30.3.05

Um nome

Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti,
mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber.
Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos.
Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui.
Pertencia a outra paixão, e já a esqueci.
Dá-me tu um nome para eu poder ficar contigo...


Al Berto

para que conste:

Apetece-me ir às compras!
As montras estão cheias de cores! Pode lá alguém resistir a malas, sapatos, t-shirts, em todas as cores do arco-íris, ainda por cima num dia de Primavera como o de hoje?

(sim, digo isto com um estranho sentimento de culpa. Não choveu, devia ter chovido... Será que a Primavera nunca mais vai ter o doce sabor do renascimento que antes tinha? Chateia-me isto de qualquer dia não podermos usufruir de nada em pleno, porque sobre as nossas cabeças paira irremediávelmente a ameaça de extinção a médio prazo...caneco!)

E apetece-me ir às compras, pronto!

29.3.05

Não consigo

perceber muito mais da letra, e nem sequer ela diz muito mais que isto.
Mas isto, para mim, é lapidar e define muito do que sou neste momento.

I'm sorry but I can't hold on
It works much better
If I let it
Drag me around

28.3.05

Despedidas

Fiquei muito tempo a olhar a noite na janela das traseiras.
A que dá para um parque infantil cheio de risos de crianças e uma esplanada com ruídos de chávenas à mistura com conversas. Que agora não se ouvem porque é de noite e o silêncio cobre os lugares como um manto sereno. Tal como a chuva, fina, que molha as pedras de calçada, os baloiços, as tábuas da esplanada.
Concentro-me nos pingos de chuva para rever o tempo em que a linguagem era apenas a dos gestos e do olhar. O tempo das promessas nunca ditas, da esplanada deserta num fim de tarde de verão. O tempo de chegar e sorrir. Apenas.
Reconheço-me nos locais por onde passei, na cadeira onde me sentei, no jornal que li. No cheiro de relva molhada e no halo leve de perfume que agora sinto quando movo o cabelo e que tocou quem comigo partilhou esses lugares. Pergunto-me se o terão sentido...ou se terá passado ao lado, como tantas outras coisas. Detalhes. Pequenos. Demasiado pequenos e, por isso, tão preciosos.
Concentro-me num pingo de chuva como se fosse um diamante, puro, na palma da minha mão.
Devagar, com a ponta da língua, lambi essa breve gota de água, como se fosse esse o beijo que nunca te dei.

26.3.05

Utilizações possíveis a dar a um homem

Não me lembrando, assim de repente, de mais nenhuma, ocorreu-me ao olhar para a extraordinária acumulação de terra, papéis e outra enorme variedade de detritos pelos tapetes do meu carro, que, há determinadas utilizações, para as quais um homem faz muita falta.
Esta constatação advém, apenas e exclusivamente, do meu visceral ódio à tarefa de limpar carros que, ao longo dos anos e graças à liberdade financeira que resulta do facto de ser uma gaja emancipada, tenho delegado alegremente nos profissionais da coisa, ou seja, homens, funcionários de bombas de gasolina ou oficinas onde a coisa se processa, a pagantes.
Mas é em dias como o de hoje - o carro nojento e fechados os locais onde o poderia mandar limpar - que me ocorre que ter uma vítima voluntária para fazer esse servicinho sujo e, pasme-se, ainda por cima gostar!, é uma enorme mais valia. É que, se há coisas que são absolutamente do domínio masculino, pela parte que me toca, lavar carros é uma delas. É um pouco aquela coisa da competição, assim tipo o meu é mais...er...pois... limpo...é isso, que o teu, tão típica do macho que se preza.
E nem vale a pena viram com conversinhas de que, atão, afinal, e a igualdade e cenas dessas, e gajas armadas em boas e independentes e tal e depois é o que se vê, nem mudar um pneu sabem (tema a desenvolver futuramente, noutro post sujeito ao mesmo título, parte 2), que não me convencem.
Aliás, responder-vos-ei, desafiando-os a dizer quantos de vocês, homens, se visualizam de esfregão em punho e ajoelhados no chão a lavar uma sanita? Ah, pois é!

Ai, estou tão preocupada, Meu Deus, será que vou ser apelidada de machista por causa deste post?

