2.11.05

Porque

para reabrir este Espelho, ainda que temporariamente, sómente por uma boa causa...
Agradeço a todos quantos ainda continuam a vir aqui, depois de 3 meses de ausência da minha parte e endereço-vos um pedido: Passem a ir aqui, ao que vos mostro em seguida. E não só: passem a ir lá todos os dias e a dar um pouco da vossa experiência pessoal, do vosso tempo, da vontade que encontrem de ajudar mais uma criança a sorrir. Eu e muitos outros, já lá estamos.


Proximizade


Proximidade e mão amiga. "Proximizade", feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que se sabe e ao que se vê.
Aqui, já está a acontecer.


21.7.05

O caminho ali de baixo...

...acaba aqui.

Gostei muito. Obrigada a todos.
Mar

(...)

e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:

crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,

e certa manhã sentir os passos
de abril

(...)

Eugénio de Andrade

20.7.05

Sobra-me




o sol por entre as pedras brancas da calçada.
Os dias parados, a ouvir o bater morno do coração.
Sobram risos de criança ao longe, cheiros fortes de café, uma gaivota recortada contra um céu infinitamente azul.
Sobra-me vida, a sair pelos poros abertos em reacção ao suave toque do vento. O riso e o arrepio, a carícia do cabelo com cheiro a pêssego, que descansa sobre um ventre ainda em frémito.

E vêm até mim vozes de outros dias, um olho entreaberto em luta contra o sono que lhe pesa, bocas molhadas de beijo.
Sobram bocados soltos de caminho, como se fosse um vestuário demasiado largo a cobrir um corpo de tamanho dois números abaixo.
Um corpo franzino a tentar aconchegar até si, a trazer para bem junto da pele, esse conforto breve e feliz.

19.7.05

E de repente


daqui

eis que apanhamos com a vida pelas trombas em toda a sua miséria e esplendor.

É nessas alturas que nos tornamos mais produtivos, no plano das análises e reflexões. No meu caso, isso traduziu-se em dar por mim a pensar nas diferentes formas que as pessoas têm de reagir a determinados acontecimentos.
Mais expansivas umas, mais reservadas outras, todas têm uma postura emocional de resposta a situações de dor ou alegria que as distingue umas das outras. Uma postura emocional e até mesmo uma postura física. Os sinais corporais, por si só, bastarão a um olhar entendido ou mais atento para indicação do que aquela pessoa sente, num certo momento.
Passei recentemente por alguns acontecimentos que envolveram grande dor, de pessoas que me são muito próximas. Não foi a primeira vez, nem será a última. A morte é algo de muito infalível.

Nestes momentos é comum a quase toda a gente que o corpo se contraia, se curve sobre si próprio, adopte uma atitude de auto-protecção, que os braços envolvam os joelhos, se estamos sentados ou as costas se curvem para que o rosto se aproxime do peito, se estivermos de pé. De todas as formas, parece haver uma espécie de procura da origem de todos nós, do útero onde estivemos em paz, onde o mal não nos chegou, a posição fetal que, no subconsciente colectivo (ah Freud, Freud...), se mantém a mais segura. Como se assim se pudesse adormecer a dor.
É quase um regresso ao início do processo da nossa existência para que possamos renascer, de ombros para trás e queixo levantado, no momento em que a felicidade nos atinja de novo.

Já as reacções emocionais não são tão lineares assim. Pessoas mais expressivas ou com menos cicatrizes que endureçam o músculo das emoções, têm facilmente a capacidade de chorar. É automático o saltar das lágrimas em resposta a uma angústia, quase reflexo condicionado, sem requerer grande intensidade da causa que as despolete. Assim quase como as crianças, de olhos feitos de água pura, que sai naturalmente como resposta a qualquer frustação, qualquer sensação de menos conforto.
Já outras não.
Por serem menos expansivas ou por anos a fio de necessidade de parecerem fortes, essa água fácil e redentora foi sendo empurrada para o fundo do ser, não posso chorar, como palavra de ordem empunhada no cérebro ao mesmo tempo que endurece a face e se retrai o corpo.
Na maior parte das vezes, conseguem enganar bem os outros. Os menos atentos. Têm uma aparência forte e segura, nada as abala, podem até ser classificadas de frias ou insensíveis. Seja por orgulho, ah o orgulho, esse animalzinho indomável que habita muitos de nós, ou porque reagem numa espécie de choque aos acontecimentos dolorosos, são peritas em disfarçar os sentimentos de tristeza.
Esses, são apenas delas.
Mas sentem, com intensidade redobrada a mágoa que se esforçam por esconder.
Dói-lhes a dor e dói-lhes o esforço de a engolir, de a prender bem dentro delas, junto das outras dores, umas magras outras mais gordas, pequeninas ou grandes, que se acotovelam num espaço reduzido, elástico apenas até um certo limite que não é inesgotável. E que acaba por extravasar, quase sempre quando menos se espera, esvaziando enfim o reservatório de mágoas. Até à próxima vez.

É por isso que, ao contrário da felicidade, fácilmente mensurável pelo sorriso e o brilho do olhar, a intensidade da tristeza não pode ser medida em lágrimas. Se bem que, talvez, o brilho excessivo do olhar acabe por também a trair...

São giras, as conclusões que tiramos quando pensamos nestas coisas...
Ao menos damos uso aos neurónios.
Nas grandes dores da minha vida, nos piores momentos de todos, não fui capaz de chorar. Só depois. Por vezes, muito depois.
Normalmente, sózinha.

16.7.05



O gajo nasceu para aquilo.

É das pessoas mais inesperadas que já descobri através da blogosfera. Pela sua pose de gajo maluco, traída pela desconcertante bagagem cultural, que se revela quando fala de Borges, por exemplo, ou disserta sobre linguística. Pela criatividade absolutamente extraordinária de quem constrói uma animação a suicidar coelhos ou escreve algo como o sabor do Xau Silvestre.
Pela sensibilidade disfarçada nos insultos que larga a torto e a direito, mas que salta cá para fora se há um animalzito que lhe passa pelo ângulo de visão.

Este é, quanto a mim, um dos livros lançados a partir da blogosfera com maior propriedade. Este, para o João Pedro da Costa, poderá ser só o início. És capaz de fazer muito mais, chavalo!

p.s: esqueci-me de dizer que é impossível não gostar do gajo. E que podem ver a reportagem completa no Charco.

12.7.05

Sou

acometida por periódicas crises de "fé".
Manifestamente.
Sejam elas a propósito da Humanidade, da carne de vaca, do Luis Filipe Vieira (afinal o não sei quantos, Dédé, ou agora é Léo (tudo nomes amaricados...) é ou não é a nova aquisiçao?), do Santo Graal garantir a eterna juventude ou até mesmo da validade (eu quero é dizer do saldo, mas não é políticamente correcto...) do cartão de crédito, face à nova colecção Outono/Inverno da Stefanel, o certo é, que de vez em quando lá estou eu contra o mundo, a destilar a minha posição "do contra", só porque me apanharam em dia não. Ou semana, pronto...(normalmente passa-me antes disso, principalmente se alguém tiver o bom senso de me convidar para umas imperiais e me deixar "esbravejar" à vontade, até ter expurgado todo o mal que me despoletou a crise - e atenção, que o factor desencadeador pode ter sido uma coisa tão simples como a "cara de caso" de alguém que, no meu entender, não tem a mínima razão para agir assim comigo. Ou os sapatos que vesti nessa manhã, meio a dormir, não combinarem com a cor da camisola)

Mas adiante, como não podia deixar de ser, isto tudo aplica-se na perfeição à blogosfera e às suas virtudes. Ou defeitos. É para o lado que der.
Quem me conhece bem, sabe todas as vezes que tenho questionado o interesse em continuar por aqui. Em particular, depois de muita gente na cidade onde moro ter conhecido a minha identidade, tenho sido tentada, mais do que uma vez, a abandonar esta paragem espelhada, a abrir uma outra página, perdida algures pela net, para lá escrever o que me apetecer, se me apetecer, sem restrições de tema ou de tom.
Convenhamos que não é fácil, a exposição assumida ao longo de textos que, sendo ficção numa determinada percentagem, acabam por conter muito do que somos enquanto pessoas, com vidas e emoções próprias e para além daquelas que nos são conhecidas enquanto desempenhamos o papel do horário nine to five.
Estão aqui coisas que só contamos aos amigos e, mesmo assim, àqueles mais do peito, em quem confiamos cegamente. Estão aqui bocados de nós e dos nossos sonhos, os tais que, por pudor numa sociedade mesquinha e reduzida ao mal-dizer, todas as pessoas ocultam do gajo com quem se sentam diariamente para tomar uma bica no café da esquina. É, socialmente melhor aceite dizer mal do colega de trabalho, do que confessar que gostamos de ver o pôr-do-sol no mar ao lado do nosso mais-que-tudo. Ou que acreditamos que a Paz no mundo é possível. E, qual de entre vós, tem a coragem de afirmar que não tem, pelo menos um destes momentos de lirismo, ao longo do dia (chato) de trabalho? (ok, ok, também pode contar o delírio erótico com a vizinha do 6º andar, que até é boa comó milho)
Faxavôr de não assobiarem para o ar que eu estou a ouvir, ou julgam que isto é só em sentido único e eu não sei o que vos vai na alma?

Certo, certo, é que não está fora de questão que, um belo dia eu acorde com os pés prá lua e venha aqui comunicar formalmente a debandada para outro local mais aprazível. Em sítio incerto, como é óbvio. Confesso que me chateia que o senhor da mercearia, barricado por detrás de um molho de espinafres enquanto arruma a secção dos legumes, me pisque o olho com ar cúmplice, depois de eu ter aqui postado a minha última tarde de paixão. Fico logo sem vontade de escrever, em seguida, aquilo que penso verdadeiramente dos cuscos que não têm mais o que fazer do que andarem por aqui a tentar descortinar como vai andando a minha vida privada, sob pena de espantar de vez os que ainda vêm a este blog de forma desinteressada (vocês, queridos comentadores, pois, eu sei que sim).

Não é linear, o futuro deste blog.
Mas, enquanto me lembrar do sorriso desta menina ao dar-me o abraço em que nos (re)conhecemos, apesar de nunca antes nos termos visto (parabéns, linda!), ou da maluqueira deste agora famoso escritor (ansiosa por chegar 5ª feira, méne), insuperável em quantidade de palavras obscenas por frase, (com sotaque franco-tripeiro, nunca vi, palavra...), terei grandes reservas em arrumar a trouxa e sair desta "casa", através da qual cheguei às "casas" deles.

E de outros, nas quais me instalei como uma "okupa", em definitivo...

