30.6.05

Passo

intervalos de tempo cada vez maiores sem actualizar o Espelho.
Por vezes, quando passo por aqui, com o tempo contado à justa para ler os comentários na última posta, sem oportunidade sequer de lhes responder nesse momento, auto-flagelo-me com culpas e remorsos, desejando ser a escriba produtiva que corresponda às expectativas de todos vós, que por aqui passam, vá-se lá saber porque cargas de água...
Noutras vezes, quando encontro um bocadinho para retribuir a simpatia de quem teve a pachorra de me deixar um feedback ao que escrevi, apetece-me colocar algo de novo, deixar-vos um sinal da minha presença por aqui, nem que seja uma frase maluca a dizer "não tenho tempo de dizer nada".
Acabo por não o fazer. Fazia-o em tempos, numa outra fase da existência deste canto perdido no éter. Agora, já não me parece que tenha tanto lugar esse tipo de "encher chouriços". Não depois de, alguém altamente abalizado, ter avaliado a minha presença por aqui, nos últimos meses, como bem melhor do que antes. De ter definido este, como um estádio de escrita mais maduro que o anterior.
(definição esta que a minha modéstia militante e auto-crítica feroz me impede de perceber, digam lá o que disserem, mas vá-se lá fazer o quê...)

É certo que, temos um blog porque nos dá prazer, porque é giro ver em letras pretas os devaneios que nos ocorrem enquanto conduzimos, ou tomamos um café numa esplanada, porque nos apetece, porque sim.
Mas, sabermos que somos lidos, e que somos lidos por pessoas que prezamos e admiramos, que temos ali na listinha do lado, que visitamos, nós próprios, religiosamente todos os dias, pessoas que escrevem, elas sim, duma forma que nos encanta, incute-nos um sentido de responsabilidade que nos impede de debitar larachas para cumprir calendário. (não confundam, debitar larachas é o que eu faço em 90% do tempo, mas essas são debitadas por opção e não apenas porque há 3 dias que não actualizo o raio do blog, mas adiante).
Prefiro abster-me de escrever seja o que fôr, enquanto não tiver a certeza que o consigo fazer com um mínimo de pés e cabeça, se não para os outros, quanto mais não seja, com coerência para mim.
E atenção, que isto não implica necessariamente que sejam coisas verídicas o que escrevo com coerência. Há muito de coerente numa história romanceada, numa ficção bem esgalhada. Muito mais até do que em alguns episódios da vida real...

Deixo ao vosso critério de argutos leitores, a interpretação do que é uma coisa e do que será a outra, nas prosas que vos tenho oferecido...e siga a Marinha! :-)

27.6.05

Tenho

uma mania parva.
Aliás, tenho várias, mas também não são para aqui chamadas, julgam que isto é algum divã e vocês Freuds de meia tijela, ou quê? Qualquer dia sabiam mais do que eu, olha pós espertinhos, hum?
Adiante, dizia eu que tenho um raio de uma mania que é não gostar de escrever em Word. O que eu devia fazer era isso, escrever, guardar muito bem as pérolazinhas de textos que me saem de vez em quando, ainda estou para saber como, mas enfim, nas alturas mais inesperadas, e depois utilizá-los nos timings que me parecessem mais certos, como fazem as pessoas normais.
Agora eu, não.
Antes, já o disse, pegava no papel que estivesse mais à mão, despejava tudo o que me passava à frente do neurónio e depois perdia o papel.
Agora - a tecnologia é uma coisa muito linda - mais sofisticada, abro o blogger, esgalho directamente tudo o que me apetece, na hora, e depois, guardo em draft.
Conhecendo-me, digna membra da APADEDICA*, já podem antecipar que isto não pode dar bom resultado...ou perco posts longuíssimos, lindos, irreproduzíveis, porque, no espaço de tempo em que os escrevi a net, entretanto, pifou por algum motivo, ou acabo a ter mais textos em draft do que publicados o que é uma tremenda confusão quando abro o edit posts.

