...acaba aqui.
Gostei muito. Obrigada a todos.
Mar
21.7.05
(...)
e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
(...)
Eugénio de Andrade
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
(...)
Eugénio de Andrade
20.7.05
Sobra-me
o sol por entre as pedras brancas da calçada.
Os dias parados, a ouvir o bater morno do coração.
Sobram risos de criança ao longe, cheiros fortes de café, uma gaivota recortada contra um céu infinitamente azul.
Sobra-me vida, a sair pelos poros abertos em reacção ao suave toque do vento. O riso e o arrepio, a carícia do cabelo com cheiro a pêssego, que descansa sobre um ventre ainda em frémito.
E vêm até mim vozes de outros dias, um olho entreaberto em luta contra o sono que lhe pesa, bocas molhadas de beijo.
Sobram bocados soltos de caminho, como se fosse um vestuário demasiado largo a cobrir um corpo de tamanho dois números abaixo.
Um corpo franzino a tentar aconchegar até si, a trazer para bem junto da pele, esse conforto breve e feliz.
Os dias parados, a ouvir o bater morno do coração.
Sobram risos de criança ao longe, cheiros fortes de café, uma gaivota recortada contra um céu infinitamente azul.
Sobra-me vida, a sair pelos poros abertos em reacção ao suave toque do vento. O riso e o arrepio, a carícia do cabelo com cheiro a pêssego, que descansa sobre um ventre ainda em frémito.
E vêm até mim vozes de outros dias, um olho entreaberto em luta contra o sono que lhe pesa, bocas molhadas de beijo.
Sobram bocados soltos de caminho, como se fosse um vestuário demasiado largo a cobrir um corpo de tamanho dois números abaixo.
Um corpo franzino a tentar aconchegar até si, a trazer para bem junto da pele, esse conforto breve e feliz.
19.7.05
E de repente
daqui
eis que apanhamos com a vida pelas trombas em toda a sua miséria e esplendor.
É nessas alturas que nos tornamos mais produtivos, no plano das análises e reflexões. No meu caso, isso traduziu-se em dar por mim a pensar nas diferentes formas que as pessoas têm de reagir a determinados acontecimentos.
Mais expansivas umas, mais reservadas outras, todas têm uma postura emocional de resposta a situações de dor ou alegria que as distingue umas das outras. Uma postura emocional e até mesmo uma postura física. Os sinais corporais, por si só, bastarão a um olhar entendido ou mais atento para indicação do que aquela pessoa sente, num certo momento.
Passei recentemente por alguns acontecimentos que envolveram grande dor, de pessoas que me são muito próximas. Não foi a primeira vez, nem será a última. A morte é algo de muito infalível.
Nestes momentos é comum a quase toda a gente que o corpo se contraia, se curve sobre si próprio, adopte uma atitude de auto-protecção, que os braços envolvam os joelhos, se estamos sentados ou as costas se curvem para que o rosto se aproxime do peito, se estivermos de pé. De todas as formas, parece haver uma espécie de procura da origem de todos nós, do útero onde estivemos em paz, onde o mal não nos chegou, a posição fetal que, no subconsciente colectivo (ah Freud, Freud...), se mantém a mais segura. Como se assim se pudesse adormecer a dor.
É quase um regresso ao início do processo da nossa existência para que possamos renascer, de ombros para trás e queixo levantado, no momento em que a felicidade nos atinja de novo.
Já as reacções emocionais não são tão lineares assim. Pessoas mais expressivas ou com menos cicatrizes que endureçam o músculo das emoções, têm facilmente a capacidade de chorar. É automático o saltar das lágrimas em resposta a uma angústia, quase reflexo condicionado, sem requerer grande intensidade da causa que as despolete. Assim quase como as crianças, de olhos feitos de água pura, que sai naturalmente como resposta a qualquer frustação, qualquer sensação de menos conforto.
Já outras não.