25.3.05

Há uns dias

comprei o Blitz, Deus do céu, há que anos que eu não comprava o Blitz!, porque trazia com ele, a propósito dos 20 anos de carreira dos Rádio Macau, o CD e o Livro Pirata.
O livro contém 17 histórias inéditas, escritas por amigos que eles convidaram para recriar o universo musical em que se moveram nestes anos, inspiradas nas letras das canções. O CD faz parte do espólio deles e foi gravado ao vivo nos anos 80, editado em edição de autor, na altura, em pequena tiragem. Que esgotou.
Já aqui falei do meu contacto com os Rádio Macau, na altura em que tive a sorte de morarmos próximo, de os conhecer e de os acompanhar de perto por uns tempos, pelo Rock Rendez Vous, pelos concertos que iam dando, putos de 18, 19 anos a sonhar com a fama que havia de vir.
Hoje, ouvindo este CD em repeat mode no rádio do carro, a voz da Xana soa-me como quando pintávamos casinhas de barro para vender nos mercados, ou ela se lembrava de mudar móveis antigos para libertar um quarto que serviria...já não me lembro para quê, como se os risos das noites em claro, na vivenda do Algueirão me ecoassem agora mesmo nos ouvidos, como se a amizade não tivesse agora 20 anos de distância.

A voz límpida da Xana desses tempos e o som puro, experimental, deste Cd, lembram-me que já tive 18 anos.


xana Posted by Hello
(concerto em Beja, em Abril de 2004)

24.3.05

Projectamos

nos nossos filhos, os sonhos que tivémos em tempos para nós, as paixões por cumprir, o que mais desejámos e nunca chegámos a ter, num tempo longínquo, num tempo em que fomos da idade deles, frágeis e indefesos como eles e em que alguém, por sua vez, nessa altura, projectava em nós as suas próprias paixões nunca alcançadas...
O mais engraçado é quando eles, os nossos meninos, revelam ter, como nós, o mesmo brilho no olhar quando um sonho que foi nosso, de apenas projecção passa a real, como se dentro das veias lhes corresse, não apenas o mesmo sangue, mas dentro deste o bichinho, o gostinho especial, a paixão pelas mesmas coisas que nós.

Nunca pude comprar uns patins de bota. Há 30 anos, os pais das meninas como eu não tinham condições para realizar um sonho desta envergadura. Aprendi a patinar e evoluí ao longo de alguns anos, com uns patins de correias que se atavam por cima dos ténis. E adorava. Depois, quando já não era possível evoluir mais naqueles, era necessário passar para os de bota, desisti.

A paixão pela patinagem, que brilha no olhar da Violeta desde que, há uns meses a descobriu, é igual à que eu tinha há 30 anos. Felizmente que ela tem a sorte que eu não tive.
Esta noite dorme com eles.


patins Posted by Hello

23.3.05

O tempo de colher malmequeres

O dia 21 de Novembro de 2001 teve uma noite especial. Não direi mágica porque a palavra está gasta. Mas havia uma conjunção dos astros. Uma conspiração para que a poesia, o amor e a amizade viessem em visitação.
E eles apareceram nos rostos, nos olhares, nos sorrisos, nas palavras com que todos escrevemos essa noite. A noite em que a poesia nos visitou e uniu o desavindo e iluminou o escuro e coloriu a noite.
Hoje, não olhei os astros, mas acredito que haverá uma conjunção tão favorável quanto a que houve nessa noite. Acredito, porque as palavras, certas palavras, têm o dom de influenciar os astros. E hoje, nesta noite, mais uma vez, as palavras irão, não direi incendiá-la, mas iluminá-la,com a luz da poesia.


Foi assim que o Director da Biblioteca Municipal iniciou a de apresentação do livro do Pedra, Sol Incendiado.
Foi assim que nos fez iluminar os olhos, a nós, que vivemos esta e também a noite de 21 de Novembro de 2001.
Noites de emoções, de amizade, de memórias e histórias. De cumplicidades forjadas no que a vida tem de melhor, como sempre diz o Pedra.

As nossas vidas fazem-se de momentos e de emoções. Aquilo que melhor recordamos, que nos acaricia o coração e aquece a alma, está sempre relacionado com emoção, com afectos. Sejam eles os que nos dão ou os que queríamos que nos dessem e não conseguimos, ou que oferecemos e não souberam aceitar... Na minha vida têm existido todos os tipos, em profusão suficiente para que me possa considerar uma pessoa de sorte. Por ter tido o previlégio de sentir. É sempre preferível ser assim, do que passar pela vida cómodamente instalados, numa normalidade que não nos preenche ou faz vibrar.
É por tudo isto que, o poema lido ontem, pelo poeta Mário Máximo, o poema que o Pedra me deixou há uns anos em cima da secretária, depois de uma noite de cumplicidades e de sonhos meus por cumprir e de desabafos inflamados no seu ombro, o poema da esperança, que só um verdadeiro amigo nos sabe transmitir, me encheu os olhos de mar. E continua a acompanhar-me por todo o lado, escrito em caderninhos de notas, para não me deixar esquecer que:

