30.6.04

Ai que nervos!



Isto não é normal!
Desculpem, mas não é, eu não gosto de futebol!
Ando aqui a stressar porque nunca mais chegam as 19.45, acham normal?
Eu não, já disse!

Mas quando é que acaba o raio do Euro??

28.6.04

Sereias

O post de um amigo, lembrou-me de como sempre gostei destes seres mágicos que habitam naquilo que sou: Mar.

27.6.04

Post sem título

Encho o peito de ar.
Uma, outra, várias vezes.
Mas não parece haver meio de este passar para além de uma espécie de nó, formado ali pela zona um pouco abaixo da garganta.

Quem me dera não ser assim tão exigente.
Talvez se fosse o tipo de pessoa que se contenta fácilmente, que não quer que tudo seja perfeito até ao último milímetro, as coisas fossem mais fáceis.
Quanto mais baixa é a bitola mais felizes são as pessoas. É como aquelas tribos perdidas do mundo, que nunca conheceram os "luxos" da civilização que criámos e vivem sem nunca saber que poderiam alcançar mais do que aquilo. Felizes.

26.6.04

Não gosto

do Durão Barroso, não gosto do PSD, não gosto do Santana Lopes (apesar de achar que a primeira medida dele enquanto PM será decidir abolir as licenças de funcionamento dos espaços de diversão nocturna, com bar aberto por todo o país na noite da sua tomada de posse...), não votei neste Governo, não votei nesta força política em nenhuma das eleiçôes a que se sufragou, não gosto de políticos que não assumem as suas derrotas políticas, não gosto de imposições, não gosto de ser obrigadaa a nada, gosto de ser eu a decidir, QUERO VOTAR!

25.6.04

Há factos

que passamos anos e anos e tempos e tempos e tempos a tentar esconder de nós próprios, tapando-os com pedras grandes e pesadas ou pedrinhas, consoante as ocasiões o exigem de uma ou de outra forma, e outras vezes deixamo-los tapados apenas com véus leves, de tão leves que são, ficam quase transparentes mas, ainda assim, continuam tapados e nós confortáveis porque pensamos que não os vemos e ninguém vê e está tudo bem.(pseudo-bem corrijo...)

E depois vem alguém, um dia, com toda a calma e afasta, uma a uma, as pedras para o lado e levanta todos os véus até que não resta mais nada a dissimular aquilo que verdadeiramente somos e queremos mas não dispomos da coragem suficiente para o admitir ou temos medo.
E aí, temos que dar o braço a torcer, para nós próprios, muito mais do que para os outros.

Ainda nem estou em mim...

Ganda jogo pá!
E eu não gosto de futebol.
Mas se é preciso o futebol para um povo inteiro encher o peito e gritar de orgulho e chorar de emoção e abraçar-se em união, então que venha ele!!
Foi lindo, o jogo, a festa, as lágrimas, A ALEGRIA DA VITÓRIA!

24.6.04

Portugal...again

Só tenho velas aromáticas...
será que fazem o mesmo efeito?
Mal não devem fazer...
Vou acendê-las!

FALTA 1 MINUTO!!!

23.6.04

Os Deuses estão mesmo loucos...

Local: Paraíso, no final de uma tarde de Verão...

O tédio instalara-se no Paraíso. Vários Deuses jogavam uma peladinha, o que se tornava difícil, apesar da perícia já desenvolvida ao longo da eternidade, uma vez que a bola sempre acabava por cair por entre as nuvens, o que deixava os jogadores sem nada para fazer.

Após ter desistido do jogo por se ter esgotado o stock de bolas, um Deus menor esforçava-se por conseguir decifrar o Código Deontológico de um Deus de Verdade, num esforço de auto-formação que lhe garantiria, supunha ele, junto do Todo-poderoso, o reconhecimento e o elogio, com todas as vantagens que isso lhe traria, nomeadamente o destacamento para a nuvem mais fofa e mais próxima D'Ele.

Na nuvem ao lado, um Deus novato, recém-chegado, segundos após não ter reparado no camião que o deixou esborrachado no asfalto de um IP terreno, com a característica forma que os homens têm de se tornar amigos uns dos outros, tentou a aproximação:

-Ouve lá, pá!
-...
-Tava aqui a pensar fazer umas cenas de magia áqueles gajos ali em baixo, o que achas pá?
-...
-Meu! Qual é a tua? Tás a estudar pa entrar na faculdade ou quê?
Topa-me só as m**** daquela tipa ali no jardim, junto ao lago.
-Não me chates, pá.
-Tou a ver q'o bacano é certinho...
-Agradeço que uses de alguma deferência ao referires-te à minha divina pessoa. Sou mais graduado que tu o que significa que posso lixar-te, capisce?
-Pronto, pronto, meu, que susceptível...só pensei que podíamos divertir-nos um bocado, f***-**, que isto é uma pasmaceira do caraças.
-O facto de ainda não teres aprendido as regras da vida eterna é que te leva a essa ânsia de te manteres ligado aos luxos terrenos.
Aconselho-te que adquiras os manuais e te cultives.
-Ouve lá meu, não me digas que não achas a tipa boa com'ó milho, olha-me aquele c*...

O Deus menor, desvia por momentos o olhsr do grosso manual e olha para baixo.

-Agora que falas nisso...
-Vê-me só o tanso no banco do outro lado a salivar em cima da gaja!
-E o outro ali na esplanada...
-É isso meu! Bora lá criar uma manobra de diversão.