É nessas alturas que nos tornamos mais produtivos, no plano das análises e reflexões. No meu caso, isso traduziu-se em dar por mim a pensar nas diferentes formas que as pessoas têm de reagir a determinados acontecimentos.
Mais expansivas umas, mais reservadas outras, todas têm uma postura emocional de resposta a situações de dor ou alegria que as distingue umas das outras. Uma postura emocional e até mesmo uma postura física. Os sinais corporais, por si só, bastarão a um olhar entendido ou mais atento para indicação do que aquela pessoa sente, num certo momento.
Passei recentemente por alguns acontecimentos que envolveram grande dor, de pessoas que me são muito próximas. Não foi a primeira vez, nem será a última. A morte é algo de muito infalível.
Nestes momentos é comum a quase toda a gente que o corpo se contraia, se curve sobre si próprio, adopte uma atitude de auto-protecção, que os braços envolvam os joelhos, se estamos sentados ou as costas se curvem para que o rosto se aproxime do peito, se estivermos de pé. De todas as formas, parece haver uma espécie de procura da origem de todos nós, do útero onde estivemos em paz, onde o mal não nos chegou, a posição fetal que, no subconsciente colectivo (ah Freud, Freud...), se mantém a mais segura. Como se assim se pudesse adormecer a dor.
É quase um regresso ao início do processo da nossa existência para que possamos renascer, de ombros para trás e queixo levantado, no momento em que a felicidade nos atinja de novo.
Já as reacções emocionais não são tão lineares assim. Pessoas mais expressivas ou com menos cicatrizes que endureçam o músculo das emoções, têm facilmente a capacidade de chorar. É automático o saltar das lágrimas em resposta a uma angústia, quase reflexo condicionado, sem requerer grande intensidade da causa que as despolete. Assim quase como as crianças, de olhos feitos de água pura, que sai naturalmente como resposta a qualquer frustação, qualquer sensação de menos conforto.
Já outras não.
Por serem menos expansivas ou por anos a fio de necessidade de parecerem fortes, essa água fácil e redentora foi sendo empurrada para o fundo do ser, não posso chorar, como palavra de ordem empunhada no cérebro ao mesmo tempo que endurece a face e se retrai o corpo.
Na maior parte das vezes, conseguem enganar bem os outros. Os menos atentos. Têm uma aparência forte e segura, nada as abala, podem até ser classificadas de frias ou insensíveis. Seja por orgulho, ah o orgulho, esse animalzinho indomável que habita muitos de nós, ou porque reagem numa espécie de choque aos acontecimentos dolorosos, são peritas em disfarçar os sentimentos de tristeza.
Na maior parte das vezes, conseguem enganar bem os outros. Os menos atentos. Têm uma aparência forte e segura, nada as abala, podem até ser classificadas de frias ou insensíveis. Seja por orgulho, ah o orgulho, esse animalzinho indomável que habita muitos de nós, ou porque reagem numa espécie de choque aos acontecimentos dolorosos, são peritas em disfarçar os sentimentos de tristeza.
Esses, são apenas delas.
Mas sentem, com intensidade redobrada a mágoa que se esforçam por esconder.
Dói-lhes a dor e dói-lhes o esforço de a engolir, de a prender bem dentro delas, junto das outras dores, umas magras outras mais gordas, pequeninas ou grandes, que se acotovelam num espaço reduzido, elástico apenas até um certo limite que não é inesgotável. E que acaba por extravasar, quase sempre quando menos se espera, esvaziando enfim o reservatório de mágoas. Até à próxima vez.
É por isso que, ao contrário da felicidade, fácilmente mensurável pelo sorriso e o brilho do olhar, a intensidade da tristeza não pode ser medida em lágrimas. Se bem que, talvez, o brilho excessivo do olhar acabe por também a trair...
São giras, as conclusões que tiramos quando pensamos nestas coisas...
Ao menos damos uso aos neurónios.
Nas grandes dores da minha vida, nos piores momentos de todos, não fui capaz de chorar. Só depois. Por vezes, muito depois.
Normalmente, sózinha.
Mas sentem, com intensidade redobrada a mágoa que se esforçam por esconder.
Dói-lhes a dor e dói-lhes o esforço de a engolir, de a prender bem dentro delas, junto das outras dores, umas magras outras mais gordas, pequeninas ou grandes, que se acotovelam num espaço reduzido, elástico apenas até um certo limite que não é inesgotável. E que acaba por extravasar, quase sempre quando menos se espera, esvaziando enfim o reservatório de mágoas. Até à próxima vez.
É por isso que, ao contrário da felicidade, fácilmente mensurável pelo sorriso e o brilho do olhar, a intensidade da tristeza não pode ser medida em lágrimas. Se bem que, talvez, o brilho excessivo do olhar acabe por também a trair...
São giras, as conclusões que tiramos quando pensamos nestas coisas...
Ao menos damos uso aos neurónios.
Nas grandes dores da minha vida, nos piores momentos de todos, não fui capaz de chorar. Só depois. Por vezes, muito depois.
Normalmente, sózinha.
16.7.05
O gajo nasceu para aquilo.
É das pessoas mais inesperadas que já descobri através da blogosfera. Pela sua pose de gajo maluco, traída pela desconcertante bagagem cultural, que se revela quando fala de Borges, por exemplo, ou disserta sobre linguística. Pela criatividade absolutamente extraordinária de quem constrói uma animação a suicidar coelhos ou escreve algo como o sabor do Xau Silvestre.
Pela sensibilidade disfarçada nos insultos que larga a torto e a direito, mas que salta cá para fora se há um animalzito que lhe passa pelo ângulo de visão.
Este é, quanto a mim, um dos livros lançados a partir da blogosfera com maior propriedade. Este, para o João Pedro da Costa, poderá ser só o início. És capaz de fazer muito mais, chavalo!
p.s: esqueci-me de dizer que é impossível não gostar do gajo. E que podem ver a reportagem completa no Charco.
12.7.05
Sou
acometida por periódicas crises de "fé".
Manifestamente.
Sejam elas a propósito da Humanidade, da carne de vaca, do Luis Filipe Vieira (afinal o não sei quantos, Dédé, ou agora é Léo (tudo nomes amaricados...) é ou não é a nova aquisiçao?), do Santo Graal garantir a eterna juventude ou até mesmo da validade (eu quero é dizer do saldo, mas não é políticamente correcto...) do cartão de crédito, face à nova colecção Outono/Inverno da Stefanel, o certo é, que de vez em quando lá estou eu contra o mundo, a destilar a minha posição "do contra", só porque me apanharam em dia não. Ou semana, pronto...(normalmente passa-me antes disso, principalmente se alguém tiver o bom senso de me convidar para umas imperiais e me deixar "esbravejar" à vontade, até ter expurgado todo o mal que me despoletou a crise - e atenção, que o factor desencadeador pode ter sido uma coisa tão simples como a "cara de caso" de alguém que, no meu entender, não tem a mínima razão para agir assim comigo. Ou os sapatos que vesti nessa manhã, meio a dormir, não combinarem com a cor da camisola)
Mas adiante, como não podia deixar de ser, isto tudo aplica-se na perfeição à blogosfera e às suas virtudes. Ou defeitos. É para o lado que der.
Quem me conhece bem, sabe todas as vezes que tenho questionado o interesse em continuar por aqui. Em particular, depois de muita gente na cidade onde moro ter conhecido a minha identidade, tenho sido tentada, mais do que uma vez, a abandonar esta paragem espelhada, a abrir uma outra página, perdida algures pela net, para lá escrever o que me apetecer, se me apetecer, sem restrições de tema ou de tom.