10.7.05

Não



gosto de caminhar pelas ruínas do que já fui.
Nem que tentem, à força, motivados por obscuras incapacidades pessoais, conduzir-me por caminhos tortuosos, de regresso ao que fiz.
Não sou saudosista, nem me prendo a retalhos do passado para enfrentar, de queixo levantado, os desafios do futuro e muito menos enquanto vivo, inebriada e cheia de certezas, os dias do presente...
Talvez por isso, raramente leia os arquivos deste blogue. E, das poucas vezes que o fiz, entretendo algum tempo de lazer mal passado, acabei por não me reconhecer, em muitos dos textos que produzi.
Porque são textos que parecem pertencer a outro alguém, que fui em determinada altura, moldada por circunstâncias específicas, e que deixei de ser, à medida que fui encontrando o Eu verdadeiro, aquele que procurei pelas estradas que percorri.
Se de algo me arrependo, nos actos que encarnei ao longo da minha vida, foi de ter traído os meus princípios e convicções, em nome de uma absurda tentativa de criar a pessoa que outros esperavam que eu fosse, num dado momento. Devia ter sabido, que aquela que se foi moldando numa argamassa de honestidade e tendo como força motriz a paixão e o amor, não seria capaz de recriar estes dois últimos numa situação que careceu da primeira. Tinha que ter sabido e essa culpa ninguém ma tira.
Se me arrependo, foi de ter tentado enganar-me e que isso tenha permitido o engano de outrém. Afirmo-me íntegra e assim me considero, apesar de ter falhado nesta prática, uma vez em toda uma vida. Uma única vez que não me parece o suficiente para me crucificar. Até por ter tentado, tão prontamente quanto o descobri em mim própria, desfazer o equívoco, com frontalidade e de forma definitiva. Assumir os erros é uma forma de os tentar contrariar, de os reduzir a um percalço atravessado no caminho e que não conseguimos contornar. Tivémos que o levar pela frente, até ser possível deixá-lo para trás.
E deixámo-lo, efectivamente, lá.
De uma vez por todas, definitiva e irreversível. Um percalço de que não nos orgulhamos mas que não podemos apagar. O que não significa que o lembremos, sequer.
Está apenas lá, uma pedra anónima e insignificante no meio da parede em ruínas. Um pequeno tijolo que, se retirado, não compromete sequer a estrutura da parede.
E mesmo cuja presença, não é sequer capaz de impedir a luz de irromper, por entre as falhas de uma composição que se esboroa a todo o momento.

A luz indicadora do brilhante caminho do futuro. Que seguimos sem olhar para trás.

7.7.05

Inventamos

novos dialectos, palavras nunca pronunciadas, uma linguagem de mensagens encriptadas que descodificamos com a ponta dos dedos.
No dia de todas as verdades, deixamo-nos ir no sabor a sal, no cheiro morno da pele lavada, nos cabelos revoltos.
Percorremo-nos em viagem alucinada, num caminho de savanas em fogo e mares profundos.
Depois, num sussurro de promessas e segredos inconfessáveis, despimo-nos de todas as capas, deixamos que caiam todas as máscaras e juntamos, de peito colado, um ao outro, o bater de dois corações.
E é aí que sabemos que chegámos a casa.

5.7.05

Queria





ser capaz de dar de mim a essência.
Essa estranha substância imaterial que preenche os espaços vazios entre aquilo que, de material, nos compõe, músculos, osso, sangue, lágrimas.

Queria que a minha verdade enquanto pessoa saísse de mim pelo gesto, etérea, a mão aberta estendida, e possuísse apenas aqueles que os meus olhos tocassem com um certo brilho, a verdade sob a forma de halo quase invisível, aspirado pelos outros como se de um perfume se tratasse.

Que permanecesse, tal como um perfume, preso na memória e no coração de quem ma tivesse lido - a essência - e que fosse indelével, como a linguagem gravada na rocha no princípio dos tempos.

Não queria que a reacção afogasse a emoção, que a palavra afrontasse a intenção, que Amor rimasse, às vezes, com Dor.




4.7.05

O post ecológico



ou de como o serviço doméstico é inspirador inesgotável de postas altamente transcendentes e metafísicas (ou algo assim parecido, que esta palavra agora parece-me que fica aqui lindamente)


Sim porque, embora estupidamente repetitivo e rotineiro, o facto de ser inesgotável (tão a ver, capisce? Inesgotável? lá em cima no título? dahh! perceberam o trocadilho? chiça, é preciso explicar tudo...), permite que haja sempre motivo para falar dele e pensar em utilizá-lo para produzir um post baril, enquanto se varre pela enésima vez a cozinha ou se retira a louça lavada do escorredor para, imediatamente a seguir, o tornar a encher de louça acabada de lavar. (coisa mais estúpida, apenas superada em estupidez pela necessidade convencionada de fazer a cama mal nos levantamos, quando, horas depois, temos que voltar a desfazê-la...já afugentei o que restava de homens casadoiros a frequentar este blog, mas adiante)

Bom mas dizia eu que – ou melhor, ia dizer quando fui interrompida pelo meu próprio pensamento - enquanto esmagava, de forma automática, as garrafas de plástico para reciclar, “ocorreusse-me”, assim de repente, que a maior parte das pessoas não viu, in loco, um aterro sanitário e, dentro deste, o funcionamento de uma estação de triagem de resíduos sólidos urbanos. E que, se o tivessem feito, assim tal como moizinha, nunca, mas nunca mais, teriam a coragem de atirar, pura e simplesmente, com as embalagens plásticas para dentro dos plasticões e regressar às suas lides com a consciência tranquila de quem já fez a sua quota para a salvação do planeta.
Olhamésta, aqui a pregar aos peixinhos, a dar palpites até parece que é engenheira ó o caneco, pensam vocês enquanto fingem com toda a delicadeza que me ouvem e que se interessam realmente pelo que estou a dizer.
Eu ignoro e continuo, olímpicamente.
Olhando, assim de longe, para uma operação de depósito do conteúdo dos ecopontos numa destas unidades de triagem, verificamos que 80% das embalagens, que pressurosamente separámos para reciclar, sai intacta de dentro do contentor, ocupando, em volume, o quádruplo do espaço que ocuparia se...estivesse esmagada e de tampinha posta para não regressar à forma original. O contentor receberia quatro vezes mais plástico para reciclar, se todos nos lembrássemos de fazer essa mecânica operação de esmagamento com o pé, enquanto pensamos no arroz branco que iremos fazer a seguir, ou gritamos aos miúdos, Kátia Vanessa tira-me já esses ouvidos do telefone que me desgraças, rapariga!, ou cogitamos que raio é que aquela meia desirmanada faz ali dentro do vaso da flor...ou enquanto afloramos outros temas mais, hum, interessantes, que nos vossos cérebros mandam vocês e já são crescidinhos o suficiente para poderem sacar de um rol atractivo de actividades, hum, lúdicas, enquanto executam tarefas mecânicas, sem precisarem que faça aqui nenhum desenho. Er...este post era sobre quê, afinal? Ah, reciclagem!

Pronto, ora nem mais e agora, adeus, adeus, que vou ali esfregar os azulejos da cozinha...

3.7.05

Abraço


a saudade do mar, em vagas que me desaguam no regaço.
Beija-me o sol.
Abandono-me de olhos fechados a esse calor, doce como favos de mel.
Percorrem-me os seus raios, como se fossem as pontas dos dedos de um amante, de um amor, como o toque suave dos cabelos de alguém na minha pele arrepiada.

Ao longe, testemunhas, apenas o murmúrio das ondas e o voo rasante da gaivota.

30.6.05

Passo

intervalos de tempo cada vez maiores sem actualizar o Espelho.
Por vezes, quando passo por aqui, com o tempo contado à justa para ler os comentários na última posta, sem oportunidade sequer de lhes responder nesse momento, auto-flagelo-me com culpas e remorsos, desejando ser a escriba produtiva que corresponda às expectativas de todos vós, que por aqui passam, vá-se lá saber porque cargas de água...
Noutras vezes, quando encontro um bocadinho para retribuir a simpatia de quem teve a pachorra de me deixar um feedback ao que escrevi, apetece-me colocar algo de novo, deixar-vos um sinal da minha presença por aqui, nem que seja uma frase maluca a dizer "não tenho tempo de dizer nada".
Acabo por não o fazer. Fazia-o em tempos, numa outra fase da existência deste canto perdido no éter. Agora, já não me parece que tenha tanto lugar esse tipo de "encher chouriços". Não depois de, alguém altamente abalizado, ter avaliado a minha presença por aqui, nos últimos meses, como bem melhor do que antes. De ter definido este, como um estádio de escrita mais maduro que o anterior.
(definição esta que a minha modéstia militante e auto-crítica feroz me impede de perceber, digam lá o que disserem, mas vá-se lá fazer o quê...)

É certo que, temos um blog porque nos dá prazer, porque é giro ver em letras pretas os devaneios que nos ocorrem enquanto conduzimos, ou tomamos um café numa esplanada, porque nos apetece, porque sim.
Mas, sabermos que somos lidos, e que somos lidos por pessoas que prezamos e admiramos, que temos ali na listinha do lado, que visitamos, nós próprios, religiosamente todos os dias, pessoas que escrevem, elas sim, duma forma que nos encanta, incute-nos um sentido de responsabilidade que nos impede de debitar larachas para cumprir calendário. (não confundam, debitar larachas é o que eu faço em 90% do tempo, mas essas são debitadas por opção e não apenas porque há 3 dias que não actualizo o raio do blog, mas adiante).
Prefiro abster-me de escrever seja o que fôr, enquanto não tiver a certeza que o consigo fazer com um mínimo de pés e cabeça, se não para os outros, quanto mais não seja, com coerência para mim.
E atenção, que isto não implica necessariamente que sejam coisas verídicas o que escrevo com coerência. Há muito de coerente numa história romanceada, numa ficção bem esgalhada. Muito mais até do que em alguns episódios da vida real...

Deixo ao vosso critério de argutos leitores, a interpretação do que é uma coisa e do que será a outra, nas prosas que vos tenho oferecido...e siga a Marinha! :-)

27.6.05

Tenho

uma mania parva.
Aliás, tenho várias, mas também não são para aqui chamadas, julgam que isto é algum divã e vocês Freuds de meia tijela, ou quê? Qualquer dia sabiam mais do que eu, olha pós espertinhos, hum?
Adiante, dizia eu que tenho um raio de uma mania que é não gostar de escrever em Word. O que eu devia fazer era isso, escrever, guardar muito bem as pérolazinhas de textos que me saem de vez em quando, ainda estou para saber como, mas enfim, nas alturas mais inesperadas, e depois utilizá-los nos timings que me parecessem mais certos, como fazem as pessoas normais.
Agora eu, não.
Antes, já o disse, pegava no papel que estivesse mais à mão, despejava tudo o que me passava à frente do neurónio e depois perdia o papel.
Agora - a tecnologia é uma coisa muito linda - mais sofisticada, abro o blogger, esgalho directamente tudo o que me apetece, na hora, e depois, guardo em draft.
Conhecendo-me, digna membra da APADEDICA*, já podem antecipar que isto não pode dar bom resultado...ou perco posts longuíssimos, lindos, irreproduzíveis, porque, no espaço de tempo em que os escrevi a net, entretanto, pifou por algum motivo, ou acabo a ter mais textos em draft do que publicados o que é uma tremenda confusão quando abro o edit posts.

Serve este intróito para pedir desculpa ao Mário e ao Sharkinho (e a quem eventualmente tenha lido o que publiquei há pouco e não tenha comentado).
Há uns dias, participei num momento de grande dor de uma amiga, o funeral de sua mãe, e escrevi sobre isso. Não me pareceu oportuno publicar e guardei para mais tarde. Hoje, fiz inadvertidamente publish a esse texto, ao relê-lo, e nem reparei. Só ao ir completar um outro que queria publicar é que me apercebi que o tinha feito e que até já tinha dois comentários.
Desculpem, hei-de voltar a colocá-lo, daqui a uns dias. Tenho que deixar passar mais algum tempo. Por respeito.