Enviam ambos uns quantos raios invisíveis que criam na espécime em causa a necessidade incontrolável de se aproximar de um espécime do sexo oposto e olhá-lo fixamente nos olhos, o que provoca no mesmo um efeito estranho de pele arrepiada que o leva a segui-la quando ela abandona o recinto, deixando os outros dois espécimes destroçados...

-LOL! Olha-me pró gajo! Parece que lhe tiraram o chupa-chupa da mão!
-LOL, estes humanos são mesmo tótós. Se soubessem o que os espera cá em cima, nem ficavam um segundo na merda. Era lançar o anzol á primeira que passasse a seguir e tá a andar!
-Podes crer meu! Vai uma peladinha?

E aqui andamos todos nós, ao sabor dos intervalos nos jogos de bola entre os deuses, sempre que o raio da bola cai e vem parar cá abaixo...

E mais uma das vantagens

de termos um blog e que essas pessoas nunca poderão apreciar, é poder, através dos comentários que tem a delicadeza de nos deixar quem nos visita, descobrir outros blogs , de outras pessoas, que connosco partilham este gosto de passar para o écran sentimentos ou coisa nenhuma.

Hoje

alguém me perguntou se tinha um blog.
A minha resposta, "não, porquê?".

E a pessoa perdeu-se em consideraçoes sobre um blog de alguém conhecido, que tinha lido pela primeira vez e que "pamordeus, aquilo não é nada, se as pessoas não têm nada para dizer nem se deviam meter nisso.." e por aí fora, o que me deixou a pensar...

O que pensa quem não tem blogs de quem tem blogs, não tem nada a ver com o que pensamos nós que temos blogs, que eles pensam...

Deu para perceber?
Não? Vou reflectir mais um bocadinho no assunto, pode ser que à segunda consiga explicar...

22.6.04

Cadernos de Viagem II

Já quase tinha esquecido a cor amarelo-dourado dos campos, nesta época do ano, quando se caminha para Sul.

Uns acabados de ceifar, outros, muitos, em pousio forçado, cujo término é difícil de prever, em resultado das quotas de produção impostas pelas normas comunitárias...
Reduzidos à mera função de produzir forragens para o gado esparso que por ali se passeia vagarosamente.
Um desperdício, um sentimento de abandono, num Alentejo que já foi "o celeiro da Nação". E depois vamos ver a percentagem de produtos alimentares que importamos de países nossos parceiros de comunidade...

Mas este post não ia falar destas coisas.
Este post ia falar do azul do céu, da cor da paisagem em diferentes tonalidades de amarelo, passando para um verde tímido, à medida que os quilómetros de estrada nos aproximavam do mar.
Dos sobreiros orgulhosos, ainda muitos felizmente, que pontilham os campos planos, oferecendo a sua sombra a quem com eles partilha o estio, e das oliveiras centenárias, de troncos retorcidos, e, ainda assim, imponentes.
Companheiras de pastores errantes, raros hoje, mas que em tempos a elas se encostavam, aproveitando o tempo de pasto das ovelhas, vigiadas pelo olhar atento do fiel guardador de rebanhos, para tirar uma bucha de pão escuro, acompanhado de azeitonas pretas e, com sorte, um pedaço de toucinho.

Ia falar desta paisagem árida, de certa forma agreste pela secura que transmite, pela ameaça do Suão que tudo queima, mas ao mesmo tempo grandiosa, orgulhosa de ser terra fértil, de barros vermelhos que, com um pouco de água apenas, produz quase tudo o que o homem quiser.

Mas também ia contar do inesperado presente ao desfazer uma curva mais acentuada do caminho: Um tronco seco onde, no topo, um ninho abrigava três cegonhas brancas, espécie cada vez mais rara e ameaçada e que, um dia, acabará por desaparecer de todo.

E, mais à frente, um bando de pássaros não identificados, que pareciam, no seu voo, querer indicar o caminho ao carro que se movia velozmente, em busca do mar.

No fundo este post queria era falar de uma terra, vista pelos olhos de quem a ama, nela nasceu e viveu e a ela regressou.
Para que outros que não vivem nela, consigam através deste olhar, perceber toda a beleza que ela encerra.
Sim, era isto.





É escusado

Há dias para esquecer.
Nem vale a pena a descrição, para além das horas que são, claro e do cansaço que nem me deixa raciocinar...

Maybe tomorrow...

20.6.04

Após

este breve momento de insanidade, tenho a declarar que voltei ao normal, ou seja, detesto futebol.

Mas isto da pátria, ah, isto da Pátria...Quando é que jogamos outra vez??

PORTUGAL!

Ganhámos!!!!!!!




GANHÁMOS!!!!!!

Tomem lá nuestros hermanos, mania de superiores, bah...

SOMOS OS MAIORES!!!!!! Bora conquistar Castela??

19.6.04

E para acabar por hoje

com música, para não destoar, uma singela homenagem aos 60 anos do Chico...


Meninos, eu vi
Tom Jobim - Chico Buarque/1983
Para o filme Para viver um grande amor, de Miguel Faria Jr.


Um grande amor

Para viver um grande amor

Eu vi o grande amor no claro olhar da minha amada, eu vi
Que todo grande amor ainda é pouco, ainda é nada, eu vi
Amores que jamais verei
Meninos, eu vivi
Vivendo a poesia de verdade

Também vi a cidade incendiada, eu tive medo
Eu vi a escuridão
Eu vi o que não quis
Amei mais do que pude, eu fiquei cego de paixão
E acho que enfim eu vi um homem ser feliz

Juro que um dia eu vi um homem ser feliz

Eu vi o grande amor escancarado em cada cara, eu vi
O amor evaporando pelos céus da Guanabara
Amores de imortal verão
Meninas, como eu vi
Vivendo a poesia de verdade

Eu vi uma cidade enfeitiçada, e tive medo
Eu vi um coração
Molhando o meu país
Amei mais do que pude, eu fiquei cego de paixão
E acho que enfim eu vi o homem ser feliz

Juro que um dia eu vi o homem ser feliz



Sugestão

do Yardbird , este aqui.



