Quando pisei o último degrau senti-me a dar entrada num universo paralelo.
O ambiente era Kafkiano. As grades nas janelas (cena recorrente esta...) e os escarradores em ferro forjado pintando de branco faziam lembrar exactamente a sala de espera de um manicómio. Para colmatar este efeito (devem eles ter pensado), as flores plásticas em vasos igualmente do mesmo material, estratégicamente dispostas ao lado dos escarradores, davam um ar ligeiramente sujo ao recinto (considerando o pó acumulado...).
Avancei atemorizada até ao balcão de atendimento, dos antigos, comprido, sem vidro higiénico a dividir a sala de espera, das secretárias das funcionárias. Do lado de dentro, três laboriosas servidoras do Estado, desempenhavam as suas funções com afã.
Uma delas nem levantou a cabeça, apesar de eu estar a um escasso meio metro de distância - a largura do balcão que nos separava. Remexia uma espécie de agenda enquanto contava os dias um a um e voltava atrás várias vezes a certificar-se de que não lhe teria escapado nenhum malvado por entre os dedos, que lambia enquanto passava as folhas...As várias tentativas minhas de chamar a atenção da senhora através de uma tosse discreta foram infrutíferas.
A segunda, nem valia a pena contar-se com ela, uma vez que a sua cabeça tinha desaparecido, mergulhada num daqueles arquivadores antigos, de gavetas parecidas com as da morgue, que saem para fora ocupando toda a sala, e onde, pelo esforço, devia procurar um processo desaparecido pois ouviam-se estranhos sons guturais a sair do interior da gaveta.
Por último, a única que, supostamente, estaria a atender, estava às voltas com a inscrição do casal que me precedia.
A funcionária enquadrava-se de tal forma no ambiente que parecia ter estado sempre ali: carrapito no alto da cabeça, ligeiramente desgrenhado (certamente devido ao esforço mental que parecia estar a fazer...), óculos redondos a escorregar pelo nariz fino e suado, e, pormenor intrigante, esferográfica atrás da orelha...
Esperei pacientemente!que a senhora preenchesse com letra de escola os inúmeros impressos necessários ao efeito pretendido. Um papel maior, tamanho A4, onde escreveu todos os dados pessoais do senhor que inquiria, um cartão tipo de boas-festas onde tornou a preencher o nome, idade e maleitas do senhor e um livro de recibos, onde, escrevendo novamente o nome, número de beneficiário não sei do quê e o valor de um euro e setenta cêntimos, em duplicado, atingiu finalmente o término do processo, arrancando com euforia (pareceu-me...) pelo picotado, a parte do recibo que entregou ao senhor, indicando-lhe que "agora é só esperar". E, pergunto eu, o que tinha sido antes??
Chega a minha vez e, enquanto todo o processo se repetiu comigo, divaguei num sonho semi-acordado onde me via a varrer aquelas pilhas de impressos de cima das secretárias e a colocar, num passe de mágica, computadores ultra-modernos, onde inserindo um cartão, o meu caso clínico apareceria de imediato, descrito pormenorizadamente desde o nascimento e seria só introduzir a data e o motivo daquela consulta.
Enquanto sonhava, a senhora, perguntava-me pela terceira vez o nome, até que, finalmente, com uma cara que parecia anunciar o Fim da Humanidade, me retorquiu que "mas aqui está R."!
Eu, delicadamente, expliquei que R. era o antigo apelido de casada, que já não possuía, pelo que o nome que eu já por três vezes lhe tinha repetido era, na verdade, C.
O olhar fulminante, ter-me-ia derretido, caso fosse uma máquina de laser, "mas agora tenho que apagar...", e eu, sorriso radioso, "pois."
Isto implicou um atraso de mais uns 25 minutos em todo o sistema visto que, um objecto chamado corrector também não existia no local e a senhora optou por preencher, de novo, todas as fichas.
Atrás de mim já se tinha juntado um amontoado considerável de utentes que bufavam, arrastavam os pés e produziam mais uma enorme variedade de ruídos, sem que isso incomodasse, qualquer uma das três funcionárias que, entretanto, continuavam imersas nas suas tarefas e reflexões, já descritas no início desta história (verídica!).
Quando, por fim, a senhora me atira o "agora é só esperar" e eu, suspirando de alívio, ocupo uma das cadeiras vagas, descubro que a única coisa que faltava para completar o cenário seria uma vizinha idosa que, efectivamente, apareceu depois, queixando-se dos pés e da crise em geral, esperando da minha parte a tradicional resposta de circunstância. Não a obtendo, ainda fez uma tentativa de perguntar em que número ia, mas ganhou as mesmas pois indiquei-lhe o balcão, dizendo que não fazia a menor idéia. A minha simpatia natural, em situações destas, sofre um processo estranho de transformação num sentimento de ódio visceral em relação ao meio envolvente, pelo que, é melhor não me dirigirem a palavra...
Cerca de duas horas e meia depois de ter entrado naquele antro, como que em câmara lenta, ouço o meu nome, através do altifalante fanhoso e dirigo-me, finalmente, à sala onde vou fazer o RX, como se desse entrada nos portões escancarados do Paraíso...
Btw: Antes que comecem a conjecturar, é apenas um check up de rotina...