O dia começava a levantar-se, preguiçoso, através de brumas cinzentas que se desfaziam aos poucos, à medida que raios avermelhados as trespassavam.
Prenúncio de canícula, esta cor a subir no horizonte. O dia iria ser quente.
Ela afastou os lençóis, quentes e perfumados pelo seu corpo e, como de costume, abriu a janela de par em par.
O ar ainda era fresco, recém-lavado pela noite que agora se afastava.
Inspirou fundo enquanto fazia o gesto característico de sacudir os cabelos alaranjados.
Ficou ali por um tempo, o olhar perdido no fundo da planície, a ver a manhã nascer.
Sabia-lhe bem o silêncio. Parecia que a vida estava suspensa, ainda adormecida. Menos os pássaros. Esses, andavam numa dança enlouquecida, na celebração do novo dia, um ritual de voos e trinados que só eles entendiam. E ela. Há já muito tempo que os pássaros faziam parte das suas manhãs. Ela e eles em comunhão como se o mundo lhes pertencesse, naqueles breves minutos que antecedem o bulício de janelas a abrir, carros a passar e pessoas a sair apressadas dos prédios, em direcção a parte incerta. Desejou ser pássaro, para poder, também ela, voar para longe do ruído, do fumo dos carros, das conversas apressadas. Para ser livre. E pousar nos ramos da árvore que escolhesse. E lavar-se nos beirais, molhados da geada nocturna. E fugir, fugir...
Foi aí que o cheiro a café a trouxe de volta à realidade. Vestiu-se devagar, depois de um banho rápido e esperou a batida na porta.
Como em todos os dias desses últimos anos, a enfermeira de serviço entrou trazendo a bandeja com os medicamentos e saúdou-a com um sorriso:
-Então, sempre a primeira acordar como é hábito. Vamos lá ver como está hoje essa tensão...
Por entre as grades da janela do sanatório os pássaros começavam a afastar-se...até ao dia seguinte.
Prenúncio de canícula, esta cor a subir no horizonte. O dia iria ser quente.
Ela afastou os lençóis, quentes e perfumados pelo seu corpo e, como de costume, abriu a janela de par em par.
O ar ainda era fresco, recém-lavado pela noite que agora se afastava.
Inspirou fundo enquanto fazia o gesto característico de sacudir os cabelos alaranjados.
Ficou ali por um tempo, o olhar perdido no fundo da planície, a ver a manhã nascer.
Sabia-lhe bem o silêncio. Parecia que a vida estava suspensa, ainda adormecida. Menos os pássaros. Esses, andavam numa dança enlouquecida, na celebração do novo dia, um ritual de voos e trinados que só eles entendiam. E ela. Há já muito tempo que os pássaros faziam parte das suas manhãs. Ela e eles em comunhão como se o mundo lhes pertencesse, naqueles breves minutos que antecedem o bulício de janelas a abrir, carros a passar e pessoas a sair apressadas dos prédios, em direcção a parte incerta. Desejou ser pássaro, para poder, também ela, voar para longe do ruído, do fumo dos carros, das conversas apressadas. Para ser livre. E pousar nos ramos da árvore que escolhesse. E lavar-se nos beirais, molhados da geada nocturna. E fugir, fugir...
Foi aí que o cheiro a café a trouxe de volta à realidade. Vestiu-se devagar, depois de um banho rápido e esperou a batida na porta.
Como em todos os dias desses últimos anos, a enfermeira de serviço entrou trazendo a bandeja com os medicamentos e saúdou-a com um sorriso:
-Então, sempre a primeira acordar como é hábito. Vamos lá ver como está hoje essa tensão...
Por entre as grades da janela do sanatório os pássaros começavam a afastar-se...até ao dia seguinte.
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