Um dia destes
o sopro brando do tempo,
do tempo de colher malmequeres,
há-de vir do lado do paraíso
claro, decisivo, sem tu saberes
até ao hino do teu sorriso

Sou, sem dúvida, uma pessoa melhor, mais rica, por ter sido tocada pela graça da sua amizade :-)

21.3.05

As mantas

Juro que não queria escrever para aqui nenhuma treta a dizer que gostei muito de vocês e xau (não é silvestre).
Mas o pior é que quando penso no que começar a dizer, enquanto olho para as teclas, não me sai nada. Apenas que gostei muito de vocês.
Depois começo de novo.
E lembro-me do tripeiro mais maluco que alguma vez na vida eu conheci, o gajo que consegue dizer as piadas mais inteligentes e hilariantes, ao mesmo tempo que não perde o ar de que "tou-me cagando para tudo" e que (se) revela que no fundo não é nada disso quando faz festas numa gata com ar protector. Só assim podia ter a seu lado alguém tão doce como a sua M. ;-)
E vejo uma gaija de cabelo vermelho, estrondosa, lindíssima, que escreve bem como tudo e solta as gargalhadas mais deliciosas e até sabe como se chama o cesto que está em cima do mastro do navio. E, no meio da confusão está o Fred da voz tranquila, que diz sempre qualquer coisa certíssima mas apenas no momento certo, quando ninguém espera que ele fale, e que é o único que permanece impávido com o seu ar sereno, enquanto o outro maluco tenta avacalhar a conversa.
E ouço a Zu com as suas tiradas lapidares e oportunas, a mãe da Miosótis de olhos lindos, e olho para o banco do lado no carro e vejo a Vague, firme e convicta no falar talqualzinho o faz nos seus comentários-post e que transpira força mesmo quando se afirma frágil.

Não deu para ninguém falar muito tempo individualmente, o espírito era mesmo o de grupo, há-de ter que haver muitos mais encontros para que possamos ficar a conhecer melhor e mais de cada um de nós, do que já conhecemos aqui nestas caixinhas. Mas foi bom falar com o PN e confirmar que a (pouca) idade não é impedimento para uma cabeça cheia de coisas no devido lugar. E com a Mi e perceber que as reticências morreram de imediato com o ataque de empatia aguda que nos vitimou a ambas (e com o Descompensado práticamente não falei mas só ele ser o parceiro da Mi, para mim, chega). E quanto ao pedra, aquilo que nos liga é muito mais do que aqui poderia dizer por palavras. É por isso que lhe deixo apenas um sorriso e o orgulho de o ter como amigo há 8 anos e como modelo desde toda a minha vida ;-). A Maria e o Pedro chegaram depois mas o almoço regado a Herdade Grande e a conversa adulta, interessantíssima, foi o fio que passou a ligar-nos a partir dali. (e esses links?)
A maior surpresa foi o "puto", o J, que, apesar das poucas palavras, transmitiu simpatia com o seu ar calmo e a forma como nos rimos de uma gaffe a seu respeito fez o resto.
Deixei para o final o meu sócio porque não sei o que dizer dele. O que se poderá dizer de alguém com quem conversámos com tanta facilidade como se o tivéssemos feito durante a vida toda? Que nos aparou as falhas e hesitações durante esta parceria, que esteve sempre lá, na hora certa? Que nos elogiou mesmo enquanto sabíamos que o que merecíamos era umas palmadas? Que soube transmitir a força com um olhar, que foi, afinal, o grande responsável por tudo isto que se passou, por nos ter juntado a nós, todos os outros em torno dele, primeiro numa caixa de comentários, depois ali.
Que dizer? Apenas que é uma pessoa bonita.

Não tenho a mínima dúvida de que tivémos a extraordinária sorte ou habilidade, de conseguir juntar um leque de pessoas boas, cada uma especial à sua maneira.
E que conhecer-vos me enriqueceu extraordináriamente.
Um enorme beijo a todos vós.

(a quem possa interessar - este post é assumidamente lamechas e não almeja ter qualidade literária)



Todos os grandes momentos têm uma banda sonora inesquecível...neste, esta música ficou-me tatuada na pele.
(graças ao João Pedro, esse manancial ruinoso de conhecimentos musicais - e não só. Obrigado, puto!)

20.3.05

É só

para ficarem a saber que eu ainda não vim cá.

(querem o quê, recolher às 5 da matina já não são horas para uma cota como eu...)