Serve este intróito para pedir desculpa ao Mário e ao Sharkinho (e a quem eventualmente tenha lido o que publiquei há pouco e não tenha comentado).
Há uns dias, participei num momento de grande dor de uma amiga, o funeral de sua mãe, e escrevi sobre isso. Não me pareceu oportuno publicar e guardei para mais tarde. Hoje, fiz inadvertidamente publish a esse texto, ao relê-lo, e nem reparei. Só ao ir completar um outro que queria publicar é que me apercebi que o tinha feito e que até já tinha dois comentários.
Desculpem, hei-de voltar a colocá-lo, daqui a uns dias. Tenho que deixar passar mais algum tempo. Por respeito.

Hoje tenho coisas muito mais bonitas e importantes para dizer. Que saem já, já. Talvez depois de jantar. :-)

* Associação Para Defesa dos Distraídos do Caraças, sic Vague Maria

23.6.05

Padeço

de um problema.
Com os vizinhos. Ou melhor, padeço de vários problemas, um dos quais com os vizinhos.
O outro é com o meu mau-feitio. Mas eu juro, juro que não tenho a culpa de ter vizinhos que são ex-agentes infiltrados do KGB que, quando a coisa começou a dar para o torto lá do lado detrás do muro se passaram todos, fuínhas, cagarolas, para a CIA. Palavra. Até tenho impressão que alguns deles apareceram como figurantes naquelas séries muito giras que dão sobre agentes secretos e que têm como actriz principal uma moçoila toda robusta. Ora é claro que os meus vizinhos apareciam no papel daquele gajo da limpeza, barrigudo e baixinho que passa a empurrar uma esfregona, lá atrás, ao fundo do écran enquanto decorre um momento com menor acção do que o habitual, do género, a heroína e o herói consultam uma complicada base de dados de um computador último modelo todo XPTO, ao mesmo tempo que aproveitam para proporcionar aquela cena chapa 31, tensão-antecipação-olhar-tórrido-agora-é-que-ele-a-beija-oh-não-ainda-não-foi-desta-só-daqui-a-mais-500-capítulos-estes-cabrões-sabem-na-toda-se-isto-não-é-marketing, e o resto que nós pensamos enquanto debulhamos um balde de picocas.
Os meus vizinhos são assim. Estou até desconfiada que as suas casas, pelas quais eu tenho obrigatoriamente que passar até chegar ao meu humilde segundo andar, estão equipadas com tudo quanto é o modelo mais recente de complicados sistemas de radar, sonar, o diabo a quatro, detecção de movimento, fumo, cheiros, visão nocturna, alarmes contra presença humana ou animal incluindo crianças. Só pode.
Antes, morava num prédio que era um sossego. Entrava e saía na boa, dez vezes ao dia se necessário e, só em raras ocasiões, com periodicididade aí mensal ou até bimensal, me cruzava com um vizinho que eu sabia vagamente habitar o 3º esq. Nessas alturas, até dava vontade de fazer uma festa e puxar conversa daquelas de chacha, Ora muito bom-dia! atão o vizinho já viu que o carteiro troca as suas cartas com as minhas? palavra de honra, ou das outras, típicas, Boas Tardes, como está o senhor? que este calor não se suporta e se não fizesse tanto sol era capaz de chover , e assim. Vocês sabem.
Estes não. Aguardam pacientemente que o meu carro entre no cimo da rua que desemboca no meu prédio. Os alarmes disparam. Colocam os auscultadores, enquanto seguem pelos monitores os meus esforços para estacionar, no espaço mínimo que ELES deixaram entre dois carros. Ao mesmo tempo que saio do carro e começo a tirar os sacos das compras para o chão, os fuínhas preparam o disfarce que é, no caso delas, rolos na cabeça e camisa de dormir de gola alta e, no deles, calças descaídas pela barriga proeminente e tronco nú. Ligam os gravadores e as mini-câmaras de filmar que têm embutidas nos vasos das plantas e na tampa do contador da luz por cima das caixas de correio para, no preciso momento em que eu, esbaforida, descabelada, furiosa, a pingar em suor debaixo dos abrasadores 41 graus das três horas da tarde - mas o que é que esta gente TODA faz em casa às três da tarde? não trabalham seus cornos? - tentando equilibrar, numa mão 10 sacos de compras e na outra a mala, mais todos os objectos imagináveis que podem sair de um carro, como bonecos de criança, peças de roupa com a mola ainda agarrada e pacotes de batatas fritas e a chave que, claro, cai no chão e me obriga a uma ginástica acrobática para a conseguir apanhar, que ainda me deixa mais vermelha do que estava e a cuspir fogo por entredentes para, dizia eu, aparecerem à janela - no caso dele - com um simpático e sorridente boa tarde já viu, este calor e tal?, que me arranca um grunhido acompanhado de um esgar que pretende ser um sorriso, que também não posso ser mal-educada, tenho uma reputação a defender e essas coisas.
O pior acontece mal piso a entrada do prédio e o inevitável ruído de abertura da porta do r/c se faz ouvir para o espécime feminino irromper, nos preparos que já referi, com um atarefado ai vizinha, este dia, o calor, veja lá, ainda não tinha saído de casa hoje e blá, blá, que quase me arranca uma resposta de pois então volte para lá e não me fecunde o juízo não vê que só quero entrar em casa, jogar-me para cima de um sofá e esquecer que vocês existem?, substituido por um lacónico é verdade, o calor, enquanto disparo em direcção às escadas para quase embater no do andar seguinte, que vem a descer nesse preciso momento com o seu saco de lixo numa mão e o caniche na outra.
Chego ao meu patamar, não sem antes ouvir o agradável ruído de novo, o qual precede a vizinha da frente mais a vassoura porque aquela é a hora exacta e inultrapassável para varrer as escadas.

