7.6.04

A propósito

do Mia Couto, lembrei-me de uma história que ele contou, numa das vezes em que tive o previlégio de jantar com ele, antes do colóquio em que ia participar a seguir, e que acabou por contar também no próprio colóquio. Daí que, alguns de vocês até possam já tê-la ouvido, em algum auditório deste país.

Contou-a, naquela voz serena e com subtil sotaque moçambicano (diria antes africano, porque é que ele é antes de mais) que o caracteriza, a propósito de se ter tornado famoso, com a maior das humildades, que também é característica das pessoas famosas quando são grandes de espírito, e com um indisfarçável sentido de humor.
Depois de ter sido questionado por um de nós, sobre este nome que escolheu para assinar os seus livros, riu-se e contou que já lhe trouxe mais dissabores do que agora. No ínício, quando começou a ser traduzido em vários países do mundo e começou a ser convidado para conferências, foi então participar numa Feira de Literatura num país da América do Sul(que não vou divulgar aqui, por razões óbvias....) Ao descer do avião, depois de começar a estranhar não ver ninguém dirigir-se a ele, reparou numa pomposa comitiva de prováveis representantes da organização e inclusive, do Governo, pelas fardas que se observavam em alguns elementos e resolveu tomar a iniciativa de se deslocar até eles para se apresentar.
Perguntou se esperavam escritores convidados e tal e foi olhado com a mais profunda aflição pelos altos dignatários que ali estavam destacados para o efeito.
Quando entrou no carro oficial, que o levou até ao hotel onde iria ficar alojado nesses dois dias, o silêncio era denso, não só devido às diferenças linguísticas, que se superavam através de um inglês mais ou menos macarrónico, sempre que ele, simpáticamente, tentava meter conversa, mas porque pairava no ar uma sensação tremenda de constrangimento que ele não conseguia perceber.
Ao entrar no quarto do hotel que lhe estava destinado, entendeu, finalmente, a razão de tanto sofrimento por parte dos seus acompanhantes...em cima da cama repousava uma enorme caixa atada com um laço de cetim. Lá dentro, um amável bilhete do Chefe do Governo, dizia-lhe que era uma honra receber no seu país a famosa escritora Mia Couto e acompanhava vários presentes: um cesto de fruta tropical e doces, bijuteria local e um vestido típico das mulheres desse país, para usar em situações de cerimónia...

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