

Resta -nos

muito pouco tempo para a escrita quando, todo o que temos é passado a viver. Quando os dias se esgotam num ápice, as horas se esfumam em voos de minutos e o tempo não nos chega, nem para o que costumava ser a rotina de expediente normal. Há tempos assim. De vida intensa. Em que os compromissos profissionais nos absorvem boa parte da energia e a que resta....tem que ser canalizada para valores muito mais altos que este quadradinho branco insaciável.
Há tempos em que a nossa existência se veste de cores vivas e frescas, caminha a par e passo com a Primavera, e os sorrisos descem dos olhos para a boca e daí para o corpo todo.
Têm estado umas manhãs gloriosas nesta terra calma de interior. O sol, bem alto, carrega as baterias que fomos gastando ao longo dos meses cinzentos que passaram por nós, cinzentos embora secos. É nestas manhãs, muito cedo, quando a brisa fresca está ainda lavada, nesse dia que (re)nasce e as folhas das árvores têm um verde da cor do mar profundo, que eu encho o peito de ar e de vontade de não desperdiçar nem um bocadinho de tudo o que a vida tem para me oferecer. De bandeja.
E é com intensidade que tenho passado por estes meus dias de brisas leves e luas brancas e redondas, que influenciam o ritmo das marés.
Dias de palavras com som e gestos adivinhados. De uma paz serena e de exaltações constantes. Dias longos e difíceis de riscar um a um no calendário e, em simultâneo, dias que voam com asas brancas.
Estados de alma extremos mas que, ao contrário do que parece de imediato, não são incompatíveis e encaixam uns nos outros com a precisão de peças de um puzzle, ou as rodas dentadas de um relógio suíço.
Dias que me aproximam do que um outro dia fui e do que quero ser.

Não, não resta muito tempo para a escrita.

4.4.05

Malmequer

bemmequer-muito-pouco-ou nada.


malmequer Posted by Hello

Andei ontem pelos campos outrora cobertos de papoilas e malmequeres amarelos nesta altura do ano.
De papoilas noutros lados se falou e malmequeres apenas consegui este, branco, resistente à falta de água e à terra gretada.
Uma flor que vos entrego. Para memória futura.
Não vai haver água que faça nascer a giesta e o rosmaninho. Nem mesmo a esteva parece ter força suficiente para fazer vingar a sua flor altiva e solitária.
E o Homem, de pé, como as árvores, estende o olhar pela planura castanha e sonha com o dia que há-de vir pintar de verde a sua terra.