18.3.05

Sinais de Pontuação

Ponto



final.



Parágrafo,



travessão.

17.3.05

Há em mim

uma espécie de estranheza, nestes dias.
Sem tempo quase nenhum para "extras", nos quais se inclui a net, com dias cheios de trabalho e obrigações familiares, tenho andado arredada de blogues, quase sem dar conta do tempo passar, tal o ritmo alucinado dos dias.
Mas no meio dos compromissos, das conversas, reuniões, telefonemas, compras, salas de espera, sinais vermelhos, há algo de estranho a pairar, um sentimento de faltar algo, uma peça qualquer indefinida, para encaixar algures. Depois, vem a confirmação, inesperada, por vezes em alturas improváveis, um reflexo quase inconsciente, "o que é que o X terá escrito hoje?", "será que a Y já se decidiu?", enquanto se responde com ar neutro para o outro lado, "concerteza senhor engenheiro", "não se preocupe doutora, assim que tiver a resposta envio-lhe as indicações", "ora essa" "obrigado" "faz favor" e por aí fora e em paralelo a este mundo real em que nos movemos, está a lembrança do outro, o virtual, a que também pertencemos e que partilhamos com gente diferente da que temos ali á nossa frente ou do outro lado do telefone. Engraçado, isto. Acho que não se despe esta pele. A de blogger. Falando com um amigo sobre o encontro das mantas perguntava-me ele, recém-viciado na blogosfera, "mas vocês conhecem-se?", estranhando a forma como eu falava de vocês, que estão aí desse lado, a intimidade de quem parece ser amigo há anos, o inusitado de irmos encontrar-nos para jantar, como fazem os amigos que combinam uma patuscada ao fim-de-semana. Respondi-lhe que não. Não nos conhecemos visualmente, falamos por mail, alguns de nos, agora mais assíduamente, desde que se tornou necessário acertar os detalhes para que nada falhe no encontro - esse sim - ao vivo e a cores, destes 10 ou 15 "caramelos" que se habituaram a fazer parte da vida uns dos outros, dentro de um quadradinho branco onde se expõem, se desvendam mais ou menos, onde se têm aprendido a conhecer entre si, a confiar (é preciso uma boa dose de confiança) que é verdade o que cada um mostra e que decidiram que estava na hora, enfim, de se olharem de frente e continuar a conversa à roda de um lume e de um petisco.
Decididamente, não deve ser fácil de entender, para quem não ande por aqui.
E, no fundo, é tão simples como termos sido apresentados uns aos outros por algum amigo comum, no meio de um encontro de trabalho, num café, na esplanada da praia e termos passado umas horas a conversar. É assim que começam as amizades.
A nossa, começou apenas ao contrário.

14.3.05

Glup...

...aqui pensando se não me terei excedido um bocadinho (é preciso lata), na história ali de baixo e se alguém se dará ao trabalho de ler um lençol daquele tamanho...mas concluindo que não quero saber, tinha era que desabafar para algum lado, não?

Quando

as máquinas se unem para nos f**** o juízo.
Ou de como uma simples ida às compras se transforma num pesadelo...