Quando finalmente fecho a minha porta do lado de dentro, resistindo ao impulso de o fazer com o maior estrondo possível, tenho a certeza que os gajos se recolhem todos e comunicam entre si por um sistema qualquer através da rede de esgotos ou do algeroz, dizendo com satisfação "Missão cumprida".
Até ao dia seguinte...

Mas desta vez despisto-os, eles que se fiquem que yo me voy, de fim-de-semana. Sempre quero ver como irão ocupar três longos dias sem saberem do meu paradeiro...

22.6.05

Acho

que a tendência inevitável do ser humano é o uso de dois pesos e duas medidas.
Somos extraordinariamente bons a tecer complicadas teorias do comportamento e evolução da espécie, torcemos o nariz ao vizinho do lado e à sua forma escandalosamente errada - na nossa inquestionável perspectiva, óbvio - de lidar com esta ou aquela situação. Arrogamo-nos o direito de definir conceitos de atitudes correctas e incorrectas, sempre que discutimos no bar da empresa o caso do colega que chega sempre atrasado ao serviço.
E nunca sabemos virar o espelho para nós. Nem nos lembramos de todos aqueles dias em que o nosso filho fez uma birra à hora de levantar e chegamos esbaforidos ao escritório (e à escola!) meia hora depois de toda a gente. Ou os dias em que ligámos ao chefe a pedir a manhã porque há reunião de pais. Ou aquele dia em que, na ronha depois de uma noitada de copos, acabámos por nem ir trabalhar depois da recusa da cabeça em sair da almofada.
Nunca nos lembramos disto quando desancamos sem dó nem piedade a filha da vizinha que andou a meter-se com um homem casado, ou o primo da mulher do colega do patrão que se juntou com o namorado gay.
O peso que serve para medir aquele que achamos ser o comportamento correcto do outro, já não se aplica quando de um comportamento nosso se trata. Aí talvez seja de usar aquele outro peso, o que tem menos 5 gramas. Ou se calhar o outro ainda mais leve, a nossa balança de alta precisão é muito sensível, há que equilibrá-la com o mínimo de movimentos, com gestos suaves de grande beleza estética. Como num bailado entre cisnes.