Hoje tenho coisas muito mais bonitas e importantes para dizer. Que saem já, já. Talvez depois de jantar. :-)

* Associação Para Defesa dos Distraídos do Caraças, sic Vague Maria

23.6.05

Padeço

de um problema.
Com os vizinhos. Ou melhor, padeço de vários problemas, um dos quais com os vizinhos.
O outro é com o meu mau-feitio. Mas eu juro, juro que não tenho a culpa de ter vizinhos que são ex-agentes infiltrados do KGB que, quando a coisa começou a dar para o torto lá do lado detrás do muro se passaram todos, fuínhas, cagarolas, para a CIA. Palavra. Até tenho impressão que alguns deles apareceram como figurantes naquelas séries muito giras que dão sobre agentes secretos e que têm como actriz principal uma moçoila toda robusta. Ora é claro que os meus vizinhos apareciam no papel daquele gajo da limpeza, barrigudo e baixinho que passa a empurrar uma esfregona, lá atrás, ao fundo do écran enquanto decorre um momento com menor acção do que o habitual, do género, a heroína e o herói consultam uma complicada base de dados de um computador último modelo todo XPTO, ao mesmo tempo que aproveitam para proporcionar aquela cena chapa 31, tensão-antecipação-olhar-tórrido-agora-é-que-ele-a-beija-oh-não-ainda-não-foi-desta-só-daqui-a-mais-500-capítulos-estes-cabrões-sabem-na-toda-se-isto-não-é-marketing, e o resto que nós pensamos enquanto debulhamos um balde de picocas.
Os meus vizinhos são assim. Estou até desconfiada que as suas casas, pelas quais eu tenho obrigatoriamente que passar até chegar ao meu humilde segundo andar, estão equipadas com tudo quanto é o modelo mais recente de complicados sistemas de radar, sonar, o diabo a quatro, detecção de movimento, fumo, cheiros, visão nocturna, alarmes contra presença humana ou animal incluindo crianças. Só pode.
Antes, morava num prédio que era um sossego. Entrava e saía na boa, dez vezes ao dia se necessário e, só em raras ocasiões, com periodicididade aí mensal ou até bimensal, me cruzava com um vizinho que eu sabia vagamente habitar o 3º esq. Nessas alturas, até dava vontade de fazer uma festa e puxar conversa daquelas de chacha, Ora muito bom-dia! atão o vizinho já viu que o carteiro troca as suas cartas com as minhas? palavra de honra, ou das outras, típicas, Boas Tardes, como está o senhor? que este calor não se suporta e se não fizesse tanto sol era capaz de chover , e assim. Vocês sabem.
Estes não. Aguardam pacientemente que o meu carro entre no cimo da rua que desemboca no meu prédio. Os alarmes disparam. Colocam os auscultadores, enquanto seguem pelos monitores os meus esforços para estacionar, no espaço mínimo que ELES deixaram entre dois carros. Ao mesmo tempo que saio do carro e começo a tirar os sacos das compras para o chão, os fuínhas preparam o disfarce que é, no caso delas, rolos na cabeça e camisa de dormir de gola alta e, no deles, calças descaídas pela barriga proeminente e tronco nú. Ligam os gravadores e as mini-câmaras de filmar que têm embutidas nos vasos das plantas e na tampa do contador da luz por cima das caixas de correio para, no preciso momento em que eu, esbaforida, descabelada, furiosa, a pingar em suor debaixo dos abrasadores 41 graus das três horas da tarde - mas o que é que esta gente TODA faz em casa às três da tarde? não trabalham seus cornos? - tentando equilibrar, numa mão 10 sacos de compras e na outra a mala, mais todos os objectos imagináveis que podem sair de um carro, como bonecos de criança, peças de roupa com a mola ainda agarrada e pacotes de batatas fritas e a chave que, claro, cai no chão e me obriga a uma ginástica acrobática para a conseguir apanhar, que ainda me deixa mais vermelha do que estava e a cuspir fogo por entredentes para, dizia eu, aparecerem à janela - no caso dele - com um simpático e sorridente boa tarde já viu, este calor e tal?, que me arranca um grunhido acompanhado de um esgar que pretende ser um sorriso, que também não posso ser mal-educada, tenho uma reputação a defender e essas coisas.
O pior acontece mal piso a entrada do prédio e o inevitável ruído de abertura da porta do r/c se faz ouvir para o espécime feminino irromper, nos preparos que já referi, com um atarefado ai vizinha, este dia, o calor, veja lá, ainda não tinha saído de casa hoje e blá, blá, que quase me arranca uma resposta de pois então volte para lá e não me fecunde o juízo não vê que só quero entrar em casa, jogar-me para cima de um sofá e esquecer que vocês existem?, substituido por um lacónico é verdade, o calor, enquanto disparo em direcção às escadas para quase embater no do andar seguinte, que vem a descer nesse preciso momento com o seu saco de lixo numa mão e o caniche na outra.
Chego ao meu patamar, não sem antes ouvir o agradável ruído de novo, o qual precede a vizinha da frente mais a vassoura porque aquela é a hora exacta e inultrapassável para varrer as escadas.

Quando finalmente fecho a minha porta do lado de dentro, resistindo ao impulso de o fazer com o maior estrondo possível, tenho a certeza que os gajos se recolhem todos e comunicam entre si por um sistema qualquer através da rede de esgotos ou do algeroz, dizendo com satisfação "Missão cumprida".
Até ao dia seguinte...

Mas desta vez despisto-os, eles que se fiquem que yo me voy, de fim-de-semana. Sempre quero ver como irão ocupar três longos dias sem saberem do meu paradeiro...

22.6.05

Acho

que a tendência inevitável do ser humano é o uso de dois pesos e duas medidas.
Somos extraordinariamente bons a tecer complicadas teorias do comportamento e evolução da espécie, torcemos o nariz ao vizinho do lado e à sua forma escandalosamente errada - na nossa inquestionável perspectiva, óbvio - de lidar com esta ou aquela situação. Arrogamo-nos o direito de definir conceitos de atitudes correctas e incorrectas, sempre que discutimos no bar da empresa o caso do colega que chega sempre atrasado ao serviço.
E nunca sabemos virar o espelho para nós. Nem nos lembramos de todos aqueles dias em que o nosso filho fez uma birra à hora de levantar e chegamos esbaforidos ao escritório (e à escola!) meia hora depois de toda a gente. Ou os dias em que ligámos ao chefe a pedir a manhã porque há reunião de pais. Ou aquele dia em que, na ronha depois de uma noitada de copos, acabámos por nem ir trabalhar depois da recusa da cabeça em sair da almofada.
Nunca nos lembramos disto quando desancamos sem dó nem piedade a filha da vizinha que andou a meter-se com um homem casado, ou o primo da mulher do colega do patrão que se juntou com o namorado gay.
O peso que serve para medir aquele que achamos ser o comportamento correcto do outro, já não se aplica quando de um comportamento nosso se trata. Aí talvez seja de usar aquele outro peso, o que tem menos 5 gramas. Ou se calhar o outro ainda mais leve, a nossa balança de alta precisão é muito sensível, há que equilibrá-la com o mínimo de movimentos, com gestos suaves de grande beleza estética. Como num bailado entre cisnes.

Ao longo da vida tenho-me esforçado por não ser demasiado crítica com os outros. Sou do género de deixar passar ao lado a última notícia estrondosa que corre a boca de toda a comunidade, para vir a sabê-la, semanas depois, por alguém que, ao comentar depara com o meu ar de espanto e me atira um "és sempre a mesma, não apanhas nem uma".
Quando tenho que confrontar alguém que depende de mim, em termos profissionais, por uma falha qualquer, inverto sempre a situação, começando por salientar o que de bom essa pessoa tem feito, valorizando a parte positiva para só depois lhe chamar a atenção para as partes menos boas e que acabam por o prejudicar primeiro a ele e depois a todos os que com ele trabalham. Costuma resultar. Não sou apologista de "sacar dos galões", as posições de poder são relativas e efémeras e nada nos garante que, noutra altura, não venhamos nós a estar na posição de subordinados.
Isto porque tenho consciência dos meus próprios erros, da possibilidade sempre presente de, um dia, por um conjunto de contingências perfeitamente justificáveis nessa altura, vir a praticar o mesmo acto que critiquei noutra pessoa.
Não quer isto dizer que eu é que sou o máximo e estou a pôr-me aqui um pedestal.
Tenho vertigens e estar lá no alto era capaz de ser desconfortável comó caneco.
Não, pelo contrário.
Quero apenas dizer que sou humana. Como todos nós.

20.6.05

Ouvi

falar ali ao lado, num charco vizinho, em esplanadas à beira-mar, o que logo me provocou um irreprimível momento de divagação, que incluiu uma pizza king size, comida algures num ponto situado entre o Cais do Sodré e Cascais e um pôr do sol inesquecível virado para o ponto mais extremo de Portugal.

O horizonte sem fim a caminhar por nós dentro, até nos encher a caixinha das emoções de luz e de paz.


18.6.05

Antes

tinha uma paixão pelo papel.
Blocos de todas as cores e formatos faziam parte do conteúdo obrigatório das malas e sacolas que me acompanhavam para todo o lado.
Depois, vieram as folhas A4. As de eleição eram em papel reciclado, pardo, macio e fácil de encher de garatujas à medida da vontade e da imaginação. Serviam para tomar notas nas aulas no ISCSP, enquanto o JJ ou o Pereira Neto (com todo o respeito, queridos senhores Professores) debitavam teorias da Sociologia ou da Antropologia. Escrevia depressa, com siglas e diminutivos e apanhava cada palavrinha que era dita, isto enquanto não começava uma conversa mais arrebatada, apanágio do Professor Pereira Neto, que nos transportava para um qualquer recanto perdido de África, onde ele tinha passado uns meses em trabalho de campo.
Nessas alturas a caneta parava, perdida no meio do desenho de uma letra e transformava-se em lança para pescar nos lagos que rodeavam a aldeia, em pilão para moer o milho num ritmo cadenciado, ou num ornamento de osso, atravessando o nariz da mulher mais bela da comunidade.
Nunca tive muito tempo para conhecer de perto o famoso lago do Palácio Burnay. Mais do que a história do bandido, interessavam-me as histórias que se contavam nas aulas, a imaginação galopante que quase me levou a embarcar numa viagem para recém-licenciados, que tinha como objecto de estudo investigar a vida dos Pongídeos*, num qualquer país africano que hoje não recordo, qual Sigourney Weaver da planura alentejana...
Mas a conversa começou por ser sobre papel e já estamos na floresta tropical a observar gorilas...perco-me sempre, um pouco à semelhança do que acontece quando converso. É uma característica inata, que já me vale dos amigos mais chegados um desabafo de "não expliques!" sempre que me disponho a contar algum episódio mais detalhado. Gosto dos detalhes, já disse. Como continuar a contar que, numa outra fase as minhas folhas de papel passaram a ser coloridas, rosas e azuis, verdes e amarelas. Quase sempre soltas, compradas avulso na papelaria da faculdade, contando os tostões, para verificar se chegavam para todas as cópias que tinha que tirar e ainda tomar um café.
Creio que vem dessa época, a minha mais forte ligação à escrita.
Não sei onde foram parar as centenas de folhas de todas as cores que enchi ao longo desses anos. Umas com matéria ligada aos vários ramos da Antropologia, outras com ensaios inocentes de texto literário, fotografia das emoções nascidas no lirismo dos 20 anos. Perderam-se pelos tempos, umas rasgadas por acidente, outras para reciclar, em pilhas enormes na sequência de uma limpeza geral mais meticulosa.
Talvez essa seja a grande diferença em relação ao dia de hoje. Num blogue é possível guardar as mesmas centenas de folhas, para memória futura. Não têm cheiro nem textura, nem se enrugam ou esborratam com a tinta permanente da caneta Parker oferecida num aniversário, por um tio mais atento.
Mas podem guardar-se num disco que cabe na palma da mão e recordar-se 20 anos mais tarde.

