28.2.05


luar Posted by Hello

27.2.05

Uma palavra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.

Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.


Uma voz na pedra
António Ramos Rosa

26.2.05

Ando

há algum tempo para escrever umas coisas.
Não o tenho conseguido fazer.
São coisas duras. Que custam a dizer. Que têm que ver com a nossa efemeridade.
Tenho-as presas na garganta e não as consigo escrever.
Mas sei que tenho que as escrever.

Mas hoje, hoje só digo que o sol brilha como nunca e a vida é bela e o peso que carreguei, como uma espada sobre os ombros durante esta semana que passou, já desapareceu e eu sorrio como uma pateta, às cores e aos cheiros da vida.
Depois digo-vos porquê.
Ou talvez não.
Hoje tenho um sorriso para o mundo.

25.2.05

A amizade é uma coisa muito bela



Deu-me uma flor

Quando eu era pequena, os campos estavam cheios de flores. Não me lembro dos dias de chuva. Só me lembro de uma pequena clareira onde os gafanhotos saltavam e sei que havia uma ribeira perto.
Eu tinha 12 anos e tinha um namorado. Não me recordo do seu nome, mas sei que era meu namorado porque um dia, quando brincávamos ( e éramos muito crianças), só ele soube apanhar e soube oferecer-me uma flor.
No dia seguinte trazia uma roda de borracha, um pneu autêntico e minúsculo de um dos seus carros de corrida. Eu não disse que o queria, não disse sequer que o achava bonito. Mesmo assim, ele deu-mo.
Deu-me uma flor e depois um pneu. Então eu pensei que a amizade era uma coisa muito bela.

Maria Alberta Menéres

23.2.05

Tenho

uma Amiga.
Uma amiga que conta histórias. Que leva a vida a contar histórias aos meninos e a fazê-los compreender o mundo através dos livros e dos contos.
Que tem dado a volta ao mundo com uma mala cheia de palavras para dar a quem encontre, que em Cabo Verde ouviu os meninos, todos sentados no chão e vestidos com bibes azuis, dizerem "Storia, Storia, fortuna di céu. Ámen" antes do conto, aquelas crianças que, nada possuindo, nem um livro sequer, com páginas e papel de verdade, tinham um enorme tesouro, as histórias que lhes contavam, fortuna do céu. Ela ouviu e nunca mais se esqueceu e os seus olhos enchem-se de água sempre que o conta, pelos outros mundos por onde vai passando.
Uma amiga que não lê este blog, nem sabe que ele existe.
Como dizer-lhe, a ela que escreve textos lindos que fazem as crianças sonhar e aprender a vida, que tenho aqui este canto, com meia dúzia de larachas, a ela, que escreve coisas assim:

(...) “Esta casa tem muitos quartos, mais do que quartos tem a lua. É uma casa construída com os silêncios e a cumplicidade que só o tempo e a memória dão... À roda do lume trocam-se as histórias e os segredos guardados entre as páginas dos livros, na sala recebem-se os amigos que falam desta coisa especial que é formar leitores, na cozinha descobrem-se os ingredientes com que se cozinha um contador de histórias, à mesa provamos as palavras cuidadas dos escritores e na cave descobrimos origens e mistérios guardados nas lendas e nos contos. Esta casa tem muitos quartos, mais do que os quartos da lua e nela cabem todos os que partilham o prazer da palavra ..."

Tenho uma amiga.
Que me deu para amanhã, para que eu use num Encontro de Literatura para a Infância e Juventude, a imagem que podem ver a seguir.
E me disse para eu dizer que é assim que se deve ver os livros: como portas e janelas que se abrem, balões de ar quente que nos levam em voos sobre as mais altas montanhas, navios que nos transportam em viagens para outros mundos, outras vidas.

E é assim mesmo que eu vejo os livros.
Obrigada Cris.



imagem daqui.

22.2.05

No

primeiro dia deste mês, no endereço de email que costumo deixar sempre que faço um comentário por aí, nos muitos blogs que leio, recebi um mail anónimo, mas com morada do Brasil, ao qual não pude dar resposta porque ela veio devolvida com o aviso de endereço inexistente.

Este mail, de alguém que não sei quem é, dizia uma das coisas mais bonitas que já me disseram, em muito, muito tempo:

Durante os dias de Carnaval, quando estiver embrenhado-me na selva amazônica (pretendo encetar pescaria a fim de descansar) vou gravar teu nome na maior castanheira que encontrar. Vou causar inveja às aves de bicos frágeis, que não poderão fazer o mesmo.