Convenhamos que não é fácil, a exposição assumida ao longo de textos que, sendo ficção numa determinada percentagem, acabam por conter muito do que somos enquanto pessoas, com vidas e emoções próprias e para além daquelas que nos são conhecidas enquanto desempenhamos o papel do horário nine to five.
Estão aqui coisas que só contamos aos amigos e, mesmo assim, àqueles mais do peito, em quem confiamos cegamente. Estão aqui bocados de nós e dos nossos sonhos, os tais que, por pudor numa sociedade mesquinha e reduzida ao mal-dizer, todas as pessoas ocultam do gajo com quem se sentam diariamente para tomar uma bica no café da esquina. É, socialmente melhor aceite dizer mal do colega de trabalho, do que confessar que gostamos de ver o pôr-do-sol no mar ao lado do nosso mais-que-tudo. Ou que acreditamos que a Paz no mundo é possível. E, qual de entre vós, tem a coragem de afirmar que não tem, pelo menos um destes momentos de lirismo, ao longo do dia (chato) de trabalho? (ok, ok, também pode contar o delírio erótico com a vizinha do 6º andar, que até é boa comó milho)
Faxavôr de não assobiarem para o ar que eu estou a ouvir, ou julgam que isto é só em sentido único e eu não sei o que vos vai na alma?
Certo, certo, é que não está fora de questão que, um belo dia eu acorde com os pés prá lua e venha aqui comunicar formalmente a debandada para outro local mais aprazível. Em sítio incerto, como é óbvio. Confesso que me chateia que o senhor da mercearia, barricado por detrás de um molho de espinafres enquanto arruma a secção dos legumes, me pisque o olho com ar cúmplice, depois de eu ter aqui postado a minha última tarde de paixão. Fico logo sem vontade de escrever, em seguida, aquilo que penso verdadeiramente dos cuscos que não têm mais o que fazer do que andarem por aqui a tentar descortinar como vai andando a minha vida privada, sob pena de espantar de vez os que ainda vêm a este blog de forma desinteressada (vocês, queridos comentadores, pois, eu sei que sim).
Não é linear, o futuro deste blog.
Mas, enquanto me lembrar do sorriso desta menina ao dar-me o abraço em que nos (re)conhecemos, apesar de nunca antes nos termos visto (parabéns, linda!), ou da maluqueira deste agora famoso escritor (ansiosa por chegar 5ª feira, méne), insuperável em quantidade de palavras obscenas por frase, (com sotaque franco-tripeiro, nunca vi, palavra...), terei grandes reservas em arrumar a trouxa e sair desta "casa", através da qual cheguei às "casas" deles.
E de outros, nas quais me instalei como uma "okupa", em definitivo...
Manifestamente.
Sejam elas a propósito da Humanidade, da carne de vaca, do Luis Filipe Vieira (afinal o não sei quantos, Dédé, ou agora é Léo (tudo nomes amaricados...) é ou não é a nova aquisiçao?), do Santo Graal garantir a eterna juventude ou até mesmo da validade (eu quero é dizer do saldo, mas não é políticamente correcto...) do cartão de crédito, face à nova colecção Outono/Inverno da Stefanel, o certo é, que de vez em quando lá estou eu contra o mundo, a destilar a minha posição "do contra", só porque me apanharam em dia não. Ou semana, pronto...(normalmente passa-me antes disso, principalmente se alguém tiver o bom senso de me convidar para umas imperiais e me deixar "esbravejar" à vontade, até ter expurgado todo o mal que me despoletou a crise - e atenção, que o factor desencadeador pode ter sido uma coisa tão simples como a "cara de caso" de alguém que, no meu entender, não tem a mínima razão para agir assim comigo. Ou os sapatos que vesti nessa manhã, meio a dormir, não combinarem com a cor da camisola)
Mas adiante, como não podia deixar de ser, isto tudo aplica-se na perfeição à blogosfera e às suas virtudes. Ou defeitos. É para o lado que der.