(ainda assim, tenho saudades das minhas folhas de papel)

* é um termo incomum, eu sei...

16.6.05

Dúvida

Passeio por entre textos e textos, enquanto tento descobrir se estaremos a perder o sortilégio das palavras.

14.6.05

Saber

dar aqui, aos outros, pedacinhos de nós e da nossa maneira de pensar, é uma das grandes valias deste mundo, onde lançamos para o éter aquilo que conversaríamos com os amigos.

Por dizer muito do que penso e não fui capaz de escrever daquela forma, o texto do Eufigénio é de uma enorme riqueza para mim. Fica aqui guardado, obrigada

13.6.05

Perda




Que palavras chegam para descrever tamanha perda?
As inevitáveis e batidas homenagens post-mortem que caem sempre bem fazer nestas alturas?
Não. Prefiro as deles, as suas próprias e inimitáveis, que em determinada altura proferiram, aos seus estilos pessoais, com calor e convicção, ou com serenidade e filosofando sobre o mundo.

As de Vasco Gonçalves, o general do povo que fez história, quando diz que "as maiores conquistas que o povo português alcançou ao longo dos seus oito séculos de história, se verificaram em 74-75 e nelas desempenharam um papel fundamental os militares do MFA" (pg. 184 do livro «Vasco Gonçalves — um general na Revolução»).

Ou as do Eugénio, como um cristal que prenda para sempre, no seu interior, a limpidez dos sorrisos de cada um, nestas imagens?

Talvez as de Álvaro Cunhal, sempre no sentido da participação do Homem na transformação da sociedade, mesmo que de arte falasse "um apelo à arte que intervém na vida social (...) um apelo à liberdade, à imaginação, à fantasia, à descoberta e ao sonho." (Álvaro Cunhal, 1996)

Ou quem sabe o silêncio.
Pela perda de três homens ímpares, três figuras que enriqueceram a história deste país, pela tristeza vezes três.
Guardo silêncio por eles, neste momento, os três que, de uma forma ou outra, fazem parte das minhas referências enquanto pessoa. Do meu crescimento. Do meu apego às causas e ás lutas, ao sonho e à utopia.
Fica o silêncio e a memória.

10.6.05

Esperança


aqui


Vou prender a tua voz no fundo de um búzio, para entrar nela sempre que quiser. A voz de quem espera e sabe que é esperado.
Vou acertar os meus passos pelos teus, para nunca nos perdermos um do outro.
De todos os sons, escuto o mar e o vento e neles voarei até pousar na palma da tua mão.
Seguirei pelo carreiro de conchas e pedras brancas, para chegar ao dia em que acordaremos no mesmo sítio.

9.6.05

Existem

determinadas coisas no processo das nossas existências que, pela grandeza que detêm, relativizam tudo o resto.
O Nascimento e a Morte. A Felicidade. O Amor.
O Tempo.
Não temos nunca tempo suficiente para alcançar tudo o que desejámos e sonhámos. Independentemente de sobrevivermos até para lá dos 60 ou 70 anos, nessa altura já é um tempo de contagem decrescente, a recta final para o fim, que sabemos inevitável e inadiável. Dispenso as disssertações dos teóricos, que não me convencem que se vive, nessas idades, da mesma forma que o fazemos aos 20 ou aos 40 anos. Com o entusiasmo da descoberta ou a paixão do amadurecimento dessa descoberta.
Não me vejo a envelhecer e a marcar passo para o término do meu ciclo de validade no planeta. Não me vejo sem frescura, sem brilho nos olhos, com a pele enrugada, com hora marcada para o fim. É difícil lidar com a imagem de tamanhas mudanças na pessoa que somos, pelo menos agora, que faço mentalmente esse exercício. Quem sabe, a percepção que tenho agora que antevejo o cenário, não se transforme radicalmente, um dia em que o esteja a viver na prática. Quero acreditar que sim. Talvez a aceitação dos factos faça parte da capacidade de sobreviver, que todo o ser humano tem que ter para percorrer este ciclo. Com princípio, meio e fim, como todos os ciclos.

Não sei bem se isto é uma conversa coerente para quem lê.
Esta é uma das dificuldades deste mundo virtual, entre tantas outras que muitos de nós tentamos analisar, pelo menos os que se preocupam com a forma de estar aqui, os que procuram que seja a mais correcta, a todos os níveis. Tal como o fazemos na vida.
Nem sempre o conseguimos. Não porque não tentemos, ou não seja essa a nossa intenção sincera e mesmo que até nos esforcemos conscientemente para o conseguir. Mas, muitas vezes, por uma diversidade de causas que não dominamos, não somos capazes de alcançar esse desígnio a que nos propomos.
Das causas possíveis, a nossa particular forma de ser é uma das mais determinantes, porque há que ter em conta que os outros não a conhecem, nem poderiam, porque não fazem idéia de quem somos por detrás desta folha com letras, do que nos formou como pessoas, o que já vivemos e fomos felizes ou sofremos.
Depois, há a particular maneira de ser dos outros, que nos lêem. E que o fazem, naturalmente, à luz dos seus próprios pressupostos, valores e forma de estar na vida. O que significa que, uma frase que escrevo com uma intenção clara para mim, e que pode até passar pelo facto de não ter intenção rigorosamente nenhuma, pode ser e vai ser interpretada pelas várias pessoas que a lêem e descodificam, com um conjunto de significados vasto e distinto. Tantos quantos o número de vezes que fôr lida.
Se, do ponto de vista da interacção que procuramos e que tanto tenho elogiado como virtude da blogosfera, e do enriquecimento que proporciona a partilha e debate de idéias com pessoas diferentes, essas diferentes interpretações são valiosas, já não o são tanto quando servem para alguém formar uma idéia do que somos enquanto pessoa. Porque, se calhar, o que escrevemos, em cada momento específico que por aqui vamos registando, não constitui um retrato de nós assim tão fidedigno. Pela liberdade que representa este meio, implica que o usemos a nosso bel-prazer. Para desabafos ou histórias da carochinha. Para descrições de episódios nossos ou para invenções criativas mais ou menos conseguidas. Para pintar de azul ou cor-de-rosa ou preto conforme o estado de espírito. Para pôr música ou dá-la, para oferecer retratos feitos por nós ou escolhidos de um site perdido no meio do espaço virtual e que descobrimos por acaso. Uma infinidade de possibilidades e combinações que escolhemos de acordo com o que pretendemos fazer ou, simplesmente, com o que nos der na bolha apenas porque sim. E isso resulta numa miscelânea do nosso Eu verdadeiro, com o Eu que gostaríamos de ser, ou o Eu que acreditamos convictamente ser até nos provarem o contrário. Tudo salpicado com pedaços de nadas que nos apareceram sem razão nenhuma, por entre cada coisa que escrevemos.
Fazer a triagem disto não é tarefa fácil, mesmo ao mais experiente psicanalista ou conhecedor do carácter humano. É um trabalho moroso, que requer persistência mas, sobretudo, flexibilidade de ajustar interpretações ou pistas que apontam, à primeira vista num sentido e que, se olharmos mais de perto, descobrimos que são, afinal, um simples pingo de tinta, caído inadvertidamente da caneta, naquele lugar concreto. Ou seja, nada.
O Tempo (esse grande escultor) encarregar-se-á de determinar se, do trabalho de espremer todos os materiais supérfluos para obter uma matéria-prima genuína, resulta uma efectiva potencialidade de esculpir uma obra de qualidade.
O Tempo.
Conjugado com os olhos.

Talvez, neste momento, seja necessário Tempo.

5.6.05

Queria

ter para dar, pétalas de malmequeres.
Que a vida fosse um caminho aberto, com um trilho de estrelas de cada lado.
Que os horizontes fossem azuis e que cada acto nosso decifrasse uma linha mais no mistério da felicidade.
Somos seres complexos e completos. Seres que podem até passar pela vida toda sem chegarem a conhecer-se verdadeiramente. É cómodo pensarmos que nos conhecemos, que sabemos o que queremos, que somos assim ou assado. É mais fácil julgarmos que detemos as verdades absolutas.
Quando alguém gosta de nós o suficiente para nos fazer questionar as bandeiras que sempre arvorámos, o céu cai-nos em cima. Porque dá trabalho. Porque nos desorienta as certezas que, com tanta persistência fomos construindo. Porque nos obriga a olhar de frente o Espelho e nele desenhar a figura que afinal somos. Melhor ou pior do que julgávamos.
Enfrentar as nossas pequenas misérias e grandezas é um processo que se assemelha ao rasgar de uma crisálida. Enquanto se está no interior do fino casulo, protegido do frio e do calor, translúcido e mostrando apenas o essencial, somos seres pacíficos mas cinzentos. O doloroso corte, a saída penosa, enquanto as asas se estendem e secam em contacto com o exterior, traz ao mundo um ser cansado de nascer, mas extraordinário.

Podemos seguir apenas por uma de duas opções: desistir, de nascer e de olhar, porque é mais fácil ou fazer um esforço por ver.
Ver
a cor que reflecte esse olhar, que oferecemos a nós próprios pela mão de quem nos ama, pintar o nosso destino com as cores que emanam da verdade.

Eu prefiro a segunda hipótese.

3.6.05

Se

viesse agora aqui escrever, seria para desancar nas armadilhas - que las hay - deste mundo que insistimos em querer pintar de cor-de-rosa, chamado blogosfera.
Porque já de si me falta a pachorra, e, muitas vezes, expôr as questões é uma forma de sermos obrigados a enfrentá-las, com as consequências possíveis todas em aberto, por agora, abdico de o fazer.

(a propósito do que li aqui)

1.6.05

As Grandes

Causas têm sobre mim um efeito interessante.
Primeiro de raiva, por, em última análise, serem necessárias, o que significa que, algures sobre este planeta azul, ainda se anda a gastar em armamento e a transformar pequenos países em máquinas de guerra ao serviço dos interesses dos grandes países que os apetrecham e instruem, o que devia ser gasto para dotar outros países de infraestruturas básicas e capacidade de sobrevivência económica.
Que, por arrastamento, traria a sobrevivência, literalmente falando, dos seus povos.



Depois, o impulso imediatamente a seguir é o da Participação.
Por achar que há sempre algo a fazer. Que as coisas podem mudar.
Chamem-me lírica, utópica, por ainda acreditar que um mundo melhor é possível.
Com as opções políticas correctas, os governantes certos, nos locais chave, no plano mundial.
Algo tão simples como a mudança de líder das grandes superpotências económicas do planeta - algum dia haverá a sorte de o candidato vir a ser um ser humano - poderá ser o impulso da viragem.
E eu tenho esperança nesse dia.
Essa esperança é renovada de cada vez que descubro que essas pessoas existem e algumas até se encontram em lugares onde há essa capacidade de intervenção.
Como é o caso dos responsáveis da PlasticsEurope, uma associação europeia de fabricantes de material plástico, que representa cerca de 90% da produção total da Europa e emprega 1.5 milhão de pessoas espalhadas por países como a França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido.

Descobri a campanha aqui, a atenção desperta pelos bonequinhos, o que só confirma que uma boa imagem gráfica é um factor determinante em qualquer estratégia de marketing.
Pois que, apesar de reconhecer que é também disso que se trata, tal não desmerece o facto de esta Indústria Europeia dos Plásticos ter lançado uma campanha para entrega de donativos à WaterAid (cliquem na imagem ali acima e vão lá ver), para ajudar a proporcionar àgua potável e saneamento à população da Etiópia.

