22.6.05

Acho

que a tendência inevitável do ser humano é o uso de dois pesos e duas medidas.
Somos extraordinariamente bons a tecer complicadas teorias do comportamento e evolução da espécie, torcemos o nariz ao vizinho do lado e à sua forma escandalosamente errada - na nossa inquestionável perspectiva, óbvio - de lidar com esta ou aquela situação. Arrogamo-nos o direito de definir conceitos de atitudes correctas e incorrectas, sempre que discutimos no bar da empresa o caso do colega que chega sempre atrasado ao serviço.
E nunca sabemos virar o espelho para nós. Nem nos lembramos de todos aqueles dias em que o nosso filho fez uma birra à hora de levantar e chegamos esbaforidos ao escritório (e à escola!) meia hora depois de toda a gente. Ou os dias em que ligámos ao chefe a pedir a manhã porque há reunião de pais. Ou aquele dia em que, na ronha depois de uma noitada de copos, acabámos por nem ir trabalhar depois da recusa da cabeça em sair da almofada.
Nunca nos lembramos disto quando desancamos sem dó nem piedade a filha da vizinha que andou a meter-se com um homem casado, ou o primo da mulher do colega do patrão que se juntou com o namorado gay.
O peso que serve para medir aquele que achamos ser o comportamento correcto do outro, já não se aplica quando de um comportamento nosso se trata. Aí talvez seja de usar aquele outro peso, o que tem menos 5 gramas. Ou se calhar o outro ainda mais leve, a nossa balança de alta precisão é muito sensível, há que equilibrá-la com o mínimo de movimentos, com gestos suaves de grande beleza estética. Como num bailado entre cisnes.

Ao longo da vida tenho-me esforçado por não ser demasiado crítica com os outros. Sou do género de deixar passar ao lado a última notícia estrondosa que corre a boca de toda a comunidade, para vir a sabê-la, semanas depois, por alguém que, ao comentar depara com o meu ar de espanto e me atira um "és sempre a mesma, não apanhas nem uma".
Quando tenho que confrontar alguém que depende de mim, em termos profissionais, por uma falha qualquer, inverto sempre a situação, começando por salientar o que de bom essa pessoa tem feito, valorizando a parte positiva para só depois lhe chamar a atenção para as partes menos boas e que acabam por o prejudicar primeiro a ele e depois a todos os que com ele trabalham. Costuma resultar. Não sou apologista de "sacar dos galões", as posições de poder são relativas e efémeras e nada nos garante que, noutra altura, não venhamos nós a estar na posição de subordinados.
Isto porque tenho consciência dos meus próprios erros, da possibilidade sempre presente de, um dia, por um conjunto de contingências perfeitamente justificáveis nessa altura, vir a praticar o mesmo acto que critiquei noutra pessoa.
Não quer isto dizer que eu é que sou o máximo e estou a pôr-me aqui um pedestal.
Tenho vertigens e estar lá no alto era capaz de ser desconfortável comó caneco.
Não, pelo contrário.
Quero apenas dizer que sou humana. Como todos nós.

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