Ainda não ouvi, mas faço conta de amanhã procurar.
Alguém tem aquelas cenas de música que se manda por mail??
Podiam enviar-me esta ;-))) que afinal, isto de blogs também deve ser um serviço público e temos que ser uns para os outros, hoje eu amanhã tu, receberás a dobrar aquilo que fizeres (este será assim??...algo parecido) e chavões assim. Du tu é que sabes isto dos ditados...
Vá lá, descosam-se e mandem lá a música ou pensam que isto é só tar aqui pendurados a cuscar sem fazer nada? Como dizia a outra , ou colaboram quando é preciso, ou rua do meu blog!

Ouvir

isto...



...do princípio ao fim. A música, doce, serena, pintou, com um pouco de azul, o céu cinzento de chumbo, abriu finas brechas nas nuvens carregadas de água e filtrou um raio de sol...
A tempestade tinha passado.

Evanescence

no volume máximo para ver se abafa os sons de tempestade dentro de mim.

A manhã

apenas traz a claridade e a brisa fresca.

18.6.04

Perdida

...passos perdidos. Que não têm destino certo. Que a conduzem, sem que da sua vontade isso dependa. Em frente. Sempre em frente.
Na noite, caminha em direcção a nada. Ao vazio escuro que chama por si, como uma força estranha e irresistível. Ao incerto que, no entanto, procura. Encontrá-lo-á?


imagem daqui...

Num raro momento

de sossego, sem pessoas por perto, telefones silenciosos, aproveito para passear por alguns dos meus blogs favoritos (que pena tenho de não ter o dia todo...ficam a faltar tantos!), ao som da Gal Costa no seu último "Todas as coisas...e eu".

Dou-me conta que é preciso tão pouco para disfrutar de uma sensação de bem-estar...uma música suave, letras que despertam emoções por semelhança com momentos reais já vividos um dia, palavras no écran, saídas de corações distantes, de amigos, conhecidos alguns, ainda desconhecidos outros, que existem neste mundo de imagens escritas que partilhamos.
Distantes, mas unidos pelo fio invisível que já descrevi e continuo a sentir.
Obrigado por estarem todos aí.

17.6.04

Já vi que

esta treta não tá aqui para filosofias baratas, a malta não gosta, não comenta, não liga pevas a isto e uma pessoa fica aqui carente a pensar que não gostam de mim e o melhor é pôr isto de molho que é como quem diz, ir a banhos, ou melhor, meter férias.
Férias de trabalho e aturar aqueleschatosdocaraças, férias de blog, férias de gente, férias do mundo e de mim também não fazia mal nenhum.

Mau-humor do caneco, tenho lá pachorra para andar aqui a pedinchar comentários...

16.6.04

Um dia...

O blog da vertigem fez-me lembrar esta história:

Um dia um aprendiz de filósofofo chegou junto do seu velho mestre e perguntou-lhe:
-Mestre, podeis explicar-me o que é a Utopia?
O velho sorriu e apontando para o caminho em sua frente, disse:
-Estás a ver a linha do Horizonte? Caminhemos até ela!

Durante dias e noites, caminharam Mestre e aprendiz lado a lado, tão entretidos e concentrados, que, quem olhasse, não saberia quem ensinava e quem aprendia.
Durante dias e noites, trocaram saberes e idéias, partilharam o que cada um sabia sobre o mundo dos homens e dos deuses, até que o aprendiz, já impaciente e um pouco cansado, disse:
-Mestre...caminhámos durante tantos dias e parece que a linha do horizonte está cada vez mais distante?!
-Sim, é verdade - disse o velho - tal como a Utopia te parece, que quanto mais caminhas para ela, mais longe está!
-Mas...Mestre!? Se é assim...para que serve então a Utopia?

-Para caminhar, meu bom amigo...serve para caminhar!...


Como a acho linda aqui a deixo para vocês, para que continuem a caminhar.

Ah

esqueci-me de pôr a citação da música da Bethânea, que estava a ouvir, em relação ao post de ontem....

Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi...

Finalmente

uma brisa fresca entra pela janela do quarto, movendo com suavidade a cortina.
Não sei se por isso, ou porque Portugal está a ganhar 1-0, sinto-me estranhamente bem.
Não fora ter o jantar por fazer e a máquina da roupa a acabar de lavar( a seguir estender e passar a ferro....sim! que eu não tenho Etelvina! Humpfff ainda te queixas, tu....) e os lanches para preparar para amanhã e 6 livros por ler e uma data de cds por ouvir, quase que me sentiria feliz...assim, acham que há lirismo para escrever posts que aguente? Claro que não, obrigado por concordarem.

15.6.04

Um rio

a correr por dentro.
Água e mais água a procurar um caminho de saída.
Sem conseguir. Correndo o risco de rebentar frágeis diques, construidos ao longo dos tempos, com esforço e determinação.
Mas tão frágeis...areia seca apenas. Dura como uma rocha enquanto a água não lhe chega. Depois de um breve toque, aí vem ela, desmoronando-se num segundo, engrossando a corrente de água. Que não sai...mesmo depois de ter destruido os diques.