Chama-se a isto responsabilidade social das empresas e, há países, onde os consumidores estão suficientemente despertos para assumirem a opção de adquirir os seus produtos a empresas que a pratiquem para, dessa forma, também eles a título individual, poderem contribuir para estas causas humanitárias.
Bonito, não é?



Foram 200 000 euros. Uma gota de água. Que fará a diferença para alguns milhares de seres humanos.
Muitos deles são crianças.
E não é por acaso que o digo aqui, Hoje, dia 1 de Junho.

29.5.05

Considerações breves

sobre o sentido da vida.

Esta semana que passou, para além de ter sido composta de apenas 3 dias, coisa que deveria ser instituída como obrigatória daqui para a frente, já que parece que não adianta de nada a malta "achandrar" ali durante 5 dias seguidos, quépraveremoquébomprátosse, que não há retoma à vista, por isso, assim como assim, trabalhávamos só 3 ou até mesmo 2, que não fazia mal nenhum e tínhamos o IVA a 21% na mesma, pronto, mas dizia eu que, esta semana foi particulamente improdutiva a nível blogosférico.
(coisa que, transpondo daqui para a economia nacional também daria uma perspectiva de análise interessante, mas adiante...).

Fosse por saudades de alguns ausentes, ou por preguiça pura, ou ainda porque, meia dúzia de sortudos foram pôr os pés de molho num paraíso perdido junto ao mar, em qualquer recanto do planeta, certo é que a coisa andou particularmente morna durante estes dias.

Talvez fosse políticamente correcto dizer-vos que, senti a falta de andar por aqui e do ritmo alucinado de escrita que mantemos em épocas que não incluam feriados nacionais ou férias. (ritmo esse que só confirma a teoria de alguns, de que boa parte dos posts deste mundo virtual são escritos à custa do erário público, mas adiante outra vez...)

Mas a verdade é que não. Incluo-me nas categorias 1 e 2 que mencionei acima. Não fui pôr os pés de molho (a categoria 3, para os mais distraídos, caneco, leiam as coisas com atenção!) por estar a praticar, em concreto, a categoria 2. E não me apeteceu escrever, porque a categoria 1 é muito mais fácilmente ultrapassável com uma chamada telefónica do que com o texto lamechas que aqui escrevi há 3 posts atrás.

Não, não senti necessidade de andar muito por aqui, porque ouvi de viva voz, a toda a hora, ao longo de todos estes dias que, "A vida é bela e cada instante é precioso, porra!"
E é verdade. É a vida lá fora que é bela, não este rectângulo iluminado em que passamos alguns dos nossos momentos virtuais.
Momentos que são só um complemento dessa que é bela, a vida, nossa, que vamos fazendo lá fora a cada instante. Todos eles preciosos, sim.

28.5.05

Não é muito

comum eu sucumbir a experimentar os milhares de testes que circulam pela blogosfera fora.
Mas dado que este até produz umas imagens baris, lá fui eu ver o que é que o Random Art dizia do meu Espelho.
E, pelo menos, tinha uma desculpa para interromper a arrumação das roupas de Inverno, tarefa que mui me apetece neste momento (não se nota?).
Vai daí, depois de duas tentativas que não me convenceram, resolvi juntar as duas e resultou este "alucinogéneo", Espelho Mágico de Mar.

27.5.05

Olha, olha...

o que faz termos um fim-de-semana prolongado (roubado ao serviço mas pronto) para pôr leituras em dia e descobrir o regresso do Blog que Mais Bolos tem (que é como quem diz, sapatos e malas e coisas giríssimas assim), de toda a blogosfera!



Amiga Lili, enfim, venceste a apardalada, viva, viva!

Sopra

só uma breve aragem.
Ondulam as espigas inexistentes, apenas na minha memória.
A modorra da hora em que o sol vai alto, espalha-se em nós e leva-nos para longe o pensar, como quando, em tempos idos, a ceifeira limpava as gotas de suor que escorriam por debaixo do chapéu e do lenço preto que atava em redor do pescoço. E parava de cantar.
Apetece encostar à sombra da azinheira e deixar que a tarde caia e refresque o campo calcinado.
Mordiscando um caule de erva e ouvindo apenas o som do vento nos ramos das àrvores e o piar de um pássaro mais incauto que antecipou o entardecer.
Apetece deixar o tempo correr até que chegue a hora que nos falta, a hora de poisar a foice, lavar a cara na fonte, vestir o vestido de chita e deixar que o rapaz mais garboso da aldeia nos tire para dançar.
Até o dia nascer.

Estou longe do mar e os campos não têm verde que me valha.


aqui

25.5.05

Há coisas

que é difícil transmitir aqui, num blog.
Como o que sentimos ao ter nas mãos um livro que nos apeteceria copiar, na íntegra, para aqui.
Talvez que fosse essa a única forma de vos permitir ter também o previlégio de saborear o conjunto de sentimentos que ele nos desperta.

Gostava mesmo que conhecessem o Pedro Ferro, ao longo das 322 páginas do seu "Artesão do Efémero".
O livro, publicado depois da sua morte pelos amigos jornalistas como ele, a sua família e várias instituições do Baixo Alentejo.

O livro "obrigatório". "Acto de justiça e de reconhecimento", nas palavras do seu amigo João Paulo Velez, ao longo do prefácio.

Pedro Ferro, o "maltês da escrita". Primeiro no Diário do Alentejo, depois em múltiplos outros jornais que fundou ou dirigiu, ou onde colaborou, como o Diário de Notícias ou o Público ou em revistas como a Grande Reportagem.
Depois de nos ter legado algumas das mais belas páginas jornalísticas escritas nas últimas décadas sobre o Alentejo. Sobre o Homem. Ao longo de 17 anos da sua vida, prematuramente terminada aos 40 anos de idade.
40 anos de vida de um homem "generoso e bom, que amou intensamente, por vezes doloridamente, a vida. E a quem o Alentejo fica devendo algumas das páginas mais exaltantes e profundamente sentidas que alguma vez nos foram dadas a ler. Páginas de dignidade e rebeldia".

De que deixo apenas um ínfimo exemplo, o que fala de mar, pelo simbolismo que lhe encontro hoje, dia em que o releio. Porque também eu gostaria de saber escrever assim:

"Na Rota da Espuma - pela mão de Helena

Em todos os lugares
Existe, nas ondas um esplendor e
Um brilho cristalinos, sendo
Certo que nas profundidades
Do mar as águas apresentam
Uma imagem azulada.

O mar é o rodapé azul das casas. Todo esse inquieto azul desceu dos montes, feito maltês, e veio aqui parar. No lado de cá da planície. As dobras da ondulação a lamber a areia, a chorar nas paredes rochosas, são como terra lavrada. E um campo semeado de espuma desenha os contornos deste Alentejo virado ao oceano.
O Alentejo começa no meio do Sado. No ponto exacto onde uma gaivota mergulha num voo picado, depois de pairar por momentos sobre o ferry-boat cansado, todo ele um estremeçao, que atravessa o estuário entre Setúbal e Tróia. Começa na água e na água acaba, lá muito a sul, num pego qualquer da ribeira de Odeceixe, cuja margem norte pisa o Alentejo e a outra o Algarve. Entre o Sado e Odeceixe a planura deita-se ao mar e nele se estende toda nua, num leito de sal e de espuma.(...)
Deve ser por estas bandas o país dos poetas. Poetas da palavra e da pintura. Da música e da pedra. Poetas da fotografia. Mas se é, nenhum está à vista. Tróia, ao sol posto de Maio, é uma cidadela sem gente. Ninguém neste braço de areia moreno repousado no estuário, a apontar para a Arrábida. Só mar e vento. Helenas, nem uma. E o cavalo foi roubado por uma lenda.
(...)
publicado originalmente in Imenso Sul, Julho/Setembro de 1995

24.5.05

Sempre

afirmei que uma das valias que mais encontro nos blogues é a interactividade. O complemento ao que escrevo, dado por vocês, que comentam.
A reflexão que obtemos quando lançamos qualquer idéia para debate. Que, tantas vezes, nos enriquece ao apresentar-nos vertentes do assunto em apreço que nunca equacionaríamos.
A simples convivência que se gera, as amizades que se constroem "ao contrário" como um dia afirmei e que pudémos consolidar nos encontros que já promovemos entre nós.

Por isso não me entusiamaria ter um blogue sem sistema de comentários. Preferiria, de longe, guardar em word as baboseiras que me apeteça escrever só para mim. Que também pode ser o caso, escrever apenas para guardar e não para obter feedback.
São pontos de vista e cada um tem o seu, como é óbvio e nem isto serve para contestar seja quem fôr.
Não. Serve apenas para constatar que, desde que perdi o sistema de comentários do CommentThis! e que, mais recentemente, descobri que o Haloscan "come" os comentários antigos, deixando posts que sabíamos ter mais de 20 ou 30 comentários, a zeros, me ando a aborrecer sériamente deste blog.

Eu sei, estou de mau humor e concedo que, para este facto possa estar também a contribuir a crise, o défice, o IVA a 21%, o calor, a seca, a lentidão do computador, a casa por arrumar, a mudança de instalações no trabalho e a ausência do meu blogger preferido!

Adenda ao post, escrita 2 minutos a seguir:

Eu juro.
Mas eu juro MESMO, que ando para escrever sobre a cena dos comentários há uma carrada de tempo.
Vou jogar no EuroMilhões.

Ao acabar de fazer publish ao post, olho incrédula e vejo o 0 à frente dos Reflexos (CommentThis). Vou aos Arquivos confirmar e eles estão de volta!

22.5.05

SLB!



CAMPEÕES!

20.5.05

Registo

destes minhas últimas semanas, um conjunto de fragmentos. Pedaços de momentos que fui vivendo com paixão, um fragmento feito de olhos, outro de palavras. Frases soltas, um sorriso, um gesto que calou mais fundo num cadinho de emoções a borbulhar.
O denominador comum é o Mar.
O Mar no nome e nos olhos, na cor do céu limpo que cobre os meus dias. O Mar como companhia num almoço tranquilo, com aromas de peixe e ervas aromáticas. O Mar como horizonte, num entardecer feito de espuma. O som do Mar como uma cantiga de embalar, sono e sonhos.

São peças de diferentes tamanhos e formas que coso umas às outras, como numa manta de retalhos e que, depois de dado o último ponto e de, com os dentes, cortar a linha e olhar a obra terminada, verifico que compõem um pedaço da minha História como pessoa.

Cada fragmento tem o seu valor, um peso próprio, um papel insubstituível e único. Uns mais importantes que outros, sem dúvida, mas todos parte de um todo, que tem sentido apenas assim e não de outra forma. Pois que, se de outra forma fosse, estaríamos agora a tratar de outra pessoa e não de mim.

E esta curva do caminho é tranquila, feita de consciências adormecidas a despertar, de certezas, de reencontro com traços de carácter que sempre lá estiveram mas não se empunhavam como bandeira. Por contigências várias.

Por vezes, é preciso sermos vistos pelos olhos dos outros. Que a força de outro alguém seja a alavanca que suporta o peso do nosso reerguer.
Por vezes, só se encontra o nosso destino com mapas, que nos ajudam a descobrir onde foi que ficámos perdidos em tempos idos, que nos são desenhados com lápis de carinho e respeito. Em que as coordenadas se definem por acordo mútuo, depois de muito andar, por sobre montes e vales para ver de que lado fica o Norte. O nosso Norte, que é determinado pelo que queremos ser enquanto pessoa, por valores inquestionáveis e que juramos nunca violar, pelas distinção entre as coisas que amamos e que detestamos. O nosso Norte, que pode não ser o mesmo que é determinado pela Estrela Polar. Que não é, certamente, o mesmo do parceiro do lado.