Quem me conhece bem, sabe todas as vezes que tenho questionado o interesse em continuar por aqui. Em particular, depois de muita gente na cidade onde moro ter conhecido a minha identidade, tenho sido tentada, mais do que uma vez, a abandonar esta paragem espelhada, a abrir uma outra página, perdida algures pela net, para lá escrever o que me apetecer, se me apetecer, sem restrições de tema ou de tom.
Convenhamos que não é fácil, a exposição assumida ao longo de textos que, sendo ficção numa determinada percentagem, acabam por conter muito do que somos enquanto pessoas, com vidas e emoções próprias e para além daquelas que nos são conhecidas enquanto desempenhamos o papel do horário nine to five.
Estão aqui coisas que só contamos aos amigos e, mesmo assim, àqueles mais do peito, em quem confiamos cegamente. Estão aqui bocados de nós e dos nossos sonhos, os tais que, por pudor numa sociedade mesquinha e reduzida ao mal-dizer, todas as pessoas ocultam do gajo com quem se sentam diariamente para tomar uma bica no café da esquina. É, socialmente melhor aceite dizer mal do colega de trabalho, do que confessar que gostamos de ver o pôr-do-sol no mar ao lado do nosso mais-que-tudo. Ou que acreditamos que a Paz no mundo é possível. E, qual de entre vós, tem a coragem de afirmar que não tem, pelo menos um destes momentos de lirismo, ao longo do dia (chato) de trabalho? (ok, ok, também pode contar o delírio erótico com a vizinha do 6º andar, que até é boa comó milho)
Faxavôr de não assobiarem para o ar que eu estou a ouvir, ou julgam que isto é só em sentido único e eu não sei o que vos vai na alma?
Certo, certo, é que não está fora de questão que, um belo dia eu acorde com os pés prá lua e venha aqui comunicar formalmente a debandada para outro local mais aprazível. Em sítio incerto, como é óbvio. Confesso que me chateia que o senhor da mercearia, barricado por detrás de um molho de espinafres enquanto arruma a secção dos legumes, me pisque o olho com ar cúmplice, depois de eu ter aqui postado a minha última tarde de paixão. Fico logo sem vontade de escrever, em seguida, aquilo que penso verdadeiramente dos cuscos que não têm mais o que fazer do que andarem por aqui a tentar descortinar como vai andando a minha vida privada, sob pena de espantar de vez os que ainda vêm a este blog de forma desinteressada (vocês, queridos comentadores, pois, eu sei que sim).
Não é linear, o futuro deste blog.
Mas, enquanto me lembrar do sorriso desta menina ao dar-me o abraço em que nos (re)conhecemos, apesar de nunca antes nos termos visto (parabéns, linda!), ou da maluqueira deste agora famoso escritor (ansiosa por chegar 5ª feira, méne), insuperável em quantidade de palavras obscenas por frase, (com sotaque franco-tripeiro, nunca vi, palavra...), terei grandes reservas em arrumar a trouxa e sair desta "casa", através da qual cheguei às "casas" deles.
E de outros, nas quais me instalei como uma "okupa", em definitivo...
10.7.05
Não

gosto de caminhar pelas ruínas do que já fui.
Nem que tentem, à força, motivados por obscuras incapacidades pessoais, conduzir-me por caminhos tortuosos, de regresso ao que fiz.
Não sou saudosista, nem me prendo a retalhos do passado para enfrentar, de queixo levantado, os desafios do futuro e muito menos enquanto vivo, inebriada e cheia de certezas, os dias do presente...
Talvez por isso, raramente leia os arquivos deste blogue. E, das poucas vezes que o fiz, entretendo algum tempo de lazer mal passado, acabei por não me reconhecer, em muitos dos textos que produzi.
Porque são textos que parecem pertencer a outro alguém, que fui em determinada altura, moldada por circunstâncias específicas, e que deixei de ser, à medida que fui encontrando o Eu verdadeiro, aquele que procurei pelas estradas que percorri.
