9.6.04

Chato isto...

A morte parecer-nos sempre injusta.
Mesmo quando acontece longe de nós, com pessoas que não nos dizem nada e por quem não nutrimos simpatia especial.
Mas, ainda assim, é injusto.
Que qualquer pessoa neste mundo, num segundo esteja bem, a conversar e a rir e, no segundo seguinte, deixe de existir, de estar cá, deste lado. Que caia, feche os olhos e não possa mais sorrir, sentir o sol na pele, olhar o mar, passar a mão pelos cabelos de um recém-nascido, cheirar uma flor. É-lhe ali, num segundo, retirado algo que lhe pertence. O bem mais precioso de todos. E isso não se faz.

E os exemplos têm sido muitos, últimamente. Refiro-me aos que nos são transmitidos em directo para dentro de casa. Porque são esses que vemos, e os que sofremos de perto na pele, com alguém que nos é querido, que nos confrontam com a inevitablilidade, a impotência do ser humano, com a sua inteligência apurada e tecnologias de ponta, impotente para fazer face a uma coisa tão simples: um coração que pára de bater, porque uma veia entope ou rebenta sem aviso prévio.

Fora as que não vemos. Que estão a ocorrer mesmo agora, por um míssil que caiu sobre uma aldeia, um tiro certeiro que atinge um soldado, uma avalanche que soterrou uma estância turística, um sismo que destruiu uma cidade de 200 000 habitantes ou a fome que, no Sudão, levou mais umas quantas dezenas de crianças.

Essas que sabemos existirem mas das quais preferimos não nos lembrar. até que nos entram em directo, dentro de casa...

Todas injustas estas mortes. Porque interferiram com um ciclo natural que deveria sempre ser cumprido - nascer, crescer, viver, envelhecer e, por fim, morrer.
Tudo o que se meta entre um ser humano e este ciclo é injusto. É anormal, choca. Dói, muito para além do que seria admissível alguém sentir, se houvesse justiça na vida e na morte.

É por isso que eu não acredito em Deus.

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