10.7.05

Não



gosto de caminhar pelas ruínas do que já fui.
Nem que tentem, à força, motivados por obscuras incapacidades pessoais, conduzir-me por caminhos tortuosos, de regresso ao que fiz.
Não sou saudosista, nem me prendo a retalhos do passado para enfrentar, de queixo levantado, os desafios do futuro e muito menos enquanto vivo, inebriada e cheia de certezas, os dias do presente...
Talvez por isso, raramente leia os arquivos deste blogue. E, das poucas vezes que o fiz, entretendo algum tempo de lazer mal passado, acabei por não me reconhecer, em muitos dos textos que produzi.
Porque são textos que parecem pertencer a outro alguém, que fui em determinada altura, moldada por circunstâncias específicas, e que deixei de ser, à medida que fui encontrando o Eu verdadeiro, aquele que procurei pelas estradas que percorri.
Se de algo me arrependo, nos actos que encarnei ao longo da minha vida, foi de ter traído os meus princípios e convicções, em nome de uma absurda tentativa de criar a pessoa que outros esperavam que eu fosse, num dado momento. Devia ter sabido, que aquela que se foi moldando numa argamassa de honestidade e tendo como força motriz a paixão e o amor, não seria capaz de recriar estes dois últimos numa situação que careceu da primeira. Tinha que ter sabido e essa culpa ninguém ma tira.
Se me arrependo, foi de ter tentado enganar-me e que isso tenha permitido o engano de outrém. Afirmo-me íntegra e assim me considero, apesar de ter falhado nesta prática, uma vez em toda uma vida. Uma única vez que não me parece o suficiente para me crucificar. Até por ter tentado, tão prontamente quanto o descobri em mim própria, desfazer o equívoco, com frontalidade e de forma definitiva. Assumir os erros é uma forma de os tentar contrariar, de os reduzir a um percalço atravessado no caminho e que não conseguimos contornar. Tivémos que o levar pela frente, até ser possível deixá-lo para trás.
E deixámo-lo, efectivamente, lá.
De uma vez por todas, definitiva e irreversível. Um percalço de que não nos orgulhamos mas que não podemos apagar. O que não significa que o lembremos, sequer.
Está apenas lá, uma pedra anónima e insignificante no meio da parede em ruínas. Um pequeno tijolo que, se retirado, não compromete sequer a estrutura da parede.
E mesmo cuja presença, não é sequer capaz de impedir a luz de irromper, por entre as falhas de uma composição que se esboroa a todo o momento.

A luz indicadora do brilhante caminho do futuro. Que seguimos sem olhar para trás.

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