18.5.05

Tempestade

num copo de água.
(já agora, se não fosse pedir muito e tal e coiso, ó fáxavôr não podia antes ser assim num copo de algo alcoólico, q'isto de emoções fortes afogam-se é num ganda lago de vapores etílicos que a malta até fica é a flutuar e esquece-se logo, em menos que um fósforo, não, um fósforo não, que ainda pego fogo a esta merda toda, mais vale ser um palito, pois, num palito desaparecem logo as preocupações e, por isso, sei lá, um gin tónico, pois calhava muito bem agora, por obséquio, pede deferência e assim)

Sou uma gaja emotiva comó caneco.
Não há nada a fazer, quando, algures lá no meio do emaranhado da trança e daquelas bolinhas todas, azuis e vermelhas, um must, que determinam que temos os olhos assim e o cabelo assado e a pele frito e o sexo (pois, esse) cozido, ou melhor, o sexo, sexo e pronto, se encontra uma porra de um códigozito que diz que tu, desde que nasças até que os vermes te comam, hás-de dar um trabalhinho do caraças aos que, em primeiro lugar, coitados, os santos, te puseram cá, em cima desta esfera azul e depois, pelo caminho que, alegre e inconsequentemente percorras, nos anos todos que vivas, e oxalá sejam muitos, já agora, aos que tiverem a cruz de se atravessar, algures no meio do percurso, no teu caminho.

Sou assim e pronto.
Alguém que fala com o coração ao pé da boca como soi (xi, soi é mesmo in, fantástico diria eu, já viram as palavras que eu sei?) dizer-se, alguém capaz de, no meio da explosão de uma qualquer emoção, deixar sair num repente tudo o que lhe enche o peito e a alma.
É claro que, isto tanto dá para o bem como para o mal.
Pois tá claro, o reverso, sempre o reverso da medalha (também, quem é que se lembraria de inventar esta treta da medalha e dar a outra face e estas cenas amaricadas de, no meio é que está a virtude e a moderação e o caraças? um gajo tem é que desabafar o que lhe apetece e pedir desculpa depois e o resto é conversa)

No caso do Bem, uma gaja que diz na cara de outra pessoa que é a mais linda do mundo, e que a adora, e que aos meus olhos és inexcedível, e o olhar incendeia-se no meio destas declarações todas e, já se sabe, olhar incendiado dá logo azo a outras coisas que se põem logo de orelha arrebitada, eu também quero, eu também quero, coméqueé, só o olhar é que pode, vou já fazer uma birra que eu também gosto de incêndios, e pronto, lá fica o caldo todo entornado porque, claro, se há fogo tem que se apagar e aí, como nem sempre há bombeiros nos arredores, a malta tem que se amanhar como pode e depois, pronto, ele é, ai tá aqui mais um bocadinho a arder!, olha, agora é mais ali em cima, depressa, não, não, ali ao lado, traz cá a mangueira, isso, aí mesmo e...er...pois...se calhar é melhor mudar de assunto.

Ora, dizia eu então que, no caso do Bem a coisa até nem corre mal de todo.
O pior é quando dá para o torto.
Uma gaja vê qualquer coisa de que não gosta ou acha que aquilo que ali está até pode nem ser aquilo que parece que ali está, e há logo uma reacção qualquer, que os meus escassos conhecimentos anatómico-fisiológicos não permitem ter a capacidade de aqui explicar, e pimba, lá está o sangue a ferver, uma tragédia do caraças, lágrimas à beirinha da pálpebra de baixo, o que vale ainda são as pestanas, e um chorrilho de impropérios a sair dos castos, puros, carnudos lábios. (quem é que aí há tempos falava na cena do abuso de adjectivos? Não devia ser comigo, adiante)

Não é fácil.
Hipoteca-se uma série de coisas com este raio deste feitio.
E, das duas uma, ou os outros gostam de nós o suficiente para encaixar os nossos disparates, amuar um bocado porque não são de ferro, claro, mas depois passar-lhes depressa e enquanto fingem que não vêem o nosso arrependimento e a luta que travamos com o parvo do código, viste o que fizeste e agora? pois, lá tenho eu que pedir desculpa, é sempre assim, tu fazes a asneira e depois sobra é para mim, também, que diabo de código me havia de calhar, não podia ter sido ali o do vizinho do 4º direito, tão calmo, nem se ouve, mal se dá por ele, um senhor, aquilo é que é, ó diabo, a cruz que eu tenho que carregar a vida toda contigo código parvalhão, já me perdi, ah, dizia que os que gostam mesmo de nós ficam tão ansiosos por fazer as pazes quanto nós, ou então, e esta hipótese é que me lixa, não gostam assim tanto e pensam que não têm nada que aturar isto e viram-nos as costas enquanto pensam, vou-me já embora procurar outro/a amigo/a que não me dê tantas dores de cabeça, tipo ali assim o vizinho do 7º direito, que a minha vida não é isto e assim não vivo 100 anos.

É isto. Mais ou menos. Quer dizer, se é que se percebeu alguma coisa do que está para trás. Não é fácil.

Mas, ainda assim, prefiro mil vezes ser uma gaja que sente as coisas ao extremo, lágrimas e risos em profusão, volume no máximo e ala que aí vamos nós, voando quilómetros de alcatrão fora, até ao objectivo final, do que ser o vizinho do 9º esquerdo. Ou seria direito?

(se tiveram paciência de ler este monte de atoardas sem nexo até aqui, é pá, é porque são meus amigos de verdade!)

16.5.05

Na


flores Posted by Hello

simplicidade das flores silvestres, encontro o retrato, num paralelismo simbólico, do que são, na sua essência, os homens e mulheres desta terra em que orgulhosamente me incluo. Os tais que vivem e morrem de pé, como as árvores. Os Alentejanos.

A resistência às agruras do clima, à seca e calor extremos, ao Suão, que trazem entranhado na pele àspera e queimada do rosto, as rugas como pergaminho da sua História.

A persistência de florescer sempre, ano após ano, com renovada força, em despique com aquilo que os tenta vergar, mesmo que sem adubos, mesmo que exista apenas uma pequena gota de água, no subsolo profundo.

A beleza da cor, sem artifícios, pura, que transparece o despojamento do que é genuíno e honesto. E também altivo, orgulhoso de assim ser, belo por ser verdadeiro e não por ostentar um qualquer arranjo cheio de laços e papel celofane.

As que me ofereceram e que aqui partilho, porque as coisas belas não são para esconder, exibem estas características.
Mas, para além disso, adquirem o significado profundo de simbolizarem o dia dos meus 41 anos, marco de uma vida que inicia um novo ciclo.


15.5.05

E hoje

és tu a estrela!



Um beijo enorme de Parabéns!
Que tenhas um dia feliz, mais os que virão daqui para a frente.
E bem-vindo ao clube, esta idade é um marco. :-)

14.5.05

Ofereceram-me

um presente. Ou melhor, ofereceram muitos, em forma de palavras e carinho. E agradeci-os todos da melhor forma que pude e soube fazer.
Mas há um ou outro que tenho que destacar.
E tenho que vos falar de um presente à beira-mar. O mar como penhor de sentimentos e promessas. Semi-deserto, azul-chumbo e azul-prata, a diferença entre o antes e o depois. Do presente. Um presente com suave marulhar de ondas e pios de gaivota. Com brisa salgada e areia nos pés, cabelos a voar e olhos brilhantes, a competir com o sol. E o forte de outros tempos, guardião de segredos e outros presentes iguais ao meu, que por ali terão passado em épocas distantes. Sob a mesma luz e as mesmas cores.
E o azul-turqueza lá no fundo, ao longe, sempre, a representar a imagem de mim. Mar. O nome que escolhi para me mostrar a vocês, o elemento que não dissocio de mim, da minha vida toda e dos meus melhores momentos. O nome premonitório, o elemento natural de outra forma de vida.
Nunca o Mar, como ontem, fez tanto sentido.

E ofereceram-me outro presente. Em forma de Mar. Que trago para aqui com um imenso obrigado, por ele e pela história que o embrulha, Hipatia. Com um beijo.


As cores do mar Posted by Hello

1998
100 x 60 cms
Acrílico sobre tela.
Da Isabel Magalhães, no seu À Rédea Solta

12.5.05

As cartas na mesa


o meu rio Posted by Hello

Há pessoas que nos prendem. Que se instalam em nós, com a força de um vendaval, como parte integrante do que somos, e nos tornam pessoas melhores, porque mais completas.
Pessoas que não passam em claro pela vida, que emanam luminosidade, que carregam e espalham entre os outros energia positiva. "Boa onda". :-)
São pessoas que despertam ódios e paixões. Sentimentos extremos, sempre, porque não é possível ficar-lhes indiferente. Pelo seu olhar firme e o seu riso, a nobreza de carácter, a solidariedade com os outros, a Paixão com que vivem e com que amam, atraem para seu redor pessoas parecidas, amigos eternos.

Na blogosfera como na vida, sou pela verdade. E da transparência e franqueza. Se fôr essa a forma de fazer as coisas certas num determinado processo, como disse eu, algures por tantas caixas de comentários. E também sou adepta do Amor. A única explicação. Que faz com que todos os riscos valham a pena.

"...os riscos existem para aprendermos a enfrentá-los. Precisamente na medida dos valores em causa, da nossa coragem ou da nossa determinação."

11.5.05

O (encontro) Ilegal

Começo pelos pés.
Que são, afinal, o suporte de tudo, a base de sustentação. O que, para o caso em apreço, poderá traduzir-se pelo aspecto físico. O nosso, dos bloggers que já conhecem a alma uns dos outros e que, um belo dia, decidem torná-la corpórea e marcam um encontro.
Os pés são uma componente importante, do ponto de vista anatómico, suportam o peso do corpo.
Aqui, o aspecto físico de cada um de nós tem essa mesma função: dá-nos o suporte, o envólucro de onde saem aquelas letras pretas que lemos no monitor. Associamos, então, a essência da pessoa que conhecemos, a um conjunto de características físicas. Mais altos ou menos, magros ou rechonchudos, olhos claros, escuros, pouco importa. Ao fim de uns minutos de conversa, identificamos por completo aquele com quem conversámos virtualmente durante meses. E é esse o papel do aspecto físico nesta história toda. Nem mais nem menos.

Depois vem o corpo. O corpo do meu post ali de baixo. Ao qual, aqui, darei o papel dos comportamentos e atitudes. É a partir deles que se constrói o resto da impressão sobre os outros. Que se fazem as constatações ou as desilusões, como se referia no Eufigénio. Este corpo feito de comportamentos, de gestos e sinais revela-nos como pessoas. É da observação mútua, durante a conversa amena enquanto se janta, ou no meio da gargalhada geral do grupo, ou em pequenos sub-grupos enquanto se toma um pequeno-almoço, ou ainda, a dois, que resultam as grandes conclusões (ou constatações) sobre o outro.
E, aqui, eu defendo que não há lugar a desilusões. Não, enquanto não levamos "expectativas mal-direccionadas" como dizia a maria_árvore. Não, se formos de peito aberto, em busca de risos e amizades, sem outro interesse que não o de encontrar pessoas de quem já gostávamos antes. Que já achávamos bonitas. Só poderá haver desilusões, talvez, se encontrarmos alguém radicalmente diferente do que mostrou no seu blog. Se descobrirmos que estivémos, afinal, a observar um personagem criado pelo seu autor, que a pessoa não corresponde de todo ao que escrevia. A ser assim, admito a possibilidade de desilusão. Não quando a pessoa se revela igualzinha ao que escreve, genuína, alta, magra ou gorda, mas autêntica. Aí, o sentimento é de quem cola uma peça de um puzzle ao último espaço em branco que faltava preencher. E vocês foram peças com recortes perfeitinhos que encaixei nos vossos blogs. Tal como já havia feito antes, com os restantes, no Encontro das Mantas.

