3.5.05

É

uma foto antiga. A preto e branco. Não que seja assim tão antiga que não houvesse possibilidade de ter sido tirada com cores. O preto e branco foi uma opção estética. A assinatura do fotógrafo, no canto inferior direito, relembra a sua tendência para a produção artística, a criação de coisas belas - P Lopes.
O papel está envelhecido, o cinza, comido pelo tempo, já se transformou, em gradientes de cor que vão quase até ao branco sujo. Amarelado.
Tem um chapéu preto de abas largas na cabeça e um rosto de menina.
A foto foi tirada enquanto se encostava a um espelho que, atrás, reflete o que se encontrava na parede à sua frente: uma moldura vazia, sem tela ao meio. Só um rectângulo de madeira trabalhada. No centro do vazio, desenhado pelas ripas de madeira, um busto de homem. Antigo, uma estátua de um cavalheiro qualquer do sec. XVIII ou XIX, nota-se pela representação do vestuário esculpido, o laço a apertar o colarinho alto, a jaqueta por cima. Recorda-se de uma moldura siamesa, noutra parede, essa com o busto feminino, da mesma época.
Sorri para a câmara enquanto segura com ambas as mãos as abas do chapéu. Em pose de conquistadora do pico da mais alta montanha.
Parece querer dizer, fixem este momento, não esqueçam, X esteve aqui, como se faz nas portas dos wcs. Como se, captando aquele momento e congelando-o, se pudesse parar a história ali, naquele dia e naquele local. E ali fosse possível regressar sempre que a vontade o sugerisse.
Teria uns 20 e poucos anos, não mais. O rosto afilado, fresco, os cabelos compridos, recém-aparados, o olhar semicerrado, por algum efeito secundário do Four Roses. Deverá ter sido uma noite igual a tantas outras. Quando ainda era possível subir de madrugada a Rua da Rosa sem ser assaltado, para apanhar um táxi na D. Pedro V ou então amanhecer numa mercearia do Bairro, a comprar pão e sumos para o pequeno-almoço, que se comia com gosto, sentados num qualquer degrau de uma loja de arte moderna. Era o tempo de dar os bons dias aos moradores que, convivendo com aquela fauna há tanto tempo, os consideravam como mais um vizinho.
Mas voltemos à fotografia. O espelho não reflecte mais nada nem ninguém. Poderia estar alguém a passar por debaixo da moldura com o busto de homem, mas não. Era apenas ela e o espelho. Naquele momento que parou o tempo. Provávelmente teria estado a dançar, ritmos tropicais, um copo de bourbon numa mão, noutra o inevitável cigarro. Teria, talvez, pensado muito nessa noite. A tradicional mania das introspecções, dos recém-saídos da adolescência, que ainda perdem tempo a tentar entender o mundo. Que fazia ali? Para onde desejaria ir? Estaria realizada, feliz? O sorriso parece indicar que sim mas sabemos que é fácil pintar sorrisos num rosto de menina como aquele. Já nos olhos...mas a fotografia está velha e não é perceptível esse lampejo, no brilho semi-apagado daquele olhar.
Há, no entanto, algo que se derrama dele com nitidez, um quase grito, a ausência de paixão. Transpira do retrato para a pele de quem o observa com atenção, uma sensação quase física, aquele não é um olhar apaixonado. Não tem a força dos que se sentem capazes de virar o mundo do avesso, de galgar quilómetros de estrada para passar umas horas nos braços quentes de alguém muito amado, de enfrentar papões e dragões cuspidores de fogo, por uns minutos de felicidade.
Não reflecte o infinito e a eternidade, o espanto, a grandeza dos espaços, os rios que abraçam mares, o mistério das florestas encantadas. Falta-lhe a cor da auroras boreais, não esconde a jura secreta dos amantes.

O fotógrafo terá tentado prender a frescura e a juventude naquele papel em tons sépia. Registar para sempre o sopro de ar que nesse momento embaciaria a lente e o rosado daquela face.
Só não conseguiu inventar o brilho do Amor onde ele não existia.
E ficou apenas mais uma rapariga, a sorrir, encostada a um espelho, num passado sem data numa noite de Lisboa.

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