25.5.05

Há coisas

que é difícil transmitir aqui, num blog.
Como o que sentimos ao ter nas mãos um livro que nos apeteceria copiar, na íntegra, para aqui.
Talvez que fosse essa a única forma de vos permitir ter também o previlégio de saborear o conjunto de sentimentos que ele nos desperta.

Gostava mesmo que conhecessem o Pedro Ferro, ao longo das 322 páginas do seu "Artesão do Efémero".
O livro, publicado depois da sua morte pelos amigos jornalistas como ele, a sua família e várias instituições do Baixo Alentejo.

O livro "obrigatório". "Acto de justiça e de reconhecimento", nas palavras do seu amigo João Paulo Velez, ao longo do prefácio.

Pedro Ferro, o "maltês da escrita". Primeiro no Diário do Alentejo, depois em múltiplos outros jornais que fundou ou dirigiu, ou onde colaborou, como o Diário de Notícias ou o Público ou em revistas como a Grande Reportagem.
Depois de nos ter legado algumas das mais belas páginas jornalísticas escritas nas últimas décadas sobre o Alentejo. Sobre o Homem. Ao longo de 17 anos da sua vida, prematuramente terminada aos 40 anos de idade.
40 anos de vida de um homem "generoso e bom, que amou intensamente, por vezes doloridamente, a vida. E a quem o Alentejo fica devendo algumas das páginas mais exaltantes e profundamente sentidas que alguma vez nos foram dadas a ler. Páginas de dignidade e rebeldia".

De que deixo apenas um ínfimo exemplo, o que fala de mar, pelo simbolismo que lhe encontro hoje, dia em que o releio. Porque também eu gostaria de saber escrever assim:

"Na Rota da Espuma - pela mão de Helena

Em todos os lugares
Existe, nas ondas um esplendor e
Um brilho cristalinos, sendo
Certo que nas profundidades
Do mar as águas apresentam
Uma imagem azulada.

O mar é o rodapé azul das casas. Todo esse inquieto azul desceu dos montes, feito maltês, e veio aqui parar. No lado de cá da planície. As dobras da ondulação a lamber a areia, a chorar nas paredes rochosas, são como terra lavrada. E um campo semeado de espuma desenha os contornos deste Alentejo virado ao oceano.
O Alentejo começa no meio do Sado. No ponto exacto onde uma gaivota mergulha num voo picado, depois de pairar por momentos sobre o ferry-boat cansado, todo ele um estremeçao, que atravessa o estuário entre Setúbal e Tróia. Começa na água e na água acaba, lá muito a sul, num pego qualquer da ribeira de Odeceixe, cuja margem norte pisa o Alentejo e a outra o Algarve. Entre o Sado e Odeceixe a planura deita-se ao mar e nele se estende toda nua, num leito de sal e de espuma.(...)
Deve ser por estas bandas o país dos poetas. Poetas da palavra e da pintura. Da música e da pedra. Poetas da fotografia. Mas se é, nenhum está à vista. Tróia, ao sol posto de Maio, é uma cidadela sem gente. Ninguém neste braço de areia moreno repousado no estuário, a apontar para a Arrábida. Só mar e vento. Helenas, nem uma. E o cavalo foi roubado por uma lenda.
(...)
publicado originalmente in Imenso Sul, Julho/Setembro de 1995

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