Fica aqui o agradecimento público que não pude fazer na altura :-)

19.2.05

Sigo o vento

Sigo-te o rasto, enquanto passeio por entre cada raio de sol que te toca.
Enquanto respiro o ar frio da manhã, sem nunca saber onde estás.
Sem te ver, ouço o teu riso, vejo-te o brilho no olhar, consigo imaginar do que falas, conheço a música que te emociona, sei o que tens na alma.
Sigo-te o rasto, sem ser para te encontrar mas apenas porque sei que antes fizeste aquele caminho.
Que o teu perfume ficou no ar, que as tuas mãos tocaram a pedra, a madeira, o metal que eu percorro com as minhas.

Sigo o vento, que não me leva até ti. Mas sigo-o na mesma. Sei que antes te despenteou os cabelos.

Não te tenho. Não me tens.
Recorto pedaços de ti, que vou colando cuidadosamente dentro do meu peito, na tentativa de que um dia façam o todo.
Embora saiba que esse dia não chega. Que faltará sempre um pedaço. Ou mais que um, muitos, talvez, não sei. Nunca soube.
Os olhos, aqui. O gesto, que fizeste noutro dia. A forma como mexes as mãos, quando falas. Um sorriso, ali. A roupa que vestias quando quase nos tocámos. A conversa breve. O peso de uma palavra, noutro lugar. O teu cheiro...suave, tão próximo e tão inatingível.

Não te tenho. Nunca me tiveste.
Mas houve um dia, um único dia, um momento, em que os caminhos paralelos das nossas vidas, embora não tivessem sido os da nossa perdição, se cruzaram num nó(s) perfeito.

17.2.05

E

relendo o que escrevi, neste e em alguns outros posts lá mais para trás nos recantos deste blog, companheiro de luzes e brilhos, de insónias e de sonhos, de mágoas e euforias, tenho andado com uma idéia difusa na cabeça que diz mais ou menos que,

paixão que é paixão só vale a pena quando se pode fazer de um olhar cúmplice um momento em suspenso, capaz de derreter icebergs

porque se calhar não sei ser outra coisa que não a criatura intensa que sempre fui, e é por isso que daqui dedico mais uma frase do Fernando Ribeiro em As Feridas Essenciais a alguém que não conheço ainda mas que há-de vir a sustentar esse olhar no meu:

"As linhas rectas que se cruzam em nós serão os caminhos da nossa perdição".


Porque tudo o que não fôr assim ou que seja menos do que isto, por muito que vamos tentando pintá-lo, não tem qualquer cor.

16.2.05

De novo

o espaço de uma caixa de comentários não chega para tudo o que haveria a dizer sobre um tema. Há coisas sobre as quais nos questionamos muitas vezes. Persephone lançou o desafio à blogosfera, o meu comentário lá no seu espaço foi apenas um excerto do que me apetecia dizer sobre este tema. O resto fica aqui.

A cumplicidade é partilha, é liberdade e confiança.
É dizer um segredo ao ouvido de uma estrela ou para dentro de buraco cavado na rocha e tapá-lo com terra e ramos de árvore sabendo que ali ficará guardado, protegido.
A cumplicidade é segurança e tranquilidade porque é certeza. E as certezas dão asas.

A cumplicidade nunca é mentira, fingimento. É olhos nos olhos, transparentes, é sim quando é sim e não, sempre que fôr não. E é espaço, espaço aberto como a imensidão do céu, é ar puro e cores fortes numa tela, é uma peça onde os personagens existem sem amarras e sentem sem limites, porque a cumplicidade é pintada de respeito e de compreensão e de aceitação das diferenças.
É a porta da alma escancarada, todas as portas abertas para quem sabemos que irá entrar nelas com cuidado, pisando devagarinho para não magoar.
É a verdade dita com o peito cheio e "o coração dado nas duas mãos, abertas".(obrigado vague, por esta frase).