Diário de bordo

Continuam 40º.
O Mar está pouco revolto, apesar de agitado.
Ou seja, não tenho tempo para esta treta.
Espera-se cumprir a rota traçada dentro de dois ou três dias.
(se me deixarem)
Até lá, navegamos à toa, ao sabor das ondas.
Mas o moral da tripulação é alto.
Talvez para isso tenham contribuido os pires de caracóis e as imperiais extra.
Um ligeira dor de cabeça também é capaz de se dever ao mesmo, mas adiante...

O Comandante

Entre

A selecção e os écrans gigantes e as imperiais com caracóis a acompanhar e o acto eleitoral e a contagem dos votos e a recontagem que ainda há-de ser, e um calor de 40º, e a leitura e os comentários nos blogs dos amigos, principalmente no da Catarina , que está de regresso a casa, acham que há algum tempo para isto?
Pois.

13.6.04

Há coisas

Que não se explicam.
Sentem-se, pura e simplesmente.
Não, não me estou a referir ao post anterior.
Mas não deixa de ser curioso, reflectirmos sobre elas.
Porque é assim numa circunstância e não noutra?
Porque conseguimos racionalizar tão bem quando explicamos as coisas a outra pessoa, e não percebemos nada quando as queremos explicar a nós próprios?
Há coisas admiráveis no ser humano.
Um estranho processo fisiológico entre o cérebro e o coração, produz reacções químicas no organismo a que se convencionou dar alguns nomes mais líricos.
E o resultado é ficarmos irracionais e, consequentemente, instintivos.
Como que regressando às origens, aos primórdios da Humanidade, em que Homem e outros animais ainda não se distinguiam muito bem. E prevalecia o instinto com alguma esperteza à mistura.
Pouca, admitamos.

12.6.04

Quem foi

Que falou em preferências??....

Esgotou-se-me

a inpiração, vontade, tema, eu sei lá.
Não sei que mais hei-de dizer a não ser alguma coisa dos livros que estou (finalmente!) a ler.
Pareço um balão que tem vindo a perder o ar a pouco e pouco.
Desinchando de palavreado, despalavrando-se (esta é influências do Mia Couto), até ficar nada mais que um resíduo enrugado que se deita fora...
Bem, na verdade, os fins-de-semana também têm pouco que contar...e depois este calor...vou meter-me dentro de água, talvez lá mais para a noite...

Não sei

O que se passa com os comments...
Será que neste funcionam?

11.6.04

"O menino que escrevia versos"

De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(Versos do menino que fazia versos)


Mia Couto, o Fio das Missangas
Contos

O Futuro

Estou novamente numa de mudanças...
Não sei se por estar particularmente consciente, neste momento que corre, de quão efémeros somos todos nós, apetece-me ter a sensação da diferença, de que algo se transformou, de que andei um passo em frente. Ou dois.
Apetece-me mudar as mobílias, as roupas, o blog...isto não é bom...Porque estes impulsos, como diria a minha irmã-gémea , quando nos dão, acabam sempre por destruir algo. Nem que seja um template...
Entretanto, só me martelam na cabeça as palavras de Ary. Ainda e sempre.


Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente


10.6.04

Mais um

político morto.
Um homem sério e honesto.
Convicto dos seus ideais e lutador.
Com quem tive o previlégio de privar em muitas ocasiões.
Nunca desistiu.
Que a sua força continue a inspirar-nos na construção do futuro.

Ary, para o Lino

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e de paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

Vento e mar

Alguém me perguntou de onde tinha eu extraído um post antigo, publicado no newsgroup.
Foi há tanto tempo que não me lembro bem, no meio de todos os livros do Eugénio de Andrade que devorei nessa altura. Hei-de decobrir mas, por agora, quero deixá-lo aqui, neste cantinho que é meu, guardado, à mão de ler, porque adoro este texto.

---
Se o vento vier
Eugénio de Andrade

De repente, sem saber por onde entrara, eu tinha a lua comigo. Não era a primeira vez, não, não era. A primeira vez havia sido há muitos anos: adormecera na eira sobre o feno, e quando acordei a lua estava a meu lado e fizera da noite um interminável e azul lago de prata. Eu flutuava no luar espesso, pesava menos que uma folha de papel. Todo o esforço que fazia era para não me desprender do solo, como se a acção da gravidade não me dissesse respeito, e flutuar no espaço fosse a minha vocação. Se o vento vier, não tenho mais remédio que abandonar-me e ver até onde me levam os seus espíritos.
~~Mar~~

Sei que não vou por aí...

Não ouvi o outro a declamar, mas ouvi esta noite uma amiga a fazê-lo, noutro contexto.
O engraçado é que este "Cântico Negro", sempre me deu coragem para ir por onde queria. De dizer sempre

Não, não vou por aí! Só vou por onde
me levam meus próprios passos...


e recusar os braços estendidos dos que pretenderam que fosse por onde não queria.

Porque

Eu amo o Longe e a Miragem,
amo os abismos, as torrentes, os desertos...
e sonho sempre com o que não tenho e não posso mas quero ter.

E
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um atomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí!


(há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
mas há ainda lampejos de estrelas e sol a brilhar nas ondas do mar.
Enquanto esses não morrerem, sem saber por onde irei, caminharei por aqui e por ali, até chegar onde sonhei.

9.6.04

Chato isto...

