22.6.04

Cadernos de Viagem II

Já quase tinha esquecido a cor amarelo-dourado dos campos, nesta época do ano, quando se caminha para Sul.

Uns acabados de ceifar, outros, muitos, em pousio forçado, cujo término é difícil de prever, em resultado das quotas de produção impostas pelas normas comunitárias...
Reduzidos à mera função de produzir forragens para o gado esparso que por ali se passeia vagarosamente.
Um desperdício, um sentimento de abandono, num Alentejo que já foi "o celeiro da Nação". E depois vamos ver a percentagem de produtos alimentares que importamos de países nossos parceiros de comunidade...

Mas este post não ia falar destas coisas.
Este post ia falar do azul do céu, da cor da paisagem em diferentes tonalidades de amarelo, passando para um verde tímido, à medida que os quilómetros de estrada nos aproximavam do mar.
Dos sobreiros orgulhosos, ainda muitos felizmente, que pontilham os campos planos, oferecendo a sua sombra a quem com eles partilha o estio, e das oliveiras centenárias, de troncos retorcidos, e, ainda assim, imponentes.
Companheiras de pastores errantes, raros hoje, mas que em tempos a elas se encostavam, aproveitando o tempo de pasto das ovelhas, vigiadas pelo olhar atento do fiel guardador de rebanhos, para tirar uma bucha de pão escuro, acompanhado de azeitonas pretas e, com sorte, um pedaço de toucinho.

Ia falar desta paisagem árida, de certa forma agreste pela secura que transmite, pela ameaça do Suão que tudo queima, mas ao mesmo tempo grandiosa, orgulhosa de ser terra fértil, de barros vermelhos que, com um pouco de água apenas, produz quase tudo o que o homem quiser.

Mas também ia contar do inesperado presente ao desfazer uma curva mais acentuada do caminho: Um tronco seco onde, no topo, um ninho abrigava três cegonhas brancas, espécie cada vez mais rara e ameaçada e que, um dia, acabará por desaparecer de todo.

E, mais à frente, um bando de pássaros não identificados, que pareciam, no seu voo, querer indicar o caminho ao carro que se movia velozmente, em busca do mar.

No fundo este post queria era falar de uma terra, vista pelos olhos de quem a ama, nela nasceu e viveu e a ela regressou.
Para que outros que não vivem nela, consigam através deste olhar, perceber toda a beleza que ela encerra.
Sim, era isto.





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