A cumplicidade "exige" dois lados, um em cada extemo da mesa de ping-pong.
Requer retorno, de um lado, igual àquilo que é enviado, do outro e rima com lealdade, que é o fermento que faz crescer a amizade.
E, quando enfim, se conquista, já não exige nada. Apenas existe. Sem perguntas nem respostas. Com actos.
Existe num olhar, que dura fracções de segundo mas que fala como se de um livro aberto se tratasse.
Existe no sorriso que trocam os cúmplices, quando uma palavra, uma frase curta e simples, para os outros, é afinal um segredo dito às claras e que só nós entendemos.
É quando Canção quer dizer Revolução, Grândola é Fraternidade e Gaivota, afinal, significa Liberdade.
Existe nos silêncios, quando se sabe que não é preciso falar, para dizer se estamos tristes ou alegres.

De início, dá muito trabalho a construir. Vão-se tecendo os pequenos fios que unem os amigos, com paciência e tempo e persistência. É uma maratona, não é uma corrida de 100 metros...embora também possa ter barreiras...Os elos são muito finos, tal como os fios de seda que brotam das aranhas. Mas, tal como estes, depois de bem presos nas duas extremidades que os ligam, são fortes e resistentes, podem esticar se, porque isso faz parte do processo, somos às vezes desiludidos ou magoados, mas não partem, aguentam o embate de pesos várias vezes superiores ao seu e retornam à forma inicial fácilmente, bastando para isso uma conversa franca, um sorriso, uma festinha no cabelo, um abraço apertado.
E é por isso que estes fios são preciosos e muito procurados por todos os caçadores de tesouros do mundo.
Quem os encontra nunca mais será o mesmo. Porque passa, a partir daí, a ter a grande missão de cuidar deles, de nunca os perder ou deixar roubar, de os manter brilhantes e sedosos.




A cumplicidade nunca oprime. A desconfiança sim.
A cumplicidade não esmaga ou limita. A falta de abertura, diálogo, o medo de ser mal-entendido ou de entender mal, sim.

15.2.05

Embora

ele tenha dito que não pretendia obter uma resposta, que o que escreveu foi na sequência de uma constatação e achou que nos devia contar, eu prometi que traria aqui este tema e o prometido é devido (pareço um político em campanha eleitoral...mas é só coincidência ;-).

E o certo é, que há comentários que não merecem ficar escondidos numa caixinha que passa para segundo ou terceiro plano, de cada vez que se escreve um novo post. Há comentários que, são eles própios um post ou são mais que muitos dos posts que vamos lendo por aqui. Pela sua lógica e clareza, pela reflexão que com eles carregam, pela forma como estão escritos, pelo facto de nós próprios já termos querido escrever aquilo tantas vezes. Para além de, óbviamente, me encher de "vaidade" o conteúdo dos mesmos. :)
O comentário do Eufigénio, lá para baixo, no meu post de 7/2/05 é um deles e por isso tem que ser partilhado aqui. Para todos vocês mas particularmente para Vague e a Zu que, comigo, compõem o trio que tão gentilmente o Eufigénio descreveu. Obrigado Eufigénio e a vocês duas, meninas, companheiras de conversa:


On : 2/11/2005 10:54:58 AM Eufigénio (www) said:


Mar, Vague, Zu (posso chamar assim?)

Comento um pouco fora do contexto (post), comento apenas os v. comentários, e nem são estes em particular. As minhas desculpas por isso.

A verdade é que vos vou seguindo rasto pela blogosfera, pelas caixas de comentários, ora aqui, ora em casa das outras, ora no Sharkinho, e é curioso olhar-vos como 3 pessoas que degustam uma conversa interminável, que trocam de pontos de vista hoje aqui, que amanhã os continuam ali, que depois os complementam acolá, e assim vão deambulando, umas com as outras, sempre em casa de alguém, evoluindo nas vossas conversas.

E porque digo isto? Talvez porque acho que este seja um fenómeno curioso, uma particularidade dentro da blogosfera, onde o "lacto-sensus" propõe que um comentário seja algo individual, e de alguma forma associado ao post de onde se pendura. Ora vcs vão já muito para além disso. Talvez porque assim como num blog, quando gosto do que leio ( a propósito Mar, aqui o faço) sinto quase necessidade de o dizer, talvez por isso, quando acompanho a vossa itinerante e inacabada (não me interpretem mal) conversa, sinta a mesma vontade de o dizer. Afinal, ela é quase um blog dentro dos blogs, escrito a 3 mãos.
Beijos às 3, reforçado para a dona da casa.
(acho que vou escrever isto em casa de cada uma, ou ...) :)

14.2.05


Eu sou como o homem que fechou todas as portas dentro de si e ficou de fora.