Guardo para o final a cabeça.
O principal elemento na equação. Que, aqui, representa as emoções.
As emoções que vivemos juntos constituem o centro nevrálgico, onde tudo acontece e se prepara o que há-de acontecer no futuro. Há, sem dúvida, emoções de variadas categorias, gostos e sabores. Há olhos rasos de lágrimas quando se trocam impressões sobre a dureza da vida. E da beleza indissociável dessa mesma dureza. E festinhas no cabelo que significam "és uma gaja do caraças e admiro-te a força com que enfrentas isso tudo".
Depois, há abraços sentidos e há cumplicidades que já vêem de trás. Outras que acabam por se criar quando menos esperamos.
E há o beijo que se dá com amizade e aquele que se dá com paixão, com a força do Mar ou a doçura do rio numa baía serena do caminho. A empatia e a sintonia e a alegria de descobrir que afinal somos homens e mulheres com pele e olhos, mais corações a bater como asas da liberdade.
A liberdade que fazemos porque queremos e assim o escolhemos.

As emoções não são todas iguais. Nem os sentimentos que delas se geram e que derramamos sobre os outros. É assim na vida cá fora, e é natural que, com o repetir dos contactos que vamos mantendo uns com os outros, venha a ser assim também, nesta amizade que começámos numa caixinha de comentários. São assim as relações humanas, desde que o mundo é mundo.

Sem merdas, como diria alguém que eu conheço.

10.5.05

Tenho andado

a ver se consigo escrever aqui algo com pés e cabeça. (e, já agora, parafraseando alguém que eu conheço, com corpo pelo meio...).
Como ainda não consegui, calo-me.

6.5.05

De quando

a inocente expressão de um desejo, calado, impedido por condicionantes de espaço e tempo, e, por isso, apenas sonhado, se torna numa realidade feliz.

4.5.05

Existe

qualquer coisa de tangível num livro, capa de cartão mais grosso, cheiro a tinta fresca, papel impresso, letras pretas em fundo branco, encarreiradas umas nas outras, um livro enquanto objecto de culto, que não é possível reproduzir por qualquer outro meio.
É por isso que não há nada como termos o previlégio de ler o que escrevem as pessoas que gostamos de ler, nesse suporte físico, palpável.
Estou muito contente, João Pedro.

Por ti, pelo que isso representa em termos de reconhecimento "público" das tuas imensas capacidades. (e por mim porque vou poder tê-lo na minha estante para te ler a qualquer hora, mesmo com o computador desligado) ;-)
Parabéns!

3.5.05

É

uma foto antiga. A preto e branco. Não que seja assim tão antiga que não houvesse possibilidade de ter sido tirada com cores. O preto e branco foi uma opção estética. A assinatura do fotógrafo, no canto inferior direito, relembra a sua tendência para a produção artística, a criação de coisas belas - P Lopes.
O papel está envelhecido, o cinza, comido pelo tempo, já se transformou, em gradientes de cor que vão quase até ao branco sujo. Amarelado.
Tem um chapéu preto de abas largas na cabeça e um rosto de menina.
A foto foi tirada enquanto se encostava a um espelho que, atrás, reflete o que se encontrava na parede à sua frente: uma moldura vazia, sem tela ao meio. Só um rectângulo de madeira trabalhada. No centro do vazio, desenhado pelas ripas de madeira, um busto de homem. Antigo, uma estátua de um cavalheiro qualquer do sec. XVIII ou XIX, nota-se pela representação do vestuário esculpido, o laço a apertar o colarinho alto, a jaqueta por cima. Recorda-se de uma moldura siamesa, noutra parede, essa com o busto feminino, da mesma época.
Sorri para a câmara enquanto segura com ambas as mãos as abas do chapéu. Em pose de conquistadora do pico da mais alta montanha.
Parece querer dizer, fixem este momento, não esqueçam, X esteve aqui, como se faz nas portas dos wcs. Como se, captando aquele momento e congelando-o, se pudesse parar a história ali, naquele dia e naquele local. E ali fosse possível regressar sempre que a vontade o sugerisse.
Teria uns 20 e poucos anos, não mais. O rosto afilado, fresco, os cabelos compridos, recém-aparados, o olhar semicerrado, por algum efeito secundário do Four Roses. Deverá ter sido uma noite igual a tantas outras. Quando ainda era possível subir de madrugada a Rua da Rosa sem ser assaltado, para apanhar um táxi na D. Pedro V ou então amanhecer numa mercearia do Bairro, a comprar pão e sumos para o pequeno-almoço, que se comia com gosto, sentados num qualquer degrau de uma loja de arte moderna. Era o tempo de dar os bons dias aos moradores que, convivendo com aquela fauna há tanto tempo, os consideravam como mais um vizinho.
Mas voltemos à fotografia. O espelho não reflecte mais nada nem ninguém. Poderia estar alguém a passar por debaixo da moldura com o busto de homem, mas não. Era apenas ela e o espelho. Naquele momento que parou o tempo. Provávelmente teria estado a dançar, ritmos tropicais, um copo de bourbon numa mão, noutra o inevitável cigarro. Teria, talvez, pensado muito nessa noite. A tradicional mania das introspecções, dos recém-saídos da adolescência, que ainda perdem tempo a tentar entender o mundo. Que fazia ali? Para onde desejaria ir? Estaria realizada, feliz? O sorriso parece indicar que sim mas sabemos que é fácil pintar sorrisos num rosto de menina como aquele. Já nos olhos...mas a fotografia está velha e não é perceptível esse lampejo, no brilho semi-apagado daquele olhar.
Há, no entanto, algo que se derrama dele com nitidez, um quase grito, a ausência de paixão. Transpira do retrato para a pele de quem o observa com atenção, uma sensação quase física, aquele não é um olhar apaixonado. Não tem a força dos que se sentem capazes de virar o mundo do avesso, de galgar quilómetros de estrada para passar umas horas nos braços quentes de alguém muito amado, de enfrentar papões e dragões cuspidores de fogo, por uns minutos de felicidade.
Não reflecte o infinito e a eternidade, o espanto, a grandeza dos espaços, os rios que abraçam mares, o mistério das florestas encantadas. Falta-lhe a cor da auroras boreais, não esconde a jura secreta dos amantes.

O fotógrafo terá tentado prender a frescura e a juventude naquele papel em tons sépia. Registar para sempre o sopro de ar que nesse momento embaciaria a lente e o rosado daquela face.
Só não conseguiu inventar o brilho do Amor onde ele não existia.
E ficou apenas mais uma rapariga, a sorrir, encostada a um espelho, num passado sem data numa noite de Lisboa.

2.5.05

Não há volta a dar

É uma verdade inquestionável: quando gostamos daquilo que fazemos, tornamo-nos nuns eternos insatisfeitos a querer procurar sempre mais, mais longe, cada vez melhor.
E se há coisa que eu gosto, sem a menor margem para dúvida, é de trabalhar onde tenho a sorte de estar há já oito anos, desempenhar as funções que me têm atribuído ao longo deste tempo (que agora estão prestes a mudar ligeiramente, mas adiante...) e "contracenar" com pessoas tão criativas e determinadas como as que compõem a equipa que põe no mapa de Portugal a Biblioteca Municipal de José Saramago.
Evidentemente, sempre com a chancela de superiores hierárquicos com uma visão plural e aberta da responsabilidade e autonomia que devem ter os diferentes serviços que chefiam. Só assim se conseguem os grandes feitos.

Serve isto tudo para vos dizer que, logo após se ter feito o balanço das iniciativas do Dia Mundial do Livro, toda esta gente, que não pode estar quieta muito tempo, começou a "congeminar" uma forma de dar ainda maior visibilidade ao fenómeno dos Blogues em Portugal. Com a credibilidade dada por convidados de grande craveira intelectual do nosso país, um dia inteiro de trabalho científico sério, de debate, de reflexão, de troca de idéias, de informação, sem deixar de dar lugar à tertúlia e ao convívio que nos juntaram já por mais de uma vez e que são uma componente fortíssima desta actividade que nos une: Blogar.
Fazendo jus ao que foi dito por alguém que designou Beja de capital mundial dos blogues.

Assim, delineou-se uma estrutura provisória para aquele que irá ser o

Encontro Nacional de Blogues
Setembro de 2005

Biblioteca Municipal de Beja

Sábado - manhã

Palestras:

- Os blogues, um novo paradigma da informação/comunicação;

- No divã, ou a psicanálise do blogger;

- Os blogues, que futuro?

Sábado - tarde

A prática:

- Feira das tecnologias de informação;

- Oficinas de criação de blogues;

- Eu blogo, Tu blogas, Ele bloga II - a tertúlia.

Jantar com animação cultural.

* A organização está já a encetar contactos com especialistas das diferentes disciplinas de abordagem ao fenómeno bloguer.

Reservem, para já, os Sábados de Setembro, até à divulgação da data definitiva. Isto supondo que os que estiveram e os que leram o que foi escrito por aí, se sentem motivados a vir cá, uns para repetir a dose, os outros para experimentarem ao vivo as emoções que vos descrevemos. ;-)

1.5.05

Hoje

apanhaste joaninhas que guardaste dentro de uma caixa com terra e folhas verdes e deixei-te brincar com os cães serra da estrela mesmo sabendo que és alérgica e poderias ficar com o nariz um pouco mais entupido. Mas em compensação, a tua alegria por entre correrias e festinhas e dentadas a brincar, valeu tanto a pena que não há-de ser nada que uma colher de xarope não cure. E tu até gostas dele porque sabe a chupa-chupa.
Assisto maravilhada à forma como cresces de dia para dia. A banheira a cujo bordo mal conseguias chegar - sempre foste minúscula - já não é obstáculo ao sair do banho. Observo a forma como passas a perna por cima e atinges o chão sem precisar da minha ajuda. Até me custa a acreditar que um dia te tirava ao colo lá de dentro e, embrulhada até aos pés com um enorme toalhão, brincávamos aos sacos de batatas. Mas a tua gargalhada feliz ainda é a mesma, embora agora com um espaço ao meio, onde antes estavam dentes.
Tal como é o mesmo esse cheirinho de bébé, uma mistura de bolachas de leite e algodão doce, que vou sentindo sempre que passo o nariz na tua face e nos teus cabelos tal como uma leoa faria aos seus filhotes, enquanto te ensino a limpar bem o pescoço atrás das orelhas. E lembro o dia em que te puseram em cima da minha barriga, dorida, e esse cheirinho me chegou, redentor, enquanto te beijava com suavidade todos os pedacinhos da tua pele sedosa de recém-nascido.
Hoje falas pelos cotovelos (sairás a quem?) e estás cada vez mais autónoma, já não me cabes nas duas mãos, virada para mim em cima dos antebraços, como nesses dias. Perguntas-me como se lê "o petiz" e escreves-me em letra redonda como um rebuçado "Mãe, gosto muito de ti", num vasinho feito de barro e pedrinhas pintadas da mesma tinta com que sujaste as calças novas que te comprei.
Amo-te intensamente enquanto te olho e te vejo crescer e te sei mulher e te quero ensinar que o mundo é lindo mas tem coisas más. Queria que nunca tivesses que descobrir a dor da morte de alguém querido e evitar as tuas lágrimas quando te destroçarem o coração pela primeira vez.
Mas sei que não vou conseguir.
Passarás pela vida como uma mulher linda, terás amores e desamores, talvez filhos um dia. Apenas te posso dar o melhor de mim para que esse percurso seja feito de poucos espinhos e muitas flores. O meu papel é o de te ajudar a estares preparada para o percorrer. É uma tarefa mínima, esta, comprada com aquela que tiveste tu, há uma mão-cheia de anos para me tornares naquilo que sou hoje - tua MÃE.