Ao longo da vida tenho-me esforçado por não ser demasiado crítica com os outros. Sou do género de deixar passar ao lado a última notícia estrondosa que corre a boca de toda a comunidade, para vir a sabê-la, semanas depois, por alguém que, ao comentar depara com o meu ar de espanto e me atira um "és sempre a mesma, não apanhas nem uma".
Quando tenho que confrontar alguém que depende de mim, em termos profissionais, por uma falha qualquer, inverto sempre a situação, começando por salientar o que de bom essa pessoa tem feito, valorizando a parte positiva para só depois lhe chamar a atenção para as partes menos boas e que acabam por o prejudicar primeiro a ele e depois a todos os que com ele trabalham. Costuma resultar. Não sou apologista de "sacar dos galões", as posições de poder são relativas e efémeras e nada nos garante que, noutra altura, não venhamos nós a estar na posição de subordinados.
Isto porque tenho consciência dos meus próprios erros, da possibilidade sempre presente de, um dia, por um conjunto de contingências perfeitamente justificáveis nessa altura, vir a praticar o mesmo acto que critiquei noutra pessoa.
Não quer isto dizer que eu é que sou o máximo e estou a pôr-me aqui um pedestal.
Tenho vertigens e estar lá no alto era capaz de ser desconfortável comó caneco.
Não, pelo contrário.
Quero apenas dizer que sou humana. Como todos nós.

20.6.05

Ouvi

falar ali ao lado, num charco vizinho, em esplanadas à beira-mar, o que logo me provocou um irreprimível momento de divagação, que incluiu uma pizza king size, comida algures num ponto situado entre o Cais do Sodré e Cascais e um pôr do sol inesquecível virado para o ponto mais extremo de Portugal.

O horizonte sem fim a caminhar por nós dentro, até nos encher a caixinha das emoções de luz e de paz.


18.6.05

Antes

tinha uma paixão pelo papel.
Blocos de todas as cores e formatos faziam parte do conteúdo obrigatório das malas e sacolas que me acompanhavam para todo o lado.
Depois, vieram as folhas A4. As de eleição eram em papel reciclado, pardo, macio e fácil de encher de garatujas à medida da vontade e da imaginação. Serviam para tomar notas nas aulas no ISCSP, enquanto o JJ ou o Pereira Neto (com todo o respeito, queridos senhores Professores) debitavam teorias da Sociologia ou da Antropologia. Escrevia depressa, com siglas e diminutivos e apanhava cada palavrinha que era dita, isto enquanto não começava uma conversa mais arrebatada, apanágio do Professor Pereira Neto, que nos transportava para um qualquer recanto perdido de África, onde ele tinha passado uns meses em trabalho de campo.
Nessas alturas a caneta parava, perdida no meio do desenho de uma letra e transformava-se em lança para pescar nos lagos que rodeavam a aldeia, em pilão para moer o milho num ritmo cadenciado, ou num ornamento de osso, atravessando o nariz da mulher mais bela da comunidade.
Nunca tive muito tempo para conhecer de perto o famoso lago do Palácio Burnay. Mais do que a história do bandido, interessavam-me as histórias que se contavam nas aulas, a imaginação galopante que quase me levou a embarcar numa viagem para recém-licenciados, que tinha como objecto de estudo investigar a vida dos Pongídeos*, num qualquer país africano que hoje não recordo, qual Sigourney Weaver da planura alentejana...
Mas a conversa começou por ser sobre papel e já estamos na floresta tropical a observar gorilas...perco-me sempre, um pouco à semelhança do que acontece quando converso. É uma característica inata, que já me vale dos amigos mais chegados um desabafo de "não expliques!" sempre que me disponho a contar algum episódio mais detalhado. Gosto dos detalhes, já disse. Como continuar a contar que, numa outra fase as minhas folhas de papel passaram a ser coloridas, rosas e azuis, verdes e amarelas. Quase sempre soltas, compradas avulso na papelaria da faculdade, contando os tostões, para verificar se chegavam para todas as cópias que tinha que tirar e ainda tomar um café.
Creio que vem dessa época, a minha mais forte ligação à escrita.
Não sei onde foram parar as centenas de folhas de todas as cores que enchi ao longo desses anos. Umas com matéria ligada aos vários ramos da Antropologia, outras com ensaios inocentes de texto literário, fotografia das emoções nascidas no lirismo dos 20 anos. Perderam-se pelos tempos, umas rasgadas por acidente, outras para reciclar, em pilhas enormes na sequência de uma limpeza geral mais meticulosa.
Talvez essa seja a grande diferença em relação ao dia de hoje. Num blogue é possível guardar as mesmas centenas de folhas, para memória futura. Não têm cheiro nem textura, nem se enrugam ou esborratam com a tinta permanente da caneta Parker oferecida num aniversário, por um tio mais atento.
Mas podem guardar-se num disco que cabe na palma da mão e recordar-se 20 anos mais tarde.