Fernando Ribeiro, em As Feridas Essenciais

13.2.05

Fim-de-semana com

Muito Sol.
Muito trabalho coletivo.
Muito riso.
Muita conversa produtiva, empolgada, reflexiva, animada.
Muitos Amigos.
Muita festa.

Pouco tempo para a net.

(mas não fiquem tristes, há sempre uma lembrança que me traz até vocês, um comentário que se faz enquanto se caminha numa rua, ao lado de um amigo e remete para um de vocês "sabes, há uma pessoa minha amiga nos blogues que disse...", as amizades destes cantinhos virtuais presentes e a par das amizades reais...bonito isto, pá!
Assim que tenha tempo vou transcrever para post um comentário do Eufigénio sobre isto. Até lá, aproveitem o resto do sol)

12.2.05

Apetecia-me

transcrever para aqui todos os poemas do livro "As Feridas Essenciais", do Fernando Ribeiro, ou, à falta disso, ter uma cópia do texto escrito pelo José Luís Peixoto, numa das sessões de apresentação deste livro, algures no país e que o Fernando leu, esta noite, descrevendo a forma como o tinha feito o Zé Luís, hoje ausente de Beja mas presente ali, naquele auditório, através das palvras. Simples. Honestas "Não sei se sou capaz de apresentar este livro", as suas palavras, inequívocamente.

Apetecia-me descrever-vos o contraste entre a aparência, "heavy", "gótica", de negro, cabelo comprido, do Fernando, vocalista dos Moonspell e a sua voz baixa, suave, o seu jeito tranquilo de estar e de falar e de ir contando uma história - a do livro - com muitas histórias dentro - a da banda, do seu primeiro poema, das aulas de Filosofia, das viagens em digressão, dos momentos de escrita, da criação literária e musical, dos "Diálogos" de Platão "Não sei se algum de vocês leu os "Diálogos"....?". Silêncio na sala.

Apetecia-me que pudessem ter estado lá, vocês.

Mas como não se pode ter tudo o que nos apetece, deixo-vos o poema da contracapa do livro, um dos muitos que ele nos leu esta noite:

Hoje acordámos em sítios diferentes

Eu, no meio das ruínas que se movem, das sombras que sopram, das
almas em fuga para dentro da vida.

Tu, no meio das ruínas paradas, das sombras que já não respiram,
das almas em fuga para longe da vida.

Amanhã, sempre amanhã, tentaremos acordar no mesmo sítio de
sempre e o abismo do medo e da dor irá rir-se de nós enquanto nos
engole ou nos deixa passar.


Um poema de amor, num livro que fala de amor e da simplicidade das relações.
Bonito.

11.2.05

O eterno "menino"

que mantém, aos 54 anos, a irreverência que sempre lhe conhecemos.
São muitos os "meus" momentos com Jorge Palma...desde a primeira vez em que, ao desembocar de uma esquina em Évora, num canto da Praça do Giraldo descobri um jovem de cabelo comprido e ar de "pelintra", que tocava a sua viola, com a caixa aberta em frente e meia dúzia de trocos lá dentro, mas já nessa altura com muita gente a escutar...até aos vários concertos em Festas do Ávante.
Recordo com carinho os que aconteceram aqui em Beja, em particular um deles, quando no final, ao apresentarmos cumprimentos oficiais, inesperadamente, me beijou a mão com ar de D. Juan e me ofereceu uma rosa que lhe tinham mandado para o palco ;-)



As letras de quase todas as suas canções, que podem encontrar aqui, (e ouvir um niquinho das músicas), têm uma mensagem clara de intervenção, de não resignação, de crítica social. E é também por isso que eu gosto tanto dele.

Com uma viagem na palma da mão

Agarras-te à hora
Em que o tempo não passou
Mergulhas nas cores
Que a loucura te emprestou
E quando te vês para lá do espelho
Encontras a solidão

Descobres o Mundo
De quem tem pouco a perder
E sobes às estrelas
Que ontem não podias ver
E perdes o medo de estar só
No meio do multidão

Tradições
Atrás de contradições
Fizeram-te abrir os olhos
Podes dizer:
Eu... sou

10.2.05

Sem ti

E de súbito desaba o silêncio
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas



Eugénio de Andrade

Amanhã



teremos cá, pelas 21.30, na Biblioteca Municipal de José Saramago, o vocalista dos Moonspell, Fernando Ribeiro, para nos apresentar o seu livro de poesia "As Feridas Essenciais".
Trata-se de um conhecido da "casa" pois para além de algumas actuações na Bejalternativa com a banda, também cá esteve acompanhando o José Luis Peixoto, por alturas do lançamento do seu trabalho conjunto, livro/disco, "Antídoto".