Chega uma gaja, no fim de um exaustivo dia de trabalho, àquela hora do dia em que tem que assumir o papel de extremosa mãe-de-família e dona-de-casa exemplar (cof, cof...), e, depois de estacionar o carro numa manobra digna do mais hábil condutor de ralis, entre dois gajos que devem ter tirado a carta na farinha amparo, caneco, que não sabem estacionar uma merda de um carro sem ser em cima da linha branca e todos torcidos benza-os Deus, adiante, depois de estacionar sem fazer sequer um risquinho nos outros filhos-da-mãe que bem o mereciam, lembra-se, de repente com um sopapo na própria cara, que o f da p do cartão multibanco não funciona nas caixas dos supermercados nem de lojas de espécie alguma, mas apenas, o excelentíssimo, nas caixas multibanco própriamente ditas, para levantar dinheiro.
Praguejando que assim mais vale não ter merda de cartão nenhum e qualquer dia guardo mas é o dinheiro debaixo do colchão p que pariu estas modernices, torno a ligar o carro e a fazer a mesma manobra arriscada, desta vez no sentido inverso, enquanto penso que vou ali à caixa multibanco ao pé da rotunda do pastor (uma estátua, para quem não conhece), que, assim como assim é mesmo aqui ao pé...estava-se mesmo a ver...chego, depois de 2 minutos ao referido local, saio do carro, exclamo mentalmente "Yesss" quando vi que a caixa estava a funcionar, tento introduzir o cartão e...nada. Nada. Não entrava de maneira nenhuma, a caixa aparentemente normal mas a maldita ranhura bloqueada com qualquer coisa e nada. Toca de meter de novo no carro já semi-furiosa, e pensar que ali a caixa da Rodoviária também não é assim tão longe, já agora, tenho mesmo que levantar dinheiro.
No local em questão, depois de duas voltas à rotunda porque não havia lugar nenhum à vista, lá consigo enfiar o carro entre uma árvore e um poste de iluminação, não sem antes ter que subir o passeio à má fila com os consequentos danos nas jantes de liga leve...bem, não há-de ser nada de relevante, chego à caixa multibanco e, claro, não tinha dinheiro! Nesta altura já todo o léxico do calão português mais hardcore saía dos meus puros e castos lábios enquanto lá tirei a custo o carro do sítio pouco aconselhável onde o tinha conseguido meter, pressuposto este que vim a confirmar quando, para o tirar obriguei a parar todo o trânsito que vinha a entrar na rotunda...o que vale é que eram todos uns gentleman e nem apitaram nem nada, nem mesmo quando lhes passei à frente, com uma espécie de inversão de marcha pouco consentânea com as regras do Código da Estrada (acho que as gajas é que deviam fazer essas regras, de certeza que se tornava tudo muito mais fácil, mas enfim...).
Deitando fumo de raiva, depois de mais de meia hora perdida nestes preparos, lá fui ver a caixa mais próxima (nesta altura já bem distante do local inicial das compras), prometendo mentalmente que, se a mesma não estivesse a funcionar algo de terrível lhe aconteceria...
Antes que o pudesse comprovar, mal acabo de estacionar, sou surpreendida por dois conhecidos que me abrem a porta do carro, fazendo-me dar um salto de susto enquanto se riam que nem perdidos, aos quais resmunguei entredentes que não tinha achado graça nenhuma, e virei costas deixando-os a olhar para mim com cara de quem nunca mais me vai tornar a cumprimentar. Sorte a deles...
Lá levantei o dinheiro e, antes que fosse caçada por mais algum inoportuno, dirigi-me como um foguete para o carro que... tinha outro a parar atrás, nesse preciso momento, travando-me a saída! Gesticulando (imagino com que cara...) ao prevaricador que se chegasse atrás para eu tirar o meu, reparo que - mais uma vez - era um senhor conhecido que, oh deuses, tirem-me deste filme!, resolve abrir a janela e parar para me cumprimentar. Dez longos minutos depois, lá consigo enfiar-me no carro a acelerar dali para fora com um esclarecedor guinchar de pneus...
No caminho de volta, ainda apanhei uma alimária que, estacionado no semáforo, fazendo pisca para a direita, me incitava, cortêsmente, com o braço fora da janela, a ultrapassá-lo, coisa que levaria a que eu ficasse, enquanto não caía o verde, em segunda fila, parada, a cortar o caminho dos carros que vinham em sentido contrário, nem posso acreditar que estas aventesmas andam ao volante...depois de lhe apontar frenéticamente o sinal vermelho para que o anormal percebesse que eu tinha que esperar, resolve, contra tudo o que era suposto, dar pisca para a esquerda e colocar-se atravessado à minha frente à espera que o sinal abrisse para arrancar depois, fazendo gestos pouco simpáticos. Claro que tive que lhe espetar com a buzina nos c****s, ouvidos, quer dizer, durante o tempo em que o segui antes que ele mudasse de direcção...Já ao anoitecer, depois desta fantástica odisséia chego finalmente ao supermercado e estaciono o carro no mesmo sítio do início da história (não percebo bem porque é que ninguém aproveitou aquele lugar...).
Posso então entrar para fazer as minhas compras, afivelando a cara de senhora respeitável que sou, ah podem crer que sou! (olhando para todas as outras "senhoras respeitáveis" que faziam compras, ainda me interroguei se lhes acontecerá o tipo de coisas que me acontecem a mim...)(e, já agora, se saberão o que é um blogue?)

13.3.05

Fui

só ali ao outro lado,



àquele que agora está de noite, dar uma voltinha, para ver se espaireço as idéias.
Não demoro.