A morte parecer-nos sempre injusta.
Mesmo quando acontece longe de nós, com pessoas que não nos dizem nada e por quem não nutrimos simpatia especial.
Mas, ainda assim, é injusto.
Que qualquer pessoa neste mundo, num segundo esteja bem, a conversar e a rir e, no segundo seguinte, deixe de existir, de estar cá, deste lado. Que caia, feche os olhos e não possa mais sorrir, sentir o sol na pele, olhar o mar, passar a mão pelos cabelos de um recém-nascido, cheirar uma flor. É-lhe ali, num segundo, retirado algo que lhe pertence. O bem mais precioso de todos. E isso não se faz.

E os exemplos têm sido muitos, últimamente. Refiro-me aos que nos são transmitidos em directo para dentro de casa. Porque são esses que vemos, e os que sofremos de perto na pele, com alguém que nos é querido, que nos confrontam com a inevitablilidade, a impotência do ser humano, com a sua inteligência apurada e tecnologias de ponta, impotente para fazer face a uma coisa tão simples: um coração que pára de bater, porque uma veia entope ou rebenta sem aviso prévio.

Fora as que não vemos. Que estão a ocorrer mesmo agora, por um míssil que caiu sobre uma aldeia, um tiro certeiro que atinge um soldado, uma avalanche que soterrou uma estância turística, um sismo que destruiu uma cidade de 200 000 habitantes ou a fome que, no Sudão, levou mais umas quantas dezenas de crianças.

Essas que sabemos existirem mas das quais preferimos não nos lembrar. até que nos entram em directo, dentro de casa...

Todas injustas estas mortes. Porque interferiram com um ciclo natural que deveria sempre ser cumprido - nascer, crescer, viver, envelhecer e, por fim, morrer.
Tudo o que se meta entre um ser humano e este ciclo é injusto. É anormal, choca. Dói, muito para além do que seria admissível alguém sentir, se houvesse justiça na vida e na morte.

É por isso que eu não acredito em Deus.

8.6.04

O bom

de a malta andar assim a correr de um lado para o outro, sem ter tempo para nada, desmultiplicando-se em tarefas e conteúdos funcionais específicos e o mais diferentes uns dos outros que se possa imaginar...é que se mantém a linha sem ter que gastar dinheiro em ginásio...

Ah!

E também não quer dar nas vistas.
Isto de se dar nas vistas pode vir a ser problemático, depois os visados podem ficar com algum problema nas vistas e lá vai a malta ter que responder perante a justiça e indemnizações por danos físicos e morais, e uma despesa do caraças, e a gente que até somos pessoas sérias, por aí, nas bocas do mundo e até! quem sabe, no telejornal das 8 na TVI, nã, nã, não queremos nada disso.

Retiros, muita discrição, umas "poisiazitas" de vez em quando, poucos links e se me apetecer dizer palavrões ninguém tem nada com isso!

Btw: Não se preocupem, é só mau-humor passageiro...e tem destinatário!

Btw2: As aspas viram depois, por reparo do meu amigo Oldman, porque me apetece dizer "poisia", porque sim!

Este blog

Não tem ambições literárias.
Não fala de política.
Não é um diário e muito menos é íntimo.
Não é real e não deixa de o ser.
Existe enquanto me apetecer que ele exista.

Todos estes factos podem alterar-se sem aviso prévio, dependendo da mood da criadora.

Afinal, a liberdade associada a estas páginas é para isso mesmo.
Fazermos o que nos der na real gana. Desde que não interfira com ninguém.
Liberdade é isso mesmo, direitos e deveres.
E, quem não gostar, feche a porta, apague a luz, que os tempos são de crise e mude de poiso. Melhor dizendo, desampare-me a loja que eu tenho mais que fazer.

Gosto

de beber água gelada na varanda, enquanto ouço a água da rega automática na relva do jardim.
Ouço e vejo e cheiro a água que molha a terra e a relva e desprende um aroma a fresco, lavado.
Gosto de me sentir assim, dona daquela terra molhada enquanto todos dormem.
E fico ali muito tempo. Às vezes a lua acompanha-me, outras não, está escondida.
E, na relva molhada, uma história à parte desenrola-se sob o nosso olhar, sem que a vejamos. Carreiros de formigas incansáveis, transportando nas costas enormes gotas de água, para não deixar acabar as reservas. E grilos solitários, cantarolando o seu gri-gri à espera que chegue companhia. Aqui não há pirilampos, Catarina, mas há lagartixas pequenas que caçam escondidas pela relva alta, da mesma cor que elas. Sei que não gostas de bichos com patas, mas garanto-te que não recusarias andar descalça sobre a relva fresca e macia, como faço nas noites mais quentes. Esquecendo-me, tantas vezes, que a rega automática tem hora marcada para começar...

Há um candeeiro cuja luz é incerta. Apaga-se de repente e recomeça a acender aos solavancos, como se não tivesse força suficiente para existir.
Um cão aparece, passa sem saber que é observado, para onde irá, será que algo o move ou anda apenas assim, porque tem que andar, por instinto, procurará comida? Ou um afago?
Ao longe, uma janela fecha-se até acima, alguém que gosta de dormir no escuro, eu não, deixo sempre metade da persiana aberta, vejo as luzes da estrada e as sombras da árvore grande a dançar ao vento.
Não me parecem fantasmas, antes uma companhia, partilhando comigo segredos dos ramos mais altos, do pássaro que neles se aconchega para passar a noite.
Acabou-se a água no copo, a rega automática cumpriu o tempo estipulado e parou. O mundo, pelo menos deste lado, prepara-se para dormir e eu também.

Gosto das coisas pequenas da vida.