Um cheirinho...

Comala

Estou aqui tu sabes onde
e as almas saíram à rua esta noite para conversar.

Estou aqui a vê-las, pela janela,
dentro daquilo que nunca chegará cá dentro.

O relógio de lua bate certeiro,
conta-me ao ouvido as horas da minha vigília.

Cá dentro do que lá fora cá dentro uma alma que brilha
e me diz numa voz calada:
"volta para dentro e deita-te a sonhar o mais que possas,
para de vez acabares com os teus pesadelos."

Fernando Ribeiro, em As Feridas Essenciais.

A ver e ouvir ( e cheirar, adoro o cheiro dos livros novos...).

Devaneios gastronómicos...

Comi geléia de marmelo, semi-caramelizada, um daqueles doces caseiros, feito por mão experiente, podem durar anos guardados no fundo de uma despensa fresca, tudo no ponto certo, frasco esterilizado em enormes panelões de água a ferver, um tecido às florzinhas sobre a tampa, atado com fio de ráfia...o doce é escuro e translúcido e quando se mergulha a colher, vem agarrado a ela, deixando atrás de si fios finos e dourados que fazem lembrar aqueles pirolitos que comíamos em crianças, açúcar queimado espetado num palito e os fios a sairem-nos da boca e o caramelo a colar-se aos dentes...hummm...bem, adiante, dizia-vos eu que comi geleia de marmelo semi-caramelizada, mas o que na verdade, verdadinha, isto quer dizer mesmo, é que mergulhei os cabelos na geleia de marmelo, quer dizer, não foram só os cabelos é que depois, a tentar tirar os cabelos da geleia, os fios da dita colaram-se todos na camisola, para além de ter as mãos completamente peganhentas enquanto tentava que os cabelos besuntados de geléia não se me colassem ao pescoço. O problema, a seguir foi que, não querendo desperdiçar nem um niquinho da maravilhosa geleia de marmelo, tentei lamber os cabelos enquanto tentava decidir se os lavava na torneira do lavatório, se o melhor mesmo seria meter-me de uma vez dentro da banheira, situação ligeiramente desaconselhável visto que a geleia de marmelo foi assim a modos que a sobremesa do almoço, que provávelmente estaria a entrar em processo digestivo...e encontrando-me nestes devaneios assaz interessantes tocou o telemóvel...adivinhem...pois, claro, o chefe!!
Encontrava-me então eu a braços com a interessante tomada de decisão entre atender e besuntar o telemóvel todo - mas se o chefe chama numa altura destas só pode ser urgente, e depois se não atendo, primeiro que eu consiga lavar esta peganhice toda já ele está furioso comigo (chefe, não leia esta) - ou entre não atender de todo, lavar tudo e só depois, uma verdadeira lady, impávida e serena, vestida de lavado e perfumada, ligar de volta ao chefe, meia-hora depois, perguntando se precisa de algo, com o maior dos desplantes (ih, ih, ih, mais uma para não ler), estava eu, dizia, nestes preparos, quando...toca a campainha! e era o senhor do gás, de quem eu já me tinha esquecido por completo, a quem abri a porta com o dedo mindinho da mão esquerda, fiz sinal para entrar com a cabeça de lado como se tivesse um torcicolo, segurando no cabelo cheio de geléia com a mão direita e agora pergunto eu: com que raio de mão vou eu passar o cheque?!!

Como é que era mesmo aquela associação assim para os mais desastrados, azarados coiso e tal??

8.2.05

Cessar-Fogo



A concretizar-se efectivamente, para além do papel e dos apertos de mão, a concretizar-se nas ruas, no desaparecimento dos tanques e das pedras, nas crianças a brincar calmamente à beira da estrada, no derrubar do muro, na liberdade de um povo viver na sua terra de pleno direito, a concretizar-se, enfim, o reconhecimento da Palestina como um Estado livre daqui para a frente, este será um grande dia para o mundo.