12.3.05

Teria

sido tudo tão simples. Pelo menos é o que eu penso e o que a estúpida intuição me sussurra ao ouvido, a sádica.
Estou cansada. Sabes? A incerteza cansa, o quase não preenche, magoam as perguntas deixadas sem resposta, cansa o desmontar do castelo, pedra por pedra, devagar, hoje tiro uma ameia, amanhã é a torre que desaparece, o balcão de onde te mirava ao longe cai com estrondo no chão, até chegar por fim à ponte, a ponte de madeira que une o castelo à vida real e que desmonto cuidadosamente, guardando as tábuas para que não apodreçam e não invalidem a sua futura montagem depois, num outro cenário qualquer. Tudo isto cansa.
Construir as coisas que queremos é um trabalho leve, que se faz sem sentir, de sorriso nos olhos e força no coração. Depois só temos que morar lá dentro, dentro do sonho que tecemos fio a fio, dentro do castelo que montámos aos poucos sobre nuvens claras, no meio de um céu cheio de estrelas. Mas depois nenhuma das chaves abre os portões da entrada. No início ainda tentamos, experimentamos várias vezes, deixa cá voltar para este lado, agora para o outro, não é esta vamos ver a próxima, se calhar até temos que mandar fazer uma por medida, não se desiste, esta também não deu, mas acreditamos que há-de haver um dia em que o ruído de abrir a fechadura se ouve e eis que as portas se abrem, de par em par, e o mundo do castelo encantado se estende, ali, perante os nossos olhos maravilhados, as flores raras que plantámos, o prado verde cheio de pequenos animais mágicos das cores do arco-íris, a árvore dos desejos, o unicórnio azul.
E enquanto acreditamos vamos tentando.

Tentamos, não se sabe durante quanto tempo e depois, vem um dia em que a verdade surge clara, à nossa frente: a chave não existe, a fechadura não tem forma de abrir, foi defeito no fabrico e não há mais nada a fazer a não ser desmanchá-la. E aí começa o trabalho duro. Desmontar cada peça, num trabalho solitário de memórias e nostalgia, reconheço esta aqui, aquela outra sei o dia exacto em que a coloquei, sobre as outras, com argamassa de utopia, vou agora limpá-la, empacotá-la e etiquetá-la, vou armazená-la num enorme sótão de onde ninguém sabe se tornará a sair. E este trabalho cansa. Sabes? Estou muito, muito cansada.

11.3.05

Eu nem sou nada

do género políticamente correcto e ai, deixa-me cá agora dizer isto porque cai muito bem e tretas do género.
Mas sou sensível à dor dos outros, comovo-me tantas vezes com as misérias da condição humana, choca-me a violência e a desumanidade. Por isso hoje acho que temos que relembrar.


Detrás de cada lazo hubo una vida.
Pulse para descubrirlas.

aqui



10.3.05

Só porque

a querida Agatha pediu, aqui está o exemplar para lhe ensinar que

isto:



são Gerberas.


E eu só refilo, Agatha, porque no meio de milhares de flores lindas que se podem oferecer, 99% das empresas, ano após ano, escolhem SEMPRE estas, no Dia Internacional da Mulher, entendeu agora?

8.3.05

8 de Março

Outra efeméride que deve ser referida apenas por ser importante relembrar uma data histórica na luta da mulher pela igualdade de direitos e deveres, deve ser aproveitada para - tal como em todos os outros dias do ano - denunciar situações de exploração, injustiça, desigualdade e para reivindicar dos poderes medidas políticas que as corrijam.
Recordar que, de todos os pobres do mundo inteiro, 70% são mulheres, que, dos analfabetos, dois terços ainda são mulheres, e que, hoje, no século XXI, quando o avanço da ciência e da tecnologia nos permitem equacionar a hipótese de viver em Marte, morrem por dia, milhares de mulheres, por deficientes condições de assistência sexual e reprodutiva.
O 8 de Março deve servir para isto.

Não deve ser utilizado para praticar condescendências(zinhas), paternalismos(zinhos), oferecer flores(zinhas), só neste dia (meu deus, como detesto as gerberas!!) (mas gosto de uma ou duas fores silvestres em qualquer outra data...) e todas as outras mariquices inerentes a "hoje é o dia delas", que serão esquecidas amanhã.
Fiz-me entender?
Bom dia a todos!

7.3.05

Sei

que os poetas dizem em palavras aquilo que as pessoas comuns apenas pensam em silêncios.

Quero voar
- mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.

Quero morrer
- mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.

E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
-tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...

(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)

José Gomes Ferreira

6.3.05

...

"Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te perco".

