1.2.05

Ao alvorecer



Há muito, muito tempo que não via o nascer do sol.
Sair de casa pelas 6 horas da manhã é algo de místico.
É aquela hora em o mundo ainda dorme mas os pássaros já se remexem, inquietos, na folhagem escura das árvores, à espera do momento exacto de irromper em explosão de voos e de vida.
Percorro a autoestrada com as luzes ligadas, rasgando o escuro dessa noite que está quase cumprir o seu ciclo. Não se distingue muito mais para além de uns quantos metros para o interior de cada berma, enquanto o carro devora quilómetros sem parar.
Sou apanhada pelas mudanças em plena autoestrada.
Subtil, de início, uma claridade ténue lá mesmo ao fundo, assinala a linha, finíssima, do horizonte. A linha cresce, sobe aos poucos, o azul claro, quase branco, a romper o escuro, de um lado da estrada o dia que nasce, do outro a noite que se despede.
Uma poagem branca e fina cobre o chão, junto aos troncos das árvores. Milhões de gotículas de orvalho, água condensada a pairar a poucos metros do solo, como uma cortina de fumo, daquelas que se usam nos espectáculos, só que aqui, o artista em palco é a Natureza.
A parte mais bonita é quando o sol se aparece, apenas um pouco, menino tímido a mostrar uma pontinha do seu esplendor. O fogo a tingir lentamente aquele azul cada vez menos escuro. O mundo aparece enfim, com a cara lavada, o ar fresco, frio da manhã a entrar pela janela do carro e por todos os poros. Encho o peito de ar.
Digo-lhe bom-dia sol, obrigado por nasceres, aqui te presto humilde tributo, eu que não sou ninguém.

Ele agradece...quando olho ao fim de uns minutos, pelo espelho retrovisor uma enorme bola vermelha, de contornos precisos e perfeitos, incendeia o céu, subitamente azul turquesa...

Começa um novo dia.

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