tinha uma paixão pelo papel.
Blocos de todas as cores e formatos faziam parte do conteúdo obrigatório das malas e sacolas que me acompanhavam para todo o lado.
Depois, vieram as folhas A4. As de eleição eram em papel reciclado, pardo, macio e fácil de encher de garatujas à medida da vontade e da imaginação. Serviam para tomar notas nas aulas no ISCSP, enquanto o JJ ou o Pereira Neto (com todo o respeito, queridos senhores Professores) debitavam teorias da Sociologia ou da Antropologia. Escrevia depressa, com siglas e diminutivos e apanhava cada palavrinha que era dita, isto enquanto não começava uma conversa mais arrebatada, apanágio do Professor Pereira Neto, que nos transportava para um qualquer recanto perdido de África, onde ele tinha passado uns meses em trabalho de campo.
Nessas alturas a caneta parava, perdida no meio do desenho de uma letra e transformava-se em lança para pescar nos lagos que rodeavam a aldeia, em pilão para moer o milho num ritmo cadenciado, ou num ornamento de osso, atravessando o nariz da mulher mais bela da comunidade.
Nunca tive muito tempo para conhecer de perto o famoso lago do Palácio Burnay. Mais do que a história do bandido, interessavam-me as histórias que se contavam nas aulas, a imaginação galopante que quase me levou a embarcar numa viagem para recém-licenciados, que tinha como objecto de estudo investigar a vida dos Pongídeos*, num qualquer país africano que hoje não recordo, qual Sigourney Weaver da planura alentejana...
Blocos de todas as cores e formatos faziam parte do conteúdo obrigatório das malas e sacolas que me acompanhavam para todo o lado.
Depois, vieram as folhas A4. As de eleição eram em papel reciclado, pardo, macio e fácil de encher de garatujas à medida da vontade e da imaginação. Serviam para tomar notas nas aulas no ISCSP, enquanto o JJ ou o Pereira Neto (com todo o respeito, queridos senhores Professores) debitavam teorias da Sociologia ou da Antropologia. Escrevia depressa, com siglas e diminutivos e apanhava cada palavrinha que era dita, isto enquanto não começava uma conversa mais arrebatada, apanágio do Professor Pereira Neto, que nos transportava para um qualquer recanto perdido de África, onde ele tinha passado uns meses em trabalho de campo.
Nessas alturas a caneta parava, perdida no meio do desenho de uma letra e transformava-se em lança para pescar nos lagos que rodeavam a aldeia, em pilão para moer o milho num ritmo cadenciado, ou num ornamento de osso, atravessando o nariz da mulher mais bela da comunidade.
Nunca tive muito tempo para conhecer de perto o famoso lago do Palácio Burnay. Mais do que a história do bandido, interessavam-me as histórias que se contavam nas aulas, a imaginação galopante que quase me levou a embarcar numa viagem para recém-licenciados, que tinha como objecto de estudo investigar a vida dos Pongídeos*, num qualquer país africano que hoje não recordo, qual Sigourney Weaver da planura alentejana...
Mas a conversa começou por ser sobre papel e já estamos na floresta tropical a observar gorilas...perco-me sempre, um pouco à semelhança do que acontece quando converso. É uma característica inata, que já me vale dos amigos mais chegados um desabafo de "não expliques!" sempre que me disponho a contar algum episódio mais detalhado. Gosto dos detalhes, já disse. Como continuar a contar que, numa outra fase as minhas folhas de papel passaram a ser coloridas, rosas e azuis, verdes e amarelas. Quase sempre soltas, compradas avulso na papelaria da faculdade, contando os tostões, para verificar se chegavam para todas as cópias que tinha que tirar e ainda tomar um café.
Creio que vem dessa época, a minha mais forte ligação à escrita.
Não sei onde foram parar as centenas de folhas de todas as cores que enchi ao longo desses anos. Umas com matéria ligada aos vários ramos da Antropologia, outras com ensaios inocentes de texto literário, fotografia das emoções nascidas no lirismo dos 20 anos. Perderam-se pelos tempos, umas rasgadas por acidente, outras para reciclar, em pilhas enormes na sequência de uma limpeza geral mais meticulosa.
Talvez essa seja a grande diferença em relação ao dia de hoje. Num blogue é possível guardar as mesmas centenas de folhas, para memória futura. Não têm cheiro nem textura, nem se enrugam ou esborratam com a tinta permanente da caneta Parker oferecida num aniversário, por um tio mais atento.
Mas podem guardar-se num disco que cabe na palma da mão e recordar-se 20 anos mais tarde.
(ainda assim, tenho saudades das minhas folhas de papel)
* é um termo incomum, eu sei...
Talvez essa seja a grande diferença em relação ao dia de hoje. Num blogue é possível guardar as mesmas centenas de folhas, para memória futura. Não têm cheiro nem textura, nem se enrugam ou esborratam com a tinta permanente da caneta Parker oferecida num aniversário, por um tio mais atento.
Mas podem guardar-se num disco que cabe na palma da mão e recordar-se 20 anos mais tarde.
(ainda assim, tenho saudades das minhas folhas de papel)
* é um termo incomum, eu sei...
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