29.4.05

Dos



sóis escondidos se sabe apenas que estão ali.
Adivinha-se o seu calor por detrás do manto cinza que tantas vezes os cobre.
Contam histórias de encantamento e Ícaros alados em busca dos seus braços de fogo. São verdades absolutas na promessa de renascimento até ao fim dos tempos.

Das nuvens se espera que um qualquer sopro verdadeiro as empurre para longe. Ou que retomem a sua condição de água para que, no horizonte súbito e azul, o círculo perfeito se erga altivo e, enfim, visível sobre o mundo.

27.4.05

Porque

a cidadania não é só uma palavra bonita que fica bem "sacar" quando se pretende impressionar o parceiro.
Cidadania é a participação de cada um de nós, o contributo, ainda que ínfimo, que possamos dar, para fazer desta uma sociedade melhor e do mundo um local mais seguro para os nosso filhos viverem.
E solidariedade é ajudar quem está hoje um pouco pior que nós - mesmo que seja na perspectiva egoísta de um dia virmos a ser ajudados caso o necessitemos.

Porque devíamos todos tentar ser pessoas um pouco melhores do que aquilo que somos, leiam, por favor, este post da Catarina.
E façam qualquer coisa.

Tenho

uma história para contar.
Preciso que me ouçam, em silêncio, como se fingissem não ouvir, para que não me falte a coragem e me trema a voz.
Apenas vos quero saber ali.
Começarei por rodear a questão central. Vou falar-vos de uma praia perdida por entre a floresta luxuriante, do caminho que desce em ziguezague até à areia branca e fina.
Que a mulher percorreu de sandálias na mão, um chapéu de palha no cabelo e o azul no olhar. Talvez vos conte das pedrinhas lisas e coloridas que a maré foi trazendo com o tempo. E do búzio grande que encerra a voz do Mar...
Para ganhar um pouco mais de tempo, peço-vos que a imaginem sentada na imensidão do areal deserto. Uma forma humana a perturbar a Natureza. Ou em comunhão com ela. O vento a despentear-lhe os cabelos, fios longos e soltos com cheiro a maçã verde, como cordas de seda que lhe fustigam o rosto. Partículas brilhantes de areia vão cobrindo a figura imóvel, como que a querer transformá-la em parte integrante do cenário. Para que não destoe, para que se entranhe na paisagem tal como se fosse uma pedra ou uma onda de espuma. Para que, aos poucos, o equilíbrio perfeito que veio perturbar seja reencontrado, como acontece com um qualquer organismo vivo que reaje ao invasor até o eliminar ou assimilar no sistema.
Passará muito tempo ali, o olhar fixo no horizonte. Só.
Ninguém saberá o que pensou, que emoções lhe aceleraram o sangue e ruborizaram o rosto, que mágoa lhe humedeceu o olhar ou que lembrança lhe curvou os lábios num sorriso.
Para que não se perca o vosso interesse, irei descrever a grande vaga que lhe beijou a pele em gotas de frescura. Os reflexos prateados na superfície da água, sob a luz do final do dia.
Sómente quando vos sentir impacientes, um frémito súbito e fugaz a percorrer os corpos imóveis à minha frente, apenas aí, quando não possa mais fugir do final inevitável, voltarei à história que vos prometi. Um segredo guardado numa caixinha de âmbar, no fundo da gruta mais perdida do mundo. Um mistério que apenas os sábios podem conhecer.
Pedir-vos-ei, olhando as vossas cabeças baixas, que sejam fiéis guardiões da magia e da esperança. De céus azuis e aves brancas de longas asas, em liberdade.
E só depois de ter a certeza que nada os travará, que ficará em segurança, vos direi então que olhem aquela onda em que desaparece o dorso brilhante desse ser, meio Homem meio peixe, que naquela praia deserta, ao entardecer mergulhou em direcção à vida.

25.4.05

Blogar é uma virtude

É difícil para mim falar de um dia longo e intenso, especial, tal como foi difícil quando, finalmente, por volta das 2 da manhã me coube dar o pontapé de saída naquela conversa sobre blogs. Tinha sobre os ombros a enorme responsabilidade de não defraudar os meus amigos. Os que tinha convidado a estar ali e que me deram a maior prova de confiança e amizade que se pode dar a alguém: deram a cara, perderam o anonimato que é condição essencial a um blogger. E confiaram em mim para o fazer. Este era o principal factor para o nervosismo e pressão que senti ao dizer Boa-Noite à plateia que ali estava, àquela hora da madrugada, plena de diferentes motivações.
Depois, a exposição. Estar ali a olhar para uma quantidade de caras com que me cruzo no café, no supermercado, ao entrar para o serviço, não na qualidade de representante de uma entidade qualquer, mas na qualidade de Mar, do Espelho Mágico. A sensação de me estar a desnudar perante tanta gente que não me conhece e que, naturalmente, não tem que gostar de mim.
E que, a partir daquela hora, passou a ter acesso a coisas que, normalmente, dizemos apenas aos mais íntimos amigos e que, naturalmente, gostam de nós e não nos julgam.
Essas coisas estão aqui, ao abrigo do anonimato que agora deixou de existir.

No entanto, à medida que falava, deu-se um fenómeno interessante: olhar para o lado e ver as pessoas que comigo estavam a viver aquela aventura, cheios de confiança, de brilho interior, bonitos, a aguardar a sua vez de falar, com a segurança que lhes dava o facto de acreditarem no que estavam ali a fazer, foi como um sopro de ar puro e criou em mim a enorme convicção de que era importante o que nós íamos fazer naquele momento. E que era preciso transmitir a todo o custo essa verdade a quem tinha passado por aquele longo dia e chegado áquela hora para nos ouvir. A nós, aos bloggers.
Dai até ao final foi só a subir. Em seriedade e certezas. Em emoções e risos. Em vontade de continuar.

Ouvir cada um daqueles seis bloggers a falar para a audiência (alguns dos quais pela primeira vez...), sob a luz dos holofotes, transmitindo as razões de ter criado um blog, explicando como funciona e defendendo as virtudes deste priveligiado meio de comunicação, a maior de todas elas, a possibilidade de fazer amigos e provando que é verdade esse pressuposto - estarmos ali juntos, demonstrou-o cabalmente - foi um momento mágico e inesquecível.
Como lindíssimo foi, ao olhar em frente, saber que ali estavam os "nossos" comentadores e amigos, de brilho nos olhos e sorrisos de força.

Não interessa se foi o maior ou o menor encontro de blogs de sempre. Ou sequer se foi o melhor. Ou se estavam a partilhar o momento connosco pessoas fantásticas, de blogs famosos à escala nacional.
Interessa o sentimento que ali nos unia e nos fazia iguais, e que se tornou visível a quem quis ver, nos sorrisos, nos olhares, na cumplicidade com que reforçávamos as idéias uns dos outros, nas piadas que se contaram, no abraço com que nos despedimos à saída.
Interessa sabermos que valeu a pena.
Que, quanto mais não seja, a blogosfera já nos permitiu termo-nos encontrado, termos enriquecido as vidas uns dos outros, termos partilhado esta vontade de estarmos juntos, com outras pessoas que, através de nós, puderam conhecer um bocadinho melhor esta comunidade a que pertencemos.

Se dúvidas houvesse (e não havia, de todo), ter-se-iam esfumado por completo naquela noite, aí pelas 4 da manhã, já na madrugada do dia 24 de Abril, ao ver aquela cafetaria cheia de gente, presa nas palavras, desta vez não escritas, dos bloggers convidados. E não eram só bloggers, outros da mesma espécie, que ali estavam. Eram pessoas que quiseram ouvir falar desta nova realidade de comunicação, ver os pioneiros (daqui a 10 anos seremos considerados os pioneiros da blogosfera), que a descobriram e a ela aderiram com entusiasmo. Pessoas que nos ouviram até ao fim da noite, que quiseram perceber nossas motivações, aprender connosco a validade deste meio na difícil arte de fazer amigos.
E, talvez, pessoas que acabaram a descobrir a vontade de, também eles, criar um blog.

A todos os que nos acompanharam e a todos vocês, amigos, que fizeram este momento comigo, um enorme obrigada.

(Reformulando: e a prova de que este blog não é nada sem vocês e dado que o sistema de comentários do CommentThis está com um problema qualquer e eu não sei o que farei se perder os comentários que tenho para trás, e não venho cá fazer nada se não fôr para vos ler, instalei provisóriamente o Haloscan. Tenho saudades vossas!)

Blogs Beja 2005

Uma quase-directa ontem, um dia de hoje para saborear os últimos momentos com gente amiga muito linda, o dia antes do 25 de Abril até há bocado à meia-noite, os foguetes, Vivó 25 de Abril, o Espelho Mágico a esta hora todo marado e sem conseguir ver o sistema de comentários, e eu aqui semi-acordada a tentar dizer-vos que adorei cada minuto e que logo conto, mas se quiserem saber detalhes a Catarina e a Gotinha já lá têm as principais histórias do Dia Mundial do Livro mais inesquecível para mim. (os outros não sei, que também não consigo abrir a porra dos links, amanhã se verá.)

22.4.05

Voltando

aqui à linha editorial "cartaz de espectáculos" (pelo menos até acabar a semana e antes que os mais entusiastas do Dia Mundial do Livro me batam...), tenho a informar-vos que, conheci há pouco o Roberto de Freitas que vai animar alguns dos momentos do dia de amanhã.
Tal como é comum a todos os contadores de histórias que conheço, sejam de que nacionalidade forem, tem aquele ar doce e delicado de quem possui os mistérios das lendas e dos contos no seu interior. Vão gostar dele ;-)

Quanto ao Antonio Sarabia, é um escritor de destaque na moderna narrativa iberoamericana. As suas obras de aventuras, publicadas em vários países (Os Contos do Vulcão é um dos traduzidos para português), e a participação em livros colectivos de contos, tal como "Contos Apátridas" transformaram-no numa referência incontornável na literatura contemporânea. Atentem na sinopse deste seu romance:



A Taberna da Índia

Um retrato admirável da Sevilha das Descobertas


Pouco ouro e ainda menos especiarias era o que traziam das Índias os primeiros navegadores que seguiram os passos de Colombo. O que de facto carregavam nos seus porões eram centenas de escravos índios, que vendiam mal desembarcavam no porto de Sevilha. E vão ser dois índios os protagonistas de A Taberna da Índia: o jovem Cristobalillo, trazido da Hispaniola por don Pedro de las Casas e empregado como pajem do seu filho Bartolomé, e uma bela canibal vendida a um taberneiro de Triana e rapidamente transformada na atracção do local pela fascinação erótica que produz e pela sua fama de trazer boa sorte a todo aquele que dela se aproximar.

Com admirável plasticidade e um extraordinário conhecimento da época, Antonio Sarabia reconstrói o quadro daquela Sevilha excitada pelas maravilhas mal entrevistas dos Descobrimentos e traça ao mesmo tempo uma terrível parábola da violência cega que haveria de manchar de sangue e infâmia a conquista dos novos territórios.

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Em Beja, amanhã, Antonio Sarabia.