M. Cesariny

5.3.05

Hoje

(Este post foi parcialmente removido.
Houve quem me dissesse que seria muito chocante se o post fosse lido por quem estava a viver situações semelhantes à que referi. Que estava escrito com demasiada carga dramática.
Não liguei muito, por achar que a pessoa a quem dediquei o post, nem sabia sequer da existência deste blog. Confirmei há pouco, por acaso, via pessoas amigas, que existe uma probabilidade de, afinal, o poder vir a ler. E removi sem hesitações a parte do texto que é personificada por alguém de carne e osso, uma amiga, real.
O que se mantém é apenas a parte genérica, o meu posicionamento pessoal face à morte, nada mais.)


seria talvez um dos dias mais improváveis para eu falar de morte.
Foi um dia cheio de luz, a trazer um cheirinho a Primavera. E, estranhamente, é hoje que sinto que tenho de o fazer.
Falar da morte. As palavras duras que trago presas na garganta há algum tempo.

(...)custa-me encarar esta efemeridade, esta incógnita e acho que há tanto para viver, tanto sol para sentir na pele, tanto mar para nos deslumbrar e é tão injusto que tudo isso acabe antes do tempo, que seria apenas no dia em fôssemos já velhinhos e olhássemos para os nossos filhos já maduros e os netos já crescidos e sentíssemos então que já tínhamos feito tudo o que havia para fazer e que era chegada a hora do descanso e fecharíamos voluntáriamente os olhos como num sono interminável e outros ficariam cá a cumprir esse mesmo ciclo.

Se eu fosse Deus seria assim que determinaria que acontecesse.
Mas não sou e tenho tanta pena.

4.3.05

E há qualquer coisa

de mágico nisto dos livros, da poesia, da pintura.
Penso que seja porque as pessoas que têm a capacidade de criar, de produzir qualquer forma de arte, são pessoas excepcionais. Têm uma capacidade que é distribuida muito parcimoniosamente pelo género humano. E isso torna-os excepcionais. São muito poucos os que conseguem emocionar os outros pela observação de uma pintura sua, tocar bem fundo pela leitura de um trecho de romance, levar ao rubro platéias com uma performance musical.
Eu tenho a sorte de ter entre o meu rol de (poucos) amigos, pessoas assim. Que escrevem poesia, que são escritores com vários livros publicados, outros que pintam quadros de cores quentes, cheios de luz, cuja imagem me oferecem a meio de um Seminário qualquer, como quem partilha um mistério. Porque a criação artística é um mistério. E as pessoas com alma de artista têm qualquer coisa que os distingue, como uma marca que carregam e que é invisível aos mais incautos, mas que aparece brilhante aos olhos dos mais sensíveis e atentos. Sempre os soube identificar no meio da multidão e é talvez por isso que tenho o previlégio de os ter como amigos.

Há qualquer coisa de mágico em ter um romance à minha frente, uma pilha de folhas soltas passadas a computador, duzentas e tal páginas, um mundo por desbravar, à espera que eu o desvende, que o leia em primeira mão (eu e apenas mais um ou dois "escolhidos") antes de ser publicado. Para além de ser uma grande honra.
É como se soubéssemos de um segredo que mais ninguém sabe, se tivéssemos a chave do templo, como se a caixa de Pandora se abrisse apenas para os nossos olhos.
Obrigada por achar que eu mereço tamanha distinção. :-)

Eu não disse

ali em baixo, mas o pedra, além de ser meu amigo, é um poeta.

E vai publicar o seu segundo livro de poesia, no próximo dia 22. Estão convidados a aparecer por lá (é que vai ter que me dar comissão pela publicidade, fique sabendo, senhor pedra!)

O primeiro chama-se In Certos Instantes e lembro-me de ter acompanhado o nascimento de muitos dos poemas que contém.

Dos não publicados, há muitos que guardo, numa pasta de tesouros, que me foram dedicados em momentos em que a poesia curava como se fosse uma pomada aplicada sobre uma ferida. E é também nestas pequenas coisas que se forja uma grande amizade.

3.3.05

De um dos

meus blogs experimentais pouco se aproveita. Textos sem alma, sem ritmo, sem água a borbulhar, como alguém os definiu na altura.
Mas um dos posts diz-me muito. Aquele que assinalou o nascimento desse blog, num poema que o meu amigo pedra construiu para me dedicar, a partir das minhas palvras da altura. Tem que ficar aqui.


E nasce (mais) um blog...

Inventei um palco
e construí um cenário:
cortinas de veludo, véus de tule,
lantejoulas, arco-iris de holofotes
e música, a eterna música.
Vivi nele a representar
para mim e para mais alguém,
a sorrir, a sorrir sempre.
Cansei-me.
No camarim arranquei o supérfluo:
a peruca, as pestanas e o rímel
e fiquei só interrogando o espelho.
Só eu, sem palco nem artefactos.
Para quem representei
não aplaudiu porque não entendeu
o esforço da actriz.
Com mágoa, confesso
que só representei aquilo que não sou.
Corri as cortinas e afastei os adereços.
Plantei-me, hirta e confiante,
e gargalhei ao espelho.
Embrenhei-me na chuva de Agosto
e prometi às pedras que pisava
que os meus passos serão decididos
como quem caminha,
todos os dias,
para o mistério do sol nascente.

