19.7.05

E de repente


daqui

eis que apanhamos com a vida pelas trombas em toda a sua miséria e esplendor.

É nessas alturas que nos tornamos mais produtivos, no plano das análises e reflexões. No meu caso, isso traduziu-se em dar por mim a pensar nas diferentes formas que as pessoas têm de reagir a determinados acontecimentos.
Mais expansivas umas, mais reservadas outras, todas têm uma postura emocional de resposta a situações de dor ou alegria que as distingue umas das outras. Uma postura emocional e até mesmo uma postura física. Os sinais corporais, por si só, bastarão a um olhar entendido ou mais atento para indicação do que aquela pessoa sente, num certo momento.
Passei recentemente por alguns acontecimentos que envolveram grande dor, de pessoas que me são muito próximas. Não foi a primeira vez, nem será a última. A morte é algo de muito infalível.

Nestes momentos é comum a quase toda a gente que o corpo se contraia, se curve sobre si próprio, adopte uma atitude de auto-protecção, que os braços envolvam os joelhos, se estamos sentados ou as costas se curvem para que o rosto se aproxime do peito, se estivermos de pé. De todas as formas, parece haver uma espécie de procura da origem de todos nós, do útero onde estivemos em paz, onde o mal não nos chegou, a posição fetal que, no subconsciente colectivo (ah Freud, Freud...), se mantém a mais segura. Como se assim se pudesse adormecer a dor.
É quase um regresso ao início do processo da nossa existência para que possamos renascer, de ombros para trás e queixo levantado, no momento em que a felicidade nos atinja de novo.

Já as reacções emocionais não são tão lineares assim. Pessoas mais expressivas ou com menos cicatrizes que endureçam o músculo das emoções, têm facilmente a capacidade de chorar. É automático o saltar das lágrimas em resposta a uma angústia, quase reflexo condicionado, sem requerer grande intensidade da causa que as despolete. Assim quase como as crianças, de olhos feitos de água pura, que sai naturalmente como resposta a qualquer frustação, qualquer sensação de menos conforto.
Já outras não.
Por serem menos expansivas ou por anos a fio de necessidade de parecerem fortes, essa água fácil e redentora foi sendo empurrada para o fundo do ser, não posso chorar, como palavra de ordem empunhada no cérebro ao mesmo tempo que endurece a face e se retrai o corpo.
Na maior parte das vezes, conseguem enganar bem os outros. Os menos atentos. Têm uma aparência forte e segura, nada as abala, podem até ser classificadas de frias ou insensíveis. Seja por orgulho, ah o orgulho, esse animalzinho indomável que habita muitos de nós, ou porque reagem numa espécie de choque aos acontecimentos dolorosos, são peritas em disfarçar os sentimentos de tristeza.
Esses, são apenas delas.
Mas sentem, com intensidade redobrada a mágoa que se esforçam por esconder.
Dói-lhes a dor e dói-lhes o esforço de a engolir, de a prender bem dentro delas, junto das outras dores, umas magras outras mais gordas, pequeninas ou grandes, que se acotovelam num espaço reduzido, elástico apenas até um certo limite que não é inesgotável. E que acaba por extravasar, quase sempre quando menos se espera, esvaziando enfim o reservatório de mágoas. Até à próxima vez.

É por isso que, ao contrário da felicidade, fácilmente mensurável pelo sorriso e o brilho do olhar, a intensidade da tristeza não pode ser medida em lágrimas. Se bem que, talvez, o brilho excessivo do olhar acabe por também a trair...

São giras, as conclusões que tiramos quando pensamos nestas coisas...
Ao menos damos uso aos neurónios.
Nas grandes dores da minha vida, nos piores momentos de todos, não fui capaz de chorar. Só depois. Por vezes, muito depois.
Normalmente, sózinha.

Sem comentários: