de um problema.
Com os vizinhos. Ou melhor, padeço de vários problemas, um dos quais com os vizinhos.
O outro é com o meu mau-feitio. Mas eu juro, juro que não tenho a culpa de ter vizinhos que são ex-agentes infiltrados do KGB que, quando a coisa começou a dar para o torto lá do lado detrás do muro se passaram todos, fuínhas, cagarolas, para a CIA. Palavra. Até tenho impressão que alguns deles apareceram como figurantes naquelas séries muito giras que dão sobre agentes secretos e que têm como actriz principal uma moçoila toda robusta. Ora é claro que os meus vizinhos apareciam no papel daquele gajo da limpeza, barrigudo e baixinho que passa a empurrar uma esfregona, lá atrás, ao fundo do écran enquanto decorre um momento com menor acção do que o habitual, do género, a heroína e o herói consultam uma complicada base de dados de um computador último modelo todo XPTO, ao mesmo tempo que aproveitam para proporcionar aquela cena chapa 31, tensão-antecipação-olhar-tórrido-agora-é-que-ele-a-beija-oh-não-ainda-não-foi-desta-só-daqui-a-mais-500-capítulos-estes-cabrões-sabem-na-toda-se-isto-não-é-marketing, e o resto que nós pensamos enquanto debulhamos um balde de picocas.
Os meus vizinhos são assim. Estou até desconfiada que as suas casas, pelas quais eu tenho obrigatoriamente que passar até chegar ao meu humilde segundo andar, estão equipadas com tudo quanto é o modelo mais recente de complicados sistemas de radar, sonar, o diabo a quatro, detecção de movimento, fumo, cheiros, visão nocturna, alarmes contra presença humana ou animal incluindo crianças. Só pode.
Antes, morava num prédio que era um sossego. Entrava e saía na boa, dez vezes ao dia se necessário e, só em raras ocasiões, com periodicididade aí mensal ou até bimensal, me cruzava com um vizinho que eu sabia vagamente habitar o 3º esq. Nessas alturas, até dava vontade de fazer uma festa e puxar conversa daquelas de chacha, Ora muito bom-dia! atão o vizinho já viu que o carteiro troca as suas cartas com as minhas? palavra de honra, ou das outras, típicas, Boas Tardes, como está o senhor? que este calor não se suporta e se não fizesse tanto sol era capaz de chover , e assim. Vocês sabem.
Estes não. Aguardam pacientemente que o meu carro entre no cimo da rua que desemboca no meu prédio. Os alarmes disparam. Colocam os auscultadores, enquanto seguem pelos monitores os meus esforços para estacionar, no espaço mínimo que ELES deixaram entre dois carros. Ao mesmo tempo que saio do carro e começo a tirar os sacos das compras para o chão, os fuínhas preparam o disfarce que é, no caso delas, rolos na cabeça e camisa de dormir de gola alta e, no deles, calças descaídas pela barriga proeminente e tronco nú. Ligam os gravadores e as mini-câmaras de filmar que têm embutidas nos vasos das plantas e na tampa do contador da luz por cima das caixas de correio para, no preciso momento em que eu, esbaforida, descabelada, furiosa, a pingar em suor debaixo dos abrasadores 41 graus das três horas da tarde - mas o que é que esta gente TODA faz em casa às três da tarde? não trabalham seus cornos? - tentando equilibrar, numa mão 10 sacos de compras e na outra a mala, mais todos os objectos imagináveis que podem sair de um carro, como bonecos de criança, peças de roupa com a mola ainda agarrada e pacotes de batatas fritas e a chave que, claro, cai no chão e me obriga a uma ginástica acrobática para a conseguir apanhar, que ainda me deixa mais vermelha do que estava e a cuspir fogo por entredentes para, dizia eu, aparecerem à janela - no caso dele - com um simpático e sorridente boa tarde já viu, este calor e tal?, que me arranca um grunhido acompanhado de um esgar que pretende ser um sorriso, que também não posso ser mal-educada, tenho uma reputação a defender e essas coisas.
O pior acontece mal piso a entrada do prédio e o inevitável ruído de abertura da porta do r/c se faz ouvir para o espécime feminino irromper, nos preparos que já referi, com um atarefado ai vizinha, este dia, o calor, veja lá, ainda não tinha saído de casa hoje e blá, blá, que quase me arranca uma resposta de pois então volte para lá e não me fecunde o juízo não vê que só quero entrar em casa, jogar-me para cima de um sofá e esquecer que vocês existem?, substituido por um lacónico é verdade, o calor, enquanto disparo em direcção às escadas para quase embater no do andar seguinte, que vem a descer nesse preciso momento com o seu saco de lixo numa mão e o caniche na outra.
Chego ao meu patamar, não sem antes ouvir o agradável ruído de novo, o qual precede a vizinha da frente mais a vassoura porque aquela é a hora exacta e inultrapassável para varrer as escadas.
Quando finalmente fecho a minha porta do lado de dentro, resistindo ao impulso de o fazer com o maior estrondo possível, tenho a certeza que os gajos se recolhem todos e comunicam entre si por um sistema qualquer através da rede de esgotos ou do algeroz, dizendo com satisfação "Missão cumprida".
Até ao dia seguinte...
Mas desta vez despisto-os, eles que se fiquem que yo me voy, de fim-de-semana. Sempre quero ver como irão ocupar três longos dias sem saberem do meu paradeiro...