(ainda assim, tenho saudades das minhas folhas de papel)

* é um termo incomum, eu sei...

16.6.05

Dúvida

Passeio por entre textos e textos, enquanto tento descobrir se estaremos a perder o sortilégio das palavras.

14.6.05

Saber

dar aqui, aos outros, pedacinhos de nós e da nossa maneira de pensar, é uma das grandes valias deste mundo, onde lançamos para o éter aquilo que conversaríamos com os amigos.

Por dizer muito do que penso e não fui capaz de escrever daquela forma, o texto do Eufigénio é de uma enorme riqueza para mim. Fica aqui guardado, obrigada

13.6.05

Perda




Que palavras chegam para descrever tamanha perda?
As inevitáveis e batidas homenagens post-mortem que caem sempre bem fazer nestas alturas?
Não. Prefiro as deles, as suas próprias e inimitáveis, que em determinada altura proferiram, aos seus estilos pessoais, com calor e convicção, ou com serenidade e filosofando sobre o mundo.

As de Vasco Gonçalves, o general do povo que fez história, quando diz que "as maiores conquistas que o povo português alcançou ao longo dos seus oito séculos de história, se verificaram em 74-75 e nelas desempenharam um papel fundamental os militares do MFA" (pg. 184 do livro «Vasco Gonçalves — um general na Revolução»).

Ou as do Eugénio, como um cristal que prenda para sempre, no seu interior, a limpidez dos sorrisos de cada um, nestas imagens?

Talvez as de Álvaro Cunhal, sempre no sentido da participação do Homem na transformação da sociedade, mesmo que de arte falasse "um apelo à arte que intervém na vida social (...) um apelo à liberdade, à imaginação, à fantasia, à descoberta e ao sonho." (Álvaro Cunhal, 1996)

Ou quem sabe o silêncio.
Pela perda de três homens ímpares, três figuras que enriqueceram a história deste país, pela tristeza vezes três.
Guardo silêncio por eles, neste momento, os três que, de uma forma ou outra, fazem parte das minhas referências enquanto pessoa. Do meu crescimento. Do meu apego às causas e ás lutas, ao sonho e à utopia.
Fica o silêncio e a memória.

10.6.05

Esperança


aqui


Vou prender a tua voz no fundo de um búzio, para entrar nela sempre que quiser. A voz de quem espera e sabe que é esperado.
Vou acertar os meus passos pelos teus, para nunca nos perdermos um do outro.
De todos os sons, escuto o mar e o vento e neles voarei até pousar na palma da tua mão.
Seguirei pelo carreiro de conchas e pedras brancas, para chegar ao dia em que acordaremos no mesmo sítio.

9.6.05

Existem

determinadas coisas no processo das nossas existências que, pela grandeza que detêm, relativizam tudo o resto.
O Nascimento e a Morte. A Felicidade. O Amor.
O Tempo.
Não temos nunca tempo suficiente para alcançar tudo o que desejámos e sonhámos. Independentemente de sobrevivermos até para lá dos 60 ou 70 anos, nessa altura já é um tempo de contagem decrescente, a recta final para o fim, que sabemos inevitável e inadiável. Dispenso as disssertações dos teóricos, que não me convencem que se vive, nessas idades, da mesma forma que o fazemos aos 20 ou aos 40 anos. Com o entusiasmo da descoberta ou a paixão do amadurecimento dessa descoberta.
Não me vejo a envelhecer e a marcar passo para o término do meu ciclo de validade no planeta. Não me vejo sem frescura, sem brilho nos olhos, com a pele enrugada, com hora marcada para o fim. É difícil lidar com a imagem de tamanhas mudanças na pessoa que somos, pelo menos agora, que faço mentalmente esse exercício. Quem sabe, a percepção que tenho agora que antevejo o cenário, não se transforme radicalmente, um dia em que o esteja a viver na prática. Quero acreditar que sim. Talvez a aceitação dos factos faça parte da capacidade de sobreviver, que todo o ser humano tem que ter para percorrer este ciclo. Com princípio, meio e fim, como todos os ciclos.

