9.6.05

Existem

determinadas coisas no processo das nossas existências que, pela grandeza que detêm, relativizam tudo o resto.
O Nascimento e a Morte. A Felicidade. O Amor.
O Tempo.
Não temos nunca tempo suficiente para alcançar tudo o que desejámos e sonhámos. Independentemente de sobrevivermos até para lá dos 60 ou 70 anos, nessa altura já é um tempo de contagem decrescente, a recta final para o fim, que sabemos inevitável e inadiável. Dispenso as disssertações dos teóricos, que não me convencem que se vive, nessas idades, da mesma forma que o fazemos aos 20 ou aos 40 anos. Com o entusiasmo da descoberta ou a paixão do amadurecimento dessa descoberta.
Não me vejo a envelhecer e a marcar passo para o término do meu ciclo de validade no planeta. Não me vejo sem frescura, sem brilho nos olhos, com a pele enrugada, com hora marcada para o fim. É difícil lidar com a imagem de tamanhas mudanças na pessoa que somos, pelo menos agora, que faço mentalmente esse exercício. Quem sabe, a percepção que tenho agora que antevejo o cenário, não se transforme radicalmente, um dia em que o esteja a viver na prática. Quero acreditar que sim. Talvez a aceitação dos factos faça parte da capacidade de sobreviver, que todo o ser humano tem que ter para percorrer este ciclo. Com princípio, meio e fim, como todos os ciclos.

Não sei bem se isto é uma conversa coerente para quem lê.
Esta é uma das dificuldades deste mundo virtual, entre tantas outras que muitos de nós tentamos analisar, pelo menos os que se preocupam com a forma de estar aqui, os que procuram que seja a mais correcta, a todos os níveis. Tal como o fazemos na vida.
Nem sempre o conseguimos. Não porque não tentemos, ou não seja essa a nossa intenção sincera e mesmo que até nos esforcemos conscientemente para o conseguir. Mas, muitas vezes, por uma diversidade de causas que não dominamos, não somos capazes de alcançar esse desígnio a que nos propomos.
Das causas possíveis, a nossa particular forma de ser é uma das mais determinantes, porque há que ter em conta que os outros não a conhecem, nem poderiam, porque não fazem idéia de quem somos por detrás desta folha com letras, do que nos formou como pessoas, o que já vivemos e fomos felizes ou sofremos.
Depois, há a particular maneira de ser dos outros, que nos lêem. E que o fazem, naturalmente, à luz dos seus próprios pressupostos, valores e forma de estar na vida. O que significa que, uma frase que escrevo com uma intenção clara para mim, e que pode até passar pelo facto de não ter intenção rigorosamente nenhuma, pode ser e vai ser interpretada pelas várias pessoas que a lêem e descodificam, com um conjunto de significados vasto e distinto. Tantos quantos o número de vezes que fôr lida.
Se, do ponto de vista da interacção que procuramos e que tanto tenho elogiado como virtude da blogosfera, e do enriquecimento que proporciona a partilha e debate de idéias com pessoas diferentes, essas diferentes interpretações são valiosas, já não o são tanto quando servem para alguém formar uma idéia do que somos enquanto pessoa. Porque, se calhar, o que escrevemos, em cada momento específico que por aqui vamos registando, não constitui um retrato de nós assim tão fidedigno. Pela liberdade que representa este meio, implica que o usemos a nosso bel-prazer. Para desabafos ou histórias da carochinha. Para descrições de episódios nossos ou para invenções criativas mais ou menos conseguidas. Para pintar de azul ou cor-de-rosa ou preto conforme o estado de espírito. Para pôr música ou dá-la, para oferecer retratos feitos por nós ou escolhidos de um site perdido no meio do espaço virtual e que descobrimos por acaso. Uma infinidade de possibilidades e combinações que escolhemos de acordo com o que pretendemos fazer ou, simplesmente, com o que nos der na bolha apenas porque sim. E isso resulta numa miscelânea do nosso Eu verdadeiro, com o Eu que gostaríamos de ser, ou o Eu que acreditamos convictamente ser até nos provarem o contrário. Tudo salpicado com pedaços de nadas que nos apareceram sem razão nenhuma, por entre cada coisa que escrevemos.
Fazer a triagem disto não é tarefa fácil, mesmo ao mais experiente psicanalista ou conhecedor do carácter humano. É um trabalho moroso, que requer persistência mas, sobretudo, flexibilidade de ajustar interpretações ou pistas que apontam, à primeira vista num sentido e que, se olharmos mais de perto, descobrimos que são, afinal, um simples pingo de tinta, caído inadvertidamente da caneta, naquele lugar concreto. Ou seja, nada.
O Tempo (esse grande escultor) encarregar-se-á de determinar se, do trabalho de espremer todos os materiais supérfluos para obter uma matéria-prima genuína, resulta uma efectiva potencialidade de esculpir uma obra de qualidade.
O Tempo.
Conjugado com os olhos.

Talvez, neste momento, seja necessário Tempo.

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