7.2.05

De repente

o que era um comentário de resposta à Vague, no post abaixo, ganhou asas, tornou-se independente da sua inicial condição de simples comentário (imposta por mim, a sua dona contra quem ele se insurgiu) e ganhou estatuto de post, de direito próprio, quer pelo facto de, em si, conter outros temas que me parecem merecer destaque, quer pela extensão que, inevitávelmente, acabou por conquistar.
Por isso (e ainda por cima, calha que nem gingas, para quem não estava inspirada e não lhe apetecia escrever nada...) cá vai ele:

Vague...ufff...os teus comentários são sempre tipo murro no estômago (acho que tb devemos ter sido qualquer coisa uma à outra, noutro lado e tempo quaisquer ;-).

"O amor é em si uma coisa pura. Não tem culpa de nascer no terreno mais árido", aqui não acrescento nem uma letra, acho que isto diz tudo e já me habituaste a ler-te, em frases simples e meia dúzia de palavras, reflexões profundas que eu própria tenho mas não consigo verbalizar assim..

Depois, quando falas do teu melhor amigo ter sido no início uma grande paixão, é curioso que também comigo se passou uma coisa assim, há muito tempo.
Costumo dizer que, quando conheço alguém a quem me sinto de imediato ligada por qualquer razão, me parece termos sido amigos toda uma vida. Será que não o fomos? Noutra encarnação qualquer? E este é outro tema que eu gostava de debater porque não sei se acredito ou deixo de acreditar que podemos viver muitas vidas...

Mas adiante, o facto de eu me sentir assim, ligada, próxima de uma pessoa, leva-me por vezes a avançar depressa demais, a abrir-me e expôr-me imensamente, partindo do pressuposto de que o outro é igual a mim.
E, muitas vezes, não o é. Concluo, por vezes da forma mais dura, que as pessoas são muito diferentes umas das outras e esta mania de achar que todos pensam e sentem como eu dá, por vezes, o resultado contrário àquele que eu quereria: afastar as pessoas, assustadas com a minha abertura, confusas e até desconfiadas em relação a mim.
Embora, para dizer a verdade, também me aconteça o contrário: se embirro à primeira com alguém, em função de uma primeira apreciação negativa do seu comportamento ou carácter, muito difícilmente venho a aproximar-me dessa pessoa.
São extremos de ser, de sentir, aqueles de que sou feita.
Pergunto-me, muitas vezes, se estarei mal e os outros bem. Se a desconfiança e a precaução serão a actuação correcta quando se conhece alguém. Se devemos confiar a nossa vida, a nossa amizade, os nossos segredos, apenas ao fim de muito tempo, depois de termos a prova provada de que a outra pessoa os merece e não irá desiludir-nos. Talvez essa seja a forma de nunca nos magoarmos mas será dessa forma que se sente a vida intensamente?
Embora este pareça um comportamento meio "naif" de uma adolescente a descobrir o mundo, não é disso que se trata. Não sou adolescente nem tão pouco o mundo terá já grandes coisas que me dar a descobrir, mas apesar das mágoas e trambolhões que a vida me tem proporcionado ainda não consegui mudar esta faceta de carácter. Nem sei bem se a quero mudar. Aliás, acho que não quero.

3.2.05

Transgressão

é fazer tábua rasa do que, socialmente, é considerado certo.
Todos de acordo.
Já não haverá, provávelmente, tanto consenso em torno do facto de ser ou não ser correcto transgredir.
É correcto transgredir a ordem instituída? Transgredir é cometer um crime? Ou é revolucionar, mudar, alterar algo, eventualmente para melhor?
Nenhuma revolução se fez sem transgressão. O 25 de Abril foi uma transgressão ao regime fascista. Foi libertar um povo inteiro. E não foi correcto?

No domínio dos sentimentos, dizia-se ali em baixo que os amores sem transgressão não inspiram poetas. Diz o povo, que é sábio, que o fruto proibido é o mais apetecido. Digo eu, que a intensidade do que se sente é inversamente proporcional ao que é certo e seguro. Os amores míticos, as paixões inflamadas e dilacerantes têm em comum a impossibilidade, a dificuldade, o desejo alucinado, os sentimentos intensos, a transgressão.
É correcto transgredir numa relação amorosa, conjugal? À luz dos principios judaico-cristãos, pelos quais a nossa sociedade se rege, não é correcto e é condenável. Transgredir é trair.