Não sei bem se isto é uma conversa coerente para quem lê.
Esta é uma das dificuldades deste mundo virtual, entre tantas outras que muitos de nós tentamos analisar, pelo menos os que se preocupam com a forma de estar aqui, os que procuram que seja a mais correcta, a todos os níveis. Tal como o fazemos na vida.
Nem sempre o conseguimos. Não porque não tentemos, ou não seja essa a nossa intenção sincera e mesmo que até nos esforcemos conscientemente para o conseguir. Mas, muitas vezes, por uma diversidade de causas que não dominamos, não somos capazes de alcançar esse desígnio a que nos propomos.
Das causas possíveis, a nossa particular forma de ser é uma das mais determinantes, porque há que ter em conta que os outros não a conhecem, nem poderiam, porque não fazem idéia de quem somos por detrás desta folha com letras, do que nos formou como pessoas, o que já vivemos e fomos felizes ou sofremos.
Depois, há a particular maneira de ser dos outros, que nos lêem. E que o fazem, naturalmente, à luz dos seus próprios pressupostos, valores e forma de estar na vida. O que significa que, uma frase que escrevo com uma intenção clara para mim, e que pode até passar pelo facto de não ter intenção rigorosamente nenhuma, pode ser e vai ser interpretada pelas várias pessoas que a lêem e descodificam, com um conjunto de significados vasto e distinto. Tantos quantos o número de vezes que fôr lida.
Se, do ponto de vista da interacção que procuramos e que tanto tenho elogiado como virtude da blogosfera, e do enriquecimento que proporciona a partilha e debate de idéias com pessoas diferentes, essas diferentes interpretações são valiosas, já não o são tanto quando servem para alguém formar uma idéia do que somos enquanto pessoa. Porque, se calhar, o que escrevemos, em cada momento específico que por aqui vamos registando, não constitui um retrato de nós assim tão fidedigno. Pela liberdade que representa este meio, implica que o usemos a nosso bel-prazer. Para desabafos ou histórias da carochinha. Para descrições de episódios nossos ou para invenções criativas mais ou menos conseguidas. Para pintar de azul ou cor-de-rosa ou preto conforme o estado de espírito. Para pôr música ou dá-la, para oferecer retratos feitos por nós ou escolhidos de um site perdido no meio do espaço virtual e que descobrimos por acaso. Uma infinidade de possibilidades e combinações que escolhemos de acordo com o que pretendemos fazer ou, simplesmente, com o que nos der na bolha apenas porque sim. E isso resulta numa miscelânea do nosso Eu verdadeiro, com o Eu que gostaríamos de ser, ou o Eu que acreditamos convictamente ser até nos provarem o contrário. Tudo salpicado com pedaços de nadas que nos apareceram sem razão nenhuma, por entre cada coisa que escrevemos.
Fazer a triagem disto não é tarefa fácil, mesmo ao mais experiente psicanalista ou conhecedor do carácter humano. É um trabalho moroso, que requer persistência mas, sobretudo, flexibilidade de ajustar interpretações ou pistas que apontam, à primeira vista num sentido e que, se olharmos mais de perto, descobrimos que são, afinal, um simples pingo de tinta, caído inadvertidamente da caneta, naquele lugar concreto. Ou seja, nada.
O Tempo (esse grande escultor) encarregar-se-á de determinar se, do trabalho de espremer todos os materiais supérfluos para obter uma matéria-prima genuína, resulta uma efectiva potencialidade de esculpir uma obra de qualidade.
O Tempo.
Conjugado com os olhos.

Talvez, neste momento, seja necessário Tempo.

