12.3.05

Teria

sido tudo tão simples. Pelo menos é o que eu penso e o que a estúpida intuição me sussurra ao ouvido, a sádica.
Estou cansada. Sabes? A incerteza cansa, o quase não preenche, magoam as perguntas deixadas sem resposta, cansa o desmontar do castelo, pedra por pedra, devagar, hoje tiro uma ameia, amanhã é a torre que desaparece, o balcão de onde te mirava ao longe cai com estrondo no chão, até chegar por fim à ponte, a ponte de madeira que une o castelo à vida real e que desmonto cuidadosamente, guardando as tábuas para que não apodreçam e não invalidem a sua futura montagem depois, num outro cenário qualquer. Tudo isto cansa.
Construir as coisas que queremos é um trabalho leve, que se faz sem sentir, de sorriso nos olhos e força no coração. Depois só temos que morar lá dentro, dentro do sonho que tecemos fio a fio, dentro do castelo que montámos aos poucos sobre nuvens claras, no meio de um céu cheio de estrelas. Mas depois nenhuma das chaves abre os portões da entrada. No início ainda tentamos, experimentamos várias vezes, deixa cá voltar para este lado, agora para o outro, não é esta vamos ver a próxima, se calhar até temos que mandar fazer uma por medida, não se desiste, esta também não deu, mas acreditamos que há-de haver um dia em que o ruído de abrir a fechadura se ouve e eis que as portas se abrem, de par em par, e o mundo do castelo encantado se estende, ali, perante os nossos olhos maravilhados, as flores raras que plantámos, o prado verde cheio de pequenos animais mágicos das cores do arco-íris, a árvore dos desejos, o unicórnio azul.
E enquanto acreditamos vamos tentando.

Tentamos, não se sabe durante quanto tempo e depois, vem um dia em que a verdade surge clara, à nossa frente: a chave não existe, a fechadura não tem forma de abrir, foi defeito no fabrico e não há mais nada a fazer a não ser desmanchá-la. E aí começa o trabalho duro. Desmontar cada peça, num trabalho solitário de memórias e nostalgia, reconheço esta aqui, aquela outra sei o dia exacto em que a coloquei, sobre as outras, com argamassa de utopia, vou agora limpá-la, empacotá-la e etiquetá-la, vou armazená-la num enorme sótão de onde ninguém sabe se tornará a sair. E este trabalho cansa. Sabes? Estou muito, muito cansada.

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