7.6.04

A propósito

do Mia Couto, lembrei-me de uma história que ele contou, numa das vezes em que tive o previlégio de jantar com ele, antes do colóquio em que ia participar a seguir, e que acabou por contar também no próprio colóquio. Daí que, alguns de vocês até possam já tê-la ouvido, em algum auditório deste país.

Contou-a, naquela voz serena e com subtil sotaque moçambicano (diria antes africano, porque é que ele é antes de mais) que o caracteriza, a propósito de se ter tornado famoso, com a maior das humildades, que também é característica das pessoas famosas quando são grandes de espírito, e com um indisfarçável sentido de humor.
Depois de ter sido questionado por um de nós, sobre este nome que escolheu para assinar os seus livros, riu-se e contou que já lhe trouxe mais dissabores do que agora. No ínício, quando começou a ser traduzido em vários países do mundo e começou a ser convidado para conferências, foi então participar numa Feira de Literatura num país da América do Sul(que não vou divulgar aqui, por razões óbvias....) Ao descer do avião, depois de começar a estranhar não ver ninguém dirigir-se a ele, reparou numa pomposa comitiva de prováveis representantes da organização e inclusive, do Governo, pelas fardas que se observavam em alguns elementos e resolveu tomar a iniciativa de se deslocar até eles para se apresentar.
Perguntou se esperavam escritores convidados e tal e foi olhado com a mais profunda aflição pelos altos dignatários que ali estavam destacados para o efeito.
Quando entrou no carro oficial, que o levou até ao hotel onde iria ficar alojado nesses dois dias, o silêncio era denso, não só devido às diferenças linguísticas, que se superavam através de um inglês mais ou menos macarrónico, sempre que ele, simpáticamente, tentava meter conversa, mas porque pairava no ar uma sensação tremenda de constrangimento que ele não conseguia perceber.
Ao entrar no quarto do hotel que lhe estava destinado, entendeu, finalmente, a razão de tanto sofrimento por parte dos seus acompanhantes...em cima da cama repousava uma enorme caixa atada com um laço de cetim. Lá dentro, um amável bilhete do Chefe do Governo, dizia-lhe que era uma honra receber no seu país a famosa escritora Mia Couto e acompanhava vários presentes: um cesto de fruta tropical e doces, bijuteria local e um vestido típico das mulheres desse país, para usar em situações de cerimónia...

6.6.04

Letras pretas

Acendemos paixões no rastilho do próprio coração. O que amamos é sempre chuva, entre o voo da nuvem e a prisão do charco. Afinal, somos caçadores que a si mesmo se azagaiam. No arremesso certeiro vai sempre um pouco de quem dispara.


Mia Couto, Cada Homem é uma Raça

Esta coisa dos ciclos, da chuva, da água , persegue-me...

Levo um livro

Umas bolachas, águas e, enquanto eles gastam as energias no remodelado parque infantil do Jardim, eu ponho em dia as leituras.
Boa idéia.

Não

Não vou conseguir dormir sem vir aqui.
Seis horas sentada à mesa, diz a Vertigem, mais umas tantas em viagem, a conduzir (quê, p'rái 800 kms ida e volta??), moem o corpinho, mas tinha que vir aqui.
Para dizer, seja por "obrigação", seja por gosto, que gosto muito de vocês. Amigos.
O resto fica para quando estiver inspirada para fazer poesia. Porque só consigo descrever a amizade de forma poética. E o almoço de hoje foi o local de encontro da amizade. Gostei muito.

4.6.04

Depois

Deste etéreo momento poético, tenho a informar que o blog vai fechar temporáriamente, por motivo de viagem de lazer. Não nos responsabilizamos por qualquer comentário produzido duramte esta ausência. Domingo veremos o que irá acontecer, ao abrigo do direito de resposta. Inté. Muitos kisses.

A gerência

Não temos nada

A não ser nós próprios e o nosso olhar.
E mesmo isso é pertença fugaz,
breve como o tempo de uma vida.

Mas fazemos correr rios de lava pelas veias
e soprar ventos em fúria nas faces rubras
de cada vez que os nossos olhos se encontram
mesmo que isso nunca aconteça.

Deu-me

Para o minimalismo, de repente.
Estava farta de ver a foto do Mar incompleta.
Mar que é Mar ou é todo ou mais vale nem ser(isto está bonito, está...)

O post anterior

Deu-me vontade de mostrar algo sobre as palavras



e a terra lavrada...



Tiradas daqui

Há textos

Duma intensidade que talvez só consiga partilhar, quem sente e conhece de perto o significado das palavras que os compõem. Ou porque as sentiu na pele, ou porque conheceu quem o tivesse feito. E as palavras atingem-nos como um murro no estômago.
Este é um deles:

"A terra a quem a trabalha", como uma amora
que rompe o escuro das idéias.(...)
"A terra a quem a trabalha" e nela se depositou
para a vida e para a morte.

A terra aos que nascem sobre a terra, amam sobre a terra
morrem, de borco, sobre a terra lavrada.

Aqui há uma foice que se curva para o trabalho,
um martelo que se alevanta e poisa para o trabalho
num comunismo que começou em Cristo quando ele
entendeu que o pão tinha que ser multiplicado e repartido.

Aqui é Alentejo.
O lugar onde ninguém tem medo das palavras porque
elas correspondem à única maneira de viver a vida
com dignidade - de pé!

Eduardo Olímpio - "Uma porta para o Alentejo"

3.6.04

À falta de

Descobrir no Google os Deuses do Olimpo nas suas tradicionais orgias de comida e bebida e...mais...pois...isso...vocês sabem, o que não é o caso connosco, que somos todos pessoas sérias, e até vamos, alguns de nós, acompanhados dos respectivos consortes e proles, pois tá claro, pensavam o quê?, resta-me dizer que

Let's have

Os grandes momentos

Deixam-nos numa ansiedade, à espera que cheguem e entrem pela nossa vida dentro.
Já só falta um dia.
Será , sem dúvida, um grande momento.
Em que os pt.conversanos se juntarão a uma mesma mesa, saborearão os prazeres de Baco (como raio se chama o deus Grego da comida??) e de...isso..., e conversarão, sem ser virtualmente, por fim, olhos nos olhos.
Será que teremos coragem de repetir, ali, algumas das coisas que temos dito, "farpas" que temos lançado, argumentos mais ou menos sérios que temos esgrimido por escrito, sem nos conhecermos? Parece-me que sim. Mas com risota à mistura.
Nessa altura, associar-se-ão palavras a rostos, vozes a pensamentos e reflexões, risos a "bocas" que, durante estes meses partilhámos na realidade virtual dos monitores.
Mal posso esperar que chegue sábado, amigos!

Voando sobre um ninho de cucos

Quando pisei o último degrau senti-me a dar entrada num universo paralelo.
O ambiente era Kafkiano. As grades nas janelas (cena recorrente esta...) e os escarradores em ferro forjado pintando de branco faziam lembrar exactamente a sala de espera de um manicómio. Para colmatar este efeito (devem eles ter pensado), as flores plásticas em vasos igualmente do mesmo material, estratégicamente dispostas ao lado dos escarradores, davam um ar ligeiramente sujo ao recinto (considerando o pó acumulado...).

Avancei atemorizada até ao balcão de atendimento, dos antigos, comprido, sem vidro higiénico a dividir a sala de espera, das secretárias das funcionárias. Do lado de dentro, três laboriosas servidoras do Estado, desempenhavam as suas funções com afã.

Uma delas nem levantou a cabeça, apesar de eu estar a um escasso meio metro de distância - a largura do balcão que nos separava. Remexia uma espécie de agenda enquanto contava os dias um a um e voltava atrás várias vezes a certificar-se de que não lhe teria escapado nenhum malvado por entre os dedos, que lambia enquanto passava as folhas...As várias tentativas minhas de chamar a atenção da senhora através de uma tosse discreta foram infrutíferas.

A segunda, nem valia a pena contar-se com ela, uma vez que a sua cabeça tinha desaparecido, mergulhada num daqueles arquivadores antigos, de gavetas parecidas com as da morgue, que saem para fora ocupando toda a sala, e onde, pelo esforço, devia procurar um processo desaparecido pois ouviam-se estranhos sons guturais a sair do interior da gaveta.

Por último, a única que, supostamente, estaria a atender, estava às voltas com a inscrição do casal que me precedia.
A funcionária enquadrava-se de tal forma no ambiente que parecia ter estado sempre ali: carrapito no alto da cabeça, ligeiramente desgrenhado (certamente devido ao esforço mental que parecia estar a fazer...), óculos redondos a escorregar pelo nariz fino e suado, e, pormenor intrigante, esferográfica atrás da orelha...

Esperei pacientemente!que a senhora preenchesse com letra de escola os inúmeros impressos necessários ao efeito pretendido. Um papel maior, tamanho A4, onde escreveu todos os dados pessoais do senhor que inquiria, um cartão tipo de boas-festas onde tornou a preencher o nome, idade e maleitas do senhor e um livro de recibos, onde, escrevendo novamente o nome, número de beneficiário não sei do quê e o valor de um euro e setenta cêntimos, em duplicado, atingiu finalmente o término do processo, arrancando com euforia (pareceu-me...) pelo picotado, a parte do recibo que entregou ao senhor, indicando-lhe que "agora é só esperar". E, pergunto eu, o que tinha sido antes??

Chega a minha vez e, enquanto todo o processo se repetiu comigo, divaguei num sonho semi-acordado onde me via a varrer aquelas pilhas de impressos de cima das secretárias e a colocar, num passe de mágica, computadores ultra-modernos, onde inserindo um cartão, o meu caso clínico apareceria de imediato, descrito pormenorizadamente desde o nascimento e seria só introduzir a data e o motivo daquela consulta.
Enquanto sonhava, a senhora, perguntava-me pela terceira vez o nome, até que, finalmente, com uma cara que parecia anunciar o Fim da Humanidade, me retorquiu que "mas aqui está R."!
Eu, delicadamente, expliquei que R. era o antigo apelido de casada, que já não possuía, pelo que o nome que eu já por três vezes lhe tinha repetido era, na verdade, C.
O olhar fulminante, ter-me-ia derretido, caso fosse uma máquina de laser, "mas agora tenho que apagar...", e eu, sorriso radioso, "pois."
Isto implicou um atraso de mais uns 25 minutos em todo o sistema visto que, um objecto chamado corrector também não existia no local e a senhora optou por preencher, de novo, todas as fichas.

Atrás de mim já se tinha juntado um amontoado considerável de utentes que bufavam, arrastavam os pés e produziam mais uma enorme variedade de ruídos, sem que isso incomodasse, qualquer uma das três funcionárias que, entretanto, continuavam imersas nas suas tarefas e reflexões, já descritas no início desta história (verídica!).

