8.6.04

Gosto

de beber água gelada na varanda, enquanto ouço a água da rega automática na relva do jardim.
Ouço e vejo e cheiro a água que molha a terra e a relva e desprende um aroma a fresco, lavado.
Gosto de me sentir assim, dona daquela terra molhada enquanto todos dormem.
E fico ali muito tempo. Às vezes a lua acompanha-me, outras não, está escondida.
E, na relva molhada, uma história à parte desenrola-se sob o nosso olhar, sem que a vejamos. Carreiros de formigas incansáveis, transportando nas costas enormes gotas de água, para não deixar acabar as reservas. E grilos solitários, cantarolando o seu gri-gri à espera que chegue companhia. Aqui não há pirilampos, Catarina, mas há lagartixas pequenas que caçam escondidas pela relva alta, da mesma cor que elas. Sei que não gostas de bichos com patas, mas garanto-te que não recusarias andar descalça sobre a relva fresca e macia, como faço nas noites mais quentes. Esquecendo-me, tantas vezes, que a rega automática tem hora marcada para começar...

Há um candeeiro cuja luz é incerta. Apaga-se de repente e recomeça a acender aos solavancos, como se não tivesse força suficiente para existir.
Um cão aparece, passa sem saber que é observado, para onde irá, será que algo o move ou anda apenas assim, porque tem que andar, por instinto, procurará comida? Ou um afago?
Ao longe, uma janela fecha-se até acima, alguém que gosta de dormir no escuro, eu não, deixo sempre metade da persiana aberta, vejo as luzes da estrada e as sombras da árvore grande a dançar ao vento.
Não me parecem fantasmas, antes uma companhia, partilhando comigo segredos dos ramos mais altos, do pássaro que neles se aconchega para passar a noite.
Acabou-se a água no copo, a rega automática cumpriu o tempo estipulado e parou. O mundo, pelo menos deste lado, prepara-se para dormir e eu também.

Gosto das coisas pequenas da vida.

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