CM (21/08/2004)

Obrigada

Urgentemente

chama-se o poema.
Recorrente, eu sei, é o autor, neste blog.
Eugénio de Andrade.
Repetido muitas vezes, esta casa como a casa dele e de outros poetas.
Repetido e recorrente.
Mas hoje apetecem-me estas palavras, esta manhã clara, a invenção da alegria.
Hoje apetece-me permanecer.


É urgente o Amor,
É urgente um barco no Mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

2.3.05

Uma flor

para Persephone, que não te quero triste.
Ficamos "oficialmente" Amigos, então. ;-)


flor Posted by Hello

É como um voto de Primavera na tua vida.

Mordam-se

de inveja, meninas.

O cap , à falta de ter um pneu ali à mão, ofereceu-me uma flor ( e é linda!) e, agora, somos, oficialmente, amigos. ;-)



(para me redimir da minha indesculpável distracção em relação a tamanho gesto teu, cap'tain)

Manhã

"Não gosto daquela mulher".
Assim.
Sem explicação plausível, apenas um sentimento indefinido, um pressentimento, algo no olhar, cinzento, na postura, na expressão do rosto.
Costuma acontecer-me isto. A sensação que tenho sobre uma pessoa, à primeira, raramente vem a alterar-se, mesmo depois de a conhecer melhor.
Esta é uma senhora que vive há muitos anos no prédio onde eu vivi, muitos anos também. Nunca passei de um "bom-dia" ocasional, nas vezes que nos cruzámos à entrada ou saída de casa. E, ainda assim, não gosto dela. Rodeia-a algo de muito pouco brilhante, algo que me repele e me diz que não é uma boa pessoa.
Hoje, o pensamento assaltou-me enquanto a via passar do lado de fora do vidro do café onde tomava o pequeno-almoço. "Não gosto daquela mulher".
Intuição ou avaliação do carácter com base em pequenos detalhes, pormenores de expressões e comportamentos, visíveis a um observador atento, conhecedor do género humano, seja lá o que fôr, quase nunca me enganei, ao longo da vida, neste tipo de apreciações. Da mesma forma que, as pessoas que me despertam simpatia num primeiro contacto, acabam por se revelar pessoas muito bonitas de quem venho a gostar muito. É por isso que não posso dizer que tenha tido muitas desilusões. Porque esta "selecção natural" me aproxima das pessoas que têm qualidades como honestidade e sinceridade e me afasta dos invejosos e hipócritas.

Pensava nisto enquanto deixava o olhar deambular pela rua, no exterior do café.
Decidi variar no local onde habitualmente tomo o pequeno-almoço ou o primeiro café do dia (em chávena grande). Tenho um ou dois cafés de eleição. Onde me sinto em casa, me conhecem os gostos, onde quase não é necessário fazer o pedido porque, quando se entra, o empregado já tem a bica a correr. É uma das coisas de que gosto, esta rotina diária. Mas hoje não optei por nenhum deles. Apeteceu-me reencontrar um sítio onde não costumo ir agora mas fui em tempos. Tempos de um tempo em que ainda existia o mistério e o sonho. Entrei e sentei-me junto dos grandes vidros que substituem a parede. Por entre os ruidos de fundo, chávenas a bater, uma televisão algures num canto da parede, a dar as primeiras notícias, vozes cruzadas de conversas que não ouvi, o cheiro quente do café acabado de tirar, deixei o pensamento à solta, lembrei palavras e gestos, noites quentes de Verão, roupas leves, sorrisos. Tempos de descoberta e inocência feliz. De uma rotina espontânea criada em torno de uma chávena de café e de conversas sobre tudo e sobre nada.
Tempos de paz e de segurança por confirmar que, mais uma vez, a primeira impressão, aquela espécie de corrente eléctrica em torno de alguém que ainda não se conhece mas com quem se pressentem afinidades, correspondia à verdade.

Reconciliei-me com muitas lembranças durante esta manhã fria e solitária, tão distante daquele tempo bonito.
Saí com um sorriso e o coração quente, enquanto entrava no carro e pensava, já esquecida da mulher de quem não gosto, "Nunca me enganou, esta minha intuição".