Quando, por fim, a senhora me atira o "agora é só esperar" e eu, suspirando de alívio, ocupo uma das cadeiras vagas, descubro que a única coisa que faltava para completar o cenário seria uma vizinha idosa que, efectivamente, apareceu depois, queixando-se dos pés e da crise em geral, esperando da minha parte a tradicional resposta de circunstância. Não a obtendo, ainda fez uma tentativa de perguntar em que número ia, mas ganhou as mesmas pois indiquei-lhe o balcão, dizendo que não fazia a menor idéia. A minha simpatia natural, em situações destas, sofre um processo estranho de transformação num sentimento de ódio visceral em relação ao meio envolvente, pelo que, é melhor não me dirigirem a palavra...

Cerca de duas horas e meia depois de ter entrado naquele antro, como que em câmara lenta, ouço o meu nome, através do altifalante fanhoso e dirigo-me, finalmente, à sala onde vou fazer o RX, como se desse entrada nos portões escancarados do Paraíso...


Btw: Antes que comecem a conjecturar, é apenas um check up de rotina...






2.6.04

Manhã (submersa?)

O dia começava a levantar-se, preguiçoso, através de brumas cinzentas que se desfaziam aos poucos, à medida que raios avermelhados as trespassavam.
Prenúncio de canícula, esta cor a subir no horizonte. O dia iria ser quente.

Ela afastou os lençóis, quentes e perfumados pelo seu corpo e, como de costume, abriu a janela de par em par.
O ar ainda era fresco, recém-lavado pela noite que agora se afastava.
Inspirou fundo enquanto fazia o gesto característico de sacudir os cabelos alaranjados.
Ficou ali por um tempo, o olhar perdido no fundo da planície, a ver a manhã nascer.
Sabia-lhe bem o silêncio. Parecia que a vida estava suspensa, ainda adormecida. Menos os pássaros. Esses, andavam numa dança enlouquecida, na celebração do novo dia, um ritual de voos e trinados que só eles entendiam. E ela. Há já muito tempo que os pássaros faziam parte das suas manhãs. Ela e eles em comunhão como se o mundo lhes pertencesse, naqueles breves minutos que antecedem o bulício de janelas a abrir, carros a passar e pessoas a sair apressadas dos prédios, em direcção a parte incerta. Desejou ser pássaro, para poder, também ela, voar para longe do ruído, do fumo dos carros, das conversas apressadas. Para ser livre. E pousar nos ramos da árvore que escolhesse. E lavar-se nos beirais, molhados da geada nocturna. E fugir, fugir...

Foi aí que o cheiro a café a trouxe de volta à realidade. Vestiu-se devagar, depois de um banho rápido e esperou a batida na porta.
Como em todos os dias desses últimos anos, a enfermeira de serviço entrou trazendo a bandeja com os medicamentos e saúdou-a com um sorriso:
-Então, sempre a primeira acordar como é hábito. Vamos lá ver como está hoje essa tensão...
Por entre as grades da janela do sanatório os pássaros começavam a afastar-se...até ao dia seguinte.


1.6.04

Eu juro

Que sou meio desligada destas coisas assim de tralha que se mete aqui nos blogs porque até é fixe saber quantos caramelos se deram ao trabalho de passar aqui por dia e assim.
Juro mesmo. Aliás, nem percebo muito bem quando os meus amigos dizem que apanharam um ou outro lá caídos porque procuravam palavras como s***, c*****o, gajas a f**** gajos e coisas destas. Garanto que não sei como diabo se vê isso!
Também, não se ponham pr'aí no gozo porque eu não estou a passar nenhum atestado de estupidez a mim própria, que até sou uma "mecinha" inteligente. Passa-se apenas que estas coisas de net ainda são um bocado inexploradas e não tenho tempo de estudar os manuais.
Vai daí, não sei como raio aquele coiso do sitemeter serve para alguma coisa, mais do que ver quantos passaram por cá, porque de resto aquilo dos números, ou IPs ou lá o que é não me diz nada, capisce? Vou lá agora saber se o 234 551 67# é da Guarda ou de Freixo-de-Espada-à-Cinta? Sei lá! Mas como é que vocês sabem isso?? Não podem ensinar-me?

Bem, o que eu queria mesmo dizer, é que não ligo muito áquilo e só hoje, depois de vários dias ou mesmo semanas, vou lá ao technorati que tenho ali para baixo e nem me lembro e descubro!
Tenho gente a linkar este Espelho, sem me ter dado conta! Pensei que isto fosse uma coisa assim só de amigos e tal, para dar alguma força, coitada, a tipa meteu-se nisto por nossa culpa e assim...vamos lá levantar-lhe o moral e dar uns palpites ali nos comments, mas não! Há gente que eu não conheço a linkar este blog!
Ainda estou é para descobrir porquê...
Seja como fôr, muito, muito obrigado a vocês, "linkadores" anónimos (uns mais outros menos, é claro), que descobri hoje, (será por ser Dia Mundial da Criança? Nááá...) e prometo que assim que tiver tempo vou actualizar ali a minha listinha, olá se vou!
Beijinhos a todos (esta foi mesmo à Lili...)

O dia de todos os meninos de todas as cores

Este é talvez o único dos "dias de" com o qual eu não embirro.
E depois de ler o post da minha amiga Vertigem sobre o que alguém como nós pode fazer para mudar a vida de uma criança (sem ser necessáriamente neste dia de...), apeteceu-me ir para o jardim, saltar, pular nos insufláveis, comer algodão doce, pintar uma borboleta no rosto, e, regressar mais logo, cansada mas feliz, cheia de prendas pequeninas mas que para mim foram tão importantes e, atado no braço para não fugir, trazer um balão colorido.
(dedicado a todos os meninos que, hoje, brincaram no jardim da minha cidade e, neste dia, foram iguais)