2.3.05

Manhã

"Não gosto daquela mulher".
Assim.
Sem explicação plausível, apenas um sentimento indefinido, um pressentimento, algo no olhar, cinzento, na postura, na expressão do rosto.
Costuma acontecer-me isto. A sensação que tenho sobre uma pessoa, à primeira, raramente vem a alterar-se, mesmo depois de a conhecer melhor.
Esta é uma senhora que vive há muitos anos no prédio onde eu vivi, muitos anos também. Nunca passei de um "bom-dia" ocasional, nas vezes que nos cruzámos à entrada ou saída de casa. E, ainda assim, não gosto dela. Rodeia-a algo de muito pouco brilhante, algo que me repele e me diz que não é uma boa pessoa.
Hoje, o pensamento assaltou-me enquanto a via passar do lado de fora do vidro do café onde tomava o pequeno-almoço. "Não gosto daquela mulher".
Intuição ou avaliação do carácter com base em pequenos detalhes, pormenores de expressões e comportamentos, visíveis a um observador atento, conhecedor do género humano, seja lá o que fôr, quase nunca me enganei, ao longo da vida, neste tipo de apreciações. Da mesma forma que, as pessoas que me despertam simpatia num primeiro contacto, acabam por se revelar pessoas muito bonitas de quem venho a gostar muito. É por isso que não posso dizer que tenha tido muitas desilusões. Porque esta "selecção natural" me aproxima das pessoas que têm qualidades como honestidade e sinceridade e me afasta dos invejosos e hipócritas.

Pensava nisto enquanto deixava o olhar deambular pela rua, no exterior do café.
Decidi variar no local onde habitualmente tomo o pequeno-almoço ou o primeiro café do dia (em chávena grande). Tenho um ou dois cafés de eleição. Onde me sinto em casa, me conhecem os gostos, onde quase não é necessário fazer o pedido porque, quando se entra, o empregado já tem a bica a correr. É uma das coisas de que gosto, esta rotina diária. Mas hoje não optei por nenhum deles. Apeteceu-me reencontrar um sítio onde não costumo ir agora mas fui em tempos. Tempos de um tempo em que ainda existia o mistério e o sonho. Entrei e sentei-me junto dos grandes vidros que substituem a parede. Por entre os ruidos de fundo, chávenas a bater, uma televisão algures num canto da parede, a dar as primeiras notícias, vozes cruzadas de conversas que não ouvi, o cheiro quente do café acabado de tirar, deixei o pensamento à solta, lembrei palavras e gestos, noites quentes de Verão, roupas leves, sorrisos. Tempos de descoberta e inocência feliz. De uma rotina espontânea criada em torno de uma chávena de café e de conversas sobre tudo e sobre nada.
Tempos de paz e de segurança por confirmar que, mais uma vez, a primeira impressão, aquela espécie de corrente eléctrica em torno de alguém que ainda não se conhece mas com quem se pressentem afinidades, correspondia à verdade.

Reconciliei-me com muitas lembranças durante esta manhã fria e solitária, tão distante daquele tempo bonito.
Saí com um sorriso e o coração quente, enquanto entrava no carro e pensava, já esquecida da mulher de quem não gosto, "Nunca me enganou, esta minha intuição".

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