5.6.05

Queria

ter para dar, pétalas de malmequeres.
Que a vida fosse um caminho aberto, com um trilho de estrelas de cada lado.
Que os horizontes fossem azuis e que cada acto nosso decifrasse uma linha mais no mistério da felicidade.
Somos seres complexos e completos. Seres que podem até passar pela vida toda sem chegarem a conhecer-se verdadeiramente. É cómodo pensarmos que nos conhecemos, que sabemos o que queremos, que somos assim ou assado. É mais fácil julgarmos que detemos as verdades absolutas.
Quando alguém gosta de nós o suficiente para nos fazer questionar as bandeiras que sempre arvorámos, o céu cai-nos em cima. Porque dá trabalho. Porque nos desorienta as certezas que, com tanta persistência fomos construindo. Porque nos obriga a olhar de frente o Espelho e nele desenhar a figura que afinal somos. Melhor ou pior do que julgávamos.
Enfrentar as nossas pequenas misérias e grandezas é um processo que se assemelha ao rasgar de uma crisálida. Enquanto se está no interior do fino casulo, protegido do frio e do calor, translúcido e mostrando apenas o essencial, somos seres pacíficos mas cinzentos. O doloroso corte, a saída penosa, enquanto as asas se estendem e secam em contacto com o exterior, traz ao mundo um ser cansado de nascer, mas extraordinário.

Podemos seguir apenas por uma de duas opções: desistir, de nascer e de olhar, porque é mais fácil ou fazer um esforço por ver.
Ver
a cor que reflecte esse olhar, que oferecemos a nós próprios pela mão de quem nos ama, pintar o nosso destino com as cores que emanam da verdade.

Eu prefiro a segunda hipótese.

3.6.05

Se

viesse agora aqui escrever, seria para desancar nas armadilhas - que las hay - deste mundo que insistimos em querer pintar de cor-de-rosa, chamado blogosfera.
Porque já de si me falta a pachorra, e, muitas vezes, expôr as questões é uma forma de sermos obrigados a enfrentá-las, com as consequências possíveis todas em aberto, por agora, abdico de o fazer.

(a propósito do que li aqui)

1.6.05

As Grandes

Causas têm sobre mim um efeito interessante.
Primeiro de raiva, por, em última análise, serem necessárias, o que significa que, algures sobre este planeta azul, ainda se anda a gastar em armamento e a transformar pequenos países em máquinas de guerra ao serviço dos interesses dos grandes países que os apetrecham e instruem, o que devia ser gasto para dotar outros países de infraestruturas básicas e capacidade de sobrevivência económica.
Que, por arrastamento, traria a sobrevivência, literalmente falando, dos seus povos.



Depois, o impulso imediatamente a seguir é o da Participação.
Por achar que há sempre algo a fazer. Que as coisas podem mudar.
Chamem-me lírica, utópica, por ainda acreditar que um mundo melhor é possível.
Com as opções políticas correctas, os governantes certos, nos locais chave, no plano mundial.
Algo tão simples como a mudança de líder das grandes superpotências económicas do planeta - algum dia haverá a sorte de o candidato vir a ser um ser humano - poderá ser o impulso da viragem.
E eu tenho esperança nesse dia.
Essa esperança é renovada de cada vez que descubro que essas pessoas existem e algumas até se encontram em lugares onde há essa capacidade de intervenção.
Como é o caso dos responsáveis da PlasticsEurope, uma associação europeia de fabricantes de material plástico, que representa cerca de 90% da produção total da Europa e emprega 1.5 milhão de pessoas espalhadas por países como a França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido.

Descobri a campanha aqui, a atenção desperta pelos bonequinhos, o que só confirma que uma boa imagem gráfica é um factor determinante em qualquer estratégia de marketing.
Pois que, apesar de reconhecer que é também disso que se trata, tal não desmerece o facto de esta Indústria Europeia dos Plásticos ter lançado uma campanha para entrega de donativos à WaterAid (cliquem na imagem ali acima e vão lá ver), para ajudar a proporcionar àgua potável e saneamento à população da Etiópia.

Chama-se a isto responsabilidade social das empresas e, há países, onde os consumidores estão suficientemente despertos para assumirem a opção de adquirir os seus produtos a empresas que a pratiquem para, dessa forma, também eles a título individual, poderem contribuir para estas causas humanitárias.
Bonito, não é?



Foram 200 000 euros. Uma gota de água. Que fará a diferença para alguns milhares de seres humanos.
Muitos deles são crianças.
E não é por acaso que o digo aqui, Hoje, dia 1 de Junho.