Se de algo me arrependo, nos actos que encarnei ao longo da minha vida, foi de ter traído os meus princípios e convicções, em nome de uma absurda tentativa de criar a pessoa que outros esperavam que eu fosse, num dado momento. Devia ter sabido, que aquela que se foi moldando numa argamassa de honestidade e tendo como força motriz a paixão e o amor, não seria capaz de recriar estes dois últimos numa situação que careceu da primeira. Tinha que ter sabido e essa culpa ninguém ma tira.
Se me arrependo, foi de ter tentado enganar-me e que isso tenha permitido o engano de outrém. Afirmo-me íntegra e assim me considero, apesar de ter falhado nesta prática, uma vez em toda uma vida. Uma única vez que não me parece o suficiente para me crucificar. Até por ter tentado, tão prontamente quanto o descobri em mim própria, desfazer o equívoco, com frontalidade e de forma definitiva. Assumir os erros é uma forma de os tentar contrariar, de os reduzir a um percalço atravessado no caminho e que não conseguimos contornar. Tivémos que o levar pela frente, até ser possível deixá-lo para trás.
E deixámo-lo, efectivamente, lá.
De uma vez por todas, definitiva e irreversível. Um percalço de que não nos orgulhamos mas que não podemos apagar. O que não significa que o lembremos, sequer.
Está apenas lá, uma pedra anónima e insignificante no meio da parede em ruínas. Um pequeno tijolo que, se retirado, não compromete sequer a estrutura da parede.
E mesmo cuja presença, não é sequer capaz de impedir a luz de irromper, por entre as falhas de uma composição que se esboroa a todo o momento.
A luz indicadora do brilhante caminho do futuro. Que seguimos sem olhar para trás.
7.7.05
Inventamos
novos dialectos, palavras nunca pronunciadas, uma linguagem de mensagens encriptadas que descodificamos com a ponta dos dedos.
No dia de todas as verdades, deixamo-nos ir no sabor a sal, no cheiro morno da pele lavada, nos cabelos revoltos.
Percorremo-nos em viagem alucinada, num caminho de savanas em fogo e mares profundos.
Depois, num sussurro de promessas e segredos inconfessáveis, despimo-nos de todas as capas, deixamos que caiam todas as máscaras e juntamos, de peito colado, um ao outro, o bater de dois corações.
E é aí que sabemos que chegámos a casa.
No dia de todas as verdades, deixamo-nos ir no sabor a sal, no cheiro morno da pele lavada, nos cabelos revoltos.
Percorremo-nos em viagem alucinada, num caminho de savanas em fogo e mares profundos.
Depois, num sussurro de promessas e segredos inconfessáveis, despimo-nos de todas as capas, deixamos que caiam todas as máscaras e juntamos, de peito colado, um ao outro, o bater de dois corações.
E é aí que sabemos que chegámos a casa.
5.7.05
Queria
ser capaz de dar de mim a essência.
Essa estranha substância imaterial que preenche os espaços vazios entre aquilo que, de material, nos compõe, músculos, osso, sangue, lágrimas.
Queria que a minha verdade enquanto pessoa saísse de mim pelo gesto, etérea, a mão aberta estendida, e possuísse apenas aqueles que os meus olhos tocassem com um certo brilho, a verdade sob a forma de halo quase invisível, aspirado pelos outros como se de um perfume se tratasse.
Que permanecesse, tal como um perfume, preso na memória e no coração de quem ma tivesse lido - a essência - e que fosse indelével, como a linguagem gravada na rocha no princípio dos tempos.
Não queria que a reacção afogasse a emoção, que a palavra afrontasse a intenção, que Amor rimasse, às vezes, com Dor.
4.7.05
O post ecológico
ou de como o serviço doméstico é inspirador inesgotável de postas altamente transcendentes e metafísicas (ou algo assim parecido, que esta palavra agora parece-me que fica aqui lindamente)
Sim porque, embora estupidamente repetitivo e rotineiro, o facto de ser inesgotável (tão a ver, capisce? Inesgotável? lá em cima no título? dahh! perceberam o trocadilho? chiça, é preciso explicar tudo...), permite que haja sempre motivo para falar dele e pensar em utilizá-lo para produzir um post baril, enquanto se varre pela enésima vez a cozinha ou se retira a louça lavada do escorredor para, imediatamente a seguir, o tornar a encher de louça acabada de lavar. (coisa mais estúpida, apenas superada em estupidez pela necessidade convencionada de fazer a cama mal nos levantamos, quando, horas depois, temos que voltar a desfazê-la...já afugentei o que restava de homens casadoiros a frequentar este blog, mas adiante)
Bom mas dizia eu que – ou melhor, ia dizer quando fui interrompida pelo meu próprio pensamento - enquanto esmagava, de forma automática, as garrafas de plástico para reciclar, “ocorreusse-me”, assim de repente, que a maior parte das pessoas não viu, in loco, um aterro sanitário e, dentro deste, o funcionamento de uma estação de triagem de resíduos sólidos urbanos. E que, se o tivessem feito, assim tal como moizinha, nunca, mas nunca mais, teriam a coragem de atirar, pura e simplesmente, com as embalagens plásticas para dentro dos plasticões e regressar às suas lides com a consciência tranquila de quem já fez a sua quota para a salvação do planeta.
Olhamésta, aqui a pregar aos peixinhos, a dar palpites até parece que é engenheira ó o caneco, pensam vocês enquanto fingem com toda a delicadeza que me ouvem e que se interessam realmente pelo que estou a dizer.
Eu ignoro e continuo, olímpicamente.
Olhando, assim de longe, para uma operação de depósito do conteúdo dos ecopontos numa destas unidades de triagem, verificamos que 80% das embalagens, que pressurosamente separámos para reciclar, sai intacta de dentro do contentor, ocupando, em volume, o quádruplo do espaço que ocuparia se...estivesse esmagada e de tampinha posta para não regressar à forma original. O contentor receberia quatro vezes mais plástico para reciclar, se todos nos lembrássemos de fazer essa mecânica operação de esmagamento com o pé, enquanto pensamos no arroz branco que iremos fazer a seguir, ou gritamos aos miúdos, Kátia Vanessa tira-me já esses ouvidos do telefone que me desgraças, rapariga!, ou cogitamos que raio é que aquela meia desirmanada faz ali dentro do vaso da flor...ou enquanto afloramos outros temas mais, hum, interessantes, que nos vossos cérebros mandam vocês e já são crescidinhos o suficiente para poderem sacar de um rol atractivo de actividades, hum, lúdicas, enquanto executam tarefas mecânicas, sem precisarem que faça aqui nenhum desenho. Er...este post era sobre quê, afinal? Ah, reciclagem!
Pronto, ora nem mais e agora, adeus, adeus, que vou ali esfregar os azulejos da cozinha...
3.7.05
Abraço
a saudade do mar, em vagas que me desaguam no regaço.
Beija-me o sol.
Abandono-me de olhos fechados a esse calor, doce como favos de mel.
Percorrem-me os seus raios, como se fossem as pontas dos dedos de um amante, de um amor, como o toque suave dos cabelos de alguém na minha pele arrepiada.
Ao longe, testemunhas, apenas o murmúrio das ondas e o voo rasante da gaivota.
Beija-me o sol.
Abandono-me de olhos fechados a esse calor, doce como favos de mel.
Percorrem-me os seus raios, como se fossem as pontas dos dedos de um amante, de um amor, como o toque suave dos cabelos de alguém na minha pele arrepiada.
Ao longe, testemunhas, apenas o murmúrio das ondas e o voo rasante da gaivota.
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