Com os vizinhos. Ou melhor, padeço de vários problemas, um dos quais com os vizinhos.
O outro é com o meu mau-feitio. Mas eu juro, juro que não tenho a culpa de ter vizinhos que são ex-agentes infiltrados do KGB que, quando a coisa começou a dar para o torto lá do lado detrás do muro se passaram todos, fuínhas, cagarolas, para a CIA. Palavra. Até tenho impressão que alguns deles apareceram como figurantes naquelas séries muito giras que dão sobre agentes secretos e que têm como actriz principal uma moçoila toda robusta. Ora é claro que os meus vizinhos apareciam no papel daquele gajo da limpeza, barrigudo e baixinho que passa a empurrar uma esfregona, lá atrás, ao fundo do écran enquanto decorre um momento com menor acção do que o habitual, do género, a heroína e o herói consultam uma complicada base de dados de um computador último modelo todo XPTO, ao mesmo tempo que aproveitam para proporcionar aquela cena chapa 31, tensão-antecipação-olhar-tórrido-agora-é-que-ele-a-beija-oh-não-ainda-não-foi-desta-só-daqui-a-mais-500-capítulos-estes-cabrões-sabem-na-toda-se-isto-não-é-marketing, e o resto que nós pensamos enquanto debulhamos um balde de picocas.
Os meus vizinhos são assim. Estou até desconfiada que as suas casas, pelas quais eu tenho obrigatoriamente que passar até chegar ao meu humilde segundo andar, estão equipadas com tudo quanto é o modelo mais recente de complicados sistemas de radar, sonar, o diabo a quatro, detecção de movimento, fumo, cheiros, visão nocturna, alarmes contra presença humana ou animal incluindo crianças. Só pode.
Antes, morava num prédio que era um sossego. Entrava e saía na boa, dez vezes ao dia se necessário e, só em raras ocasiões, com periodicididade aí mensal ou até bimensal, me cruzava com um vizinho que eu sabia vagamente habitar o 3º esq. Nessas alturas, até dava vontade de fazer uma festa e puxar conversa daquelas de chacha, Ora muito bom-dia! atão o vizinho já viu que o carteiro troca as suas cartas com as minhas? palavra de honra, ou das outras, típicas, Boas Tardes, como está o senhor? que este calor não se suporta e se não fizesse tanto sol era capaz de chover , e assim. Vocês sabem.
Estes não. Aguardam pacientemente que o meu carro entre no cimo da rua que desemboca no meu prédio. Os alarmes disparam. Colocam os auscultadores, enquanto seguem pelos monitores os meus esforços para estacionar, no espaço mínimo que ELES deixaram entre dois carros. Ao mesmo tempo que saio do carro e começo a tirar os sacos das compras para o chão, os fuínhas preparam o disfarce que é, no caso delas, rolos na cabeça e camisa de dormir de gola alta e, no deles, calças descaídas pela barriga proeminente e tronco nú. Ligam os gravadores e as mini-câmaras de filmar que têm embutidas nos vasos das plantas e na tampa do contador da luz por cima das caixas de correio para, no preciso momento em que eu, esbaforida, descabelada, furiosa, a pingar em suor debaixo dos abrasadores 41 graus das três horas da tarde - mas o que é que esta gente TODA faz em casa às três da tarde? não trabalham seus cornos? - tentando equilibrar, numa mão 10 sacos de compras e na outra a mala, mais todos os objectos imagináveis que podem sair de um carro, como bonecos de criança, peças de roupa com a mola ainda agarrada e pacotes de batatas fritas e a chave que, claro, cai no chão e me obriga a uma ginástica acrobática para a conseguir apanhar, que ainda me deixa mais vermelha do que estava e a cuspir fogo por entredentes para, dizia eu, aparecerem à janela - no caso dele - com um simpático e sorridente boa tarde já viu, este calor e tal?, que me arranca um grunhido acompanhado de um esgar que pretende ser um sorriso, que também não posso ser mal-educada, tenho uma reputação a defender e essas coisas.
O pior acontece mal piso a entrada do prédio e o inevitável ruído de abertura da porta do r/c se faz ouvir para o espécime feminino irromper, nos preparos que já referi, com um atarefado ai vizinha, este dia, o calor, veja lá, ainda não tinha saído de casa hoje e blá, blá, que quase me arranca uma resposta de pois então volte para lá e não me fecunde o juízo não vê que só quero entrar em casa, jogar-me para cima de um sofá e esquecer que vocês existem?, substituido por um lacónico é verdade, o calor, enquanto disparo em direcção às escadas para quase embater no do andar seguinte, que vem a descer nesse preciso momento com o seu saco de lixo numa mão e o caniche na outra.
Chego ao meu patamar, não sem antes ouvir o agradável ruído de novo, o qual precede a vizinha da frente mais a vassoura porque aquela é a hora exacta e inultrapassável para varrer as escadas.
Quando finalmente fecho a minha porta do lado de dentro, resistindo ao impulso de o fazer com o maior estrondo possível, tenho a certeza que os gajos se recolhem todos e comunicam entre si por um sistema qualquer através da rede de esgotos ou do algeroz, dizendo com satisfação "Missão cumprida".
Até ao dia seguinte...
Mas desta vez despisto-os, eles que se fiquem que yo me voy, de fim-de-semana. Sempre quero ver como irão ocupar três longos dias sem saberem do meu paradeiro...
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