E reprimir, amordaçar o desejo de transgredir não será trair o nosso coração, trairmo-nos a nós? Trair a nossa emoção é socialmente menos condenável do que trair uma segunda pessoa?
E trair em pensamento é considerado transgredir? Ou, como não se vê, não faz mal?

Tema difícil este. Aceitam-se contribuições para esta reflexão.
Não sou apologista da transgressão por sistema. Por leviandade ou maldade. Não sou contestatária do socialmente correcto, por princípio. Mas também não me traio a mim própria nem aos meus sentimentos.

2.2.05

Aqui com um dilema matinal...

que é, decidir entre manter algumas das fotos que, só por si, são a mensagem dos respectivos posts, ou retirá-las para conseguir abrir o blog...

1.2.05

Mário Cláudio



esteve hoje na Biblioteca Municipal José Saramago, em Beja onde fez a apresentação do seu livro "Triunfo do Amor Português" e com ele veio o pintor Rogério Ribeiro que ilustrou as histórias da forma sublime como só ele sabe fazer.


Amor português Posted by Hello

Uma palavra susbsiste no final desta apresentação: transgressão. Doze histórias preenchem as páginas deste livro/álbum. Entre elas, a dos amores (reais, míticos ou platónicos) de Pedro e Inês, de Leonor Teles e João Fernandes Andeiro, de Camões e da infanta Dona Maria, de Mariana Alcoforado e do conde de Chamilly. E poderia faltar a paixão de Camilo e Ana Plácido? Nunca!

O que há de comum nestas histórias de amor, poderemos perguntar, ao que o autor responde, «A transgressão. Há sempre um crime contra a lei ou a religião, contra os costumes»
E ainda remata, arrancando risada geral da plateia, dizendo que a literatura não se faz de histórias onde um homem e uma mulher casam, são felizes toda a vida e têm muitos meninos.É demasiado enfadonho, até para os próprios, e não inspira poetas. Os grandes amores acabam sempre por ser trágicos ou viverem grandes dramas onde a transgressão está sempre presente, sob alguma forma.

A irreverência da mensagem é fascinante.

Ao alvorecer



Há muito, muito tempo que não via o nascer do sol.
Sair de casa pelas 6 horas da manhã é algo de místico.
É aquela hora em o mundo ainda dorme mas os pássaros já se remexem, inquietos, na folhagem escura das árvores, à espera do momento exacto de irromper em explosão de voos e de vida.
Percorro a autoestrada com as luzes ligadas, rasgando o escuro dessa noite que está quase cumprir o seu ciclo. Não se distingue muito mais para além de uns quantos metros para o interior de cada berma, enquanto o carro devora quilómetros sem parar.
Sou apanhada pelas mudanças em plena autoestrada.
Subtil, de início, uma claridade ténue lá mesmo ao fundo, assinala a linha, finíssima, do horizonte. A linha cresce, sobe aos poucos, o azul claro, quase branco, a romper o escuro, de um lado da estrada o dia que nasce, do outro a noite que se despede.
Uma poagem branca e fina cobre o chão, junto aos troncos das árvores. Milhões de gotículas de orvalho, água condensada a pairar a poucos metros do solo, como uma cortina de fumo, daquelas que se usam nos espectáculos, só que aqui, o artista em palco é a Natureza.
A parte mais bonita é quando o sol se aparece, apenas um pouco, menino tímido a mostrar uma pontinha do seu esplendor. O fogo a tingir lentamente aquele azul cada vez menos escuro. O mundo aparece enfim, com a cara lavada, o ar fresco, frio da manhã a entrar pela janela do carro e por todos os poros. Encho o peito de ar.
Digo-lhe bom-dia sol, obrigado por nasceres, aqui te presto humilde tributo, eu que não sou ninguém.

Ele agradece...quando olho ao fim de uns minutos, pelo espelho retrovisor uma enorme bola vermelha, de contornos precisos e perfeitos, incendeia o céu, subitamente azul turquesa...

Começa um novo dia.

Um pouco

mais de ternura, no blog da Azul .
Dez anos de ti, da Miosótis, a pequenita que faz os dias mais azuis naquela casa.
Para ti, Miosótis, florzinha, um presente



para fazerem companhia ao Pluto ;-).

Toda a felicidade do mundo para ti e a tua mamã.

(p.s: mudança de presente para ver se o blog abre mais depressa...e além disso, estes também são lindos ;-)