27.5.05

Sopra

só uma breve aragem.
Ondulam as espigas inexistentes, apenas na minha memória.
A modorra da hora em que o sol vai alto, espalha-se em nós e leva-nos para longe o pensar, como quando, em tempos idos, a ceifeira limpava as gotas de suor que escorriam por debaixo do chapéu e do lenço preto que atava em redor do pescoço. E parava de cantar.
Apetece encostar à sombra da azinheira e deixar que a tarde caia e refresque o campo calcinado.
Mordiscando um caule de erva e ouvindo apenas o som do vento nos ramos das àrvores e o piar de um pássaro mais incauto que antecipou o entardecer.
Apetece deixar o tempo correr até que chegue a hora que nos falta, a hora de poisar a foice, lavar a cara na fonte, vestir o vestido de chita e deixar que o rapaz mais garboso da aldeia nos tire para dançar.
Até o dia nascer.

Estou longe do mar e os campos não têm verde que me valha.


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