Do outro lado do muro estava o mundo. E nunca o tinha atravessado. Nunca a coragem suficiente para o subir a pulso, um pé aqui, numa saliência da pedra coberta de musgo verde, outro mais acima, os dedos bem seguros numa ranhura, a força de braços, um impulso e enfim, o topo, a parede plana e o horizonte do outro lado, a perder de vista. Não que soubesse como era, mas imaginava que seria assim: a grandeza infinita e azul. Parecia-lhe que haveria de ser azul não sabia bem porquê, talvez porque o seu olhar apenas conseguia ver o céu e essa cor e por isso imaginava que ela, do lado de lá, se estenderia a tudo o resto.
Sonhava todos os dias com o momento em que haveria de pousar os braços no topo do muro e deixar-se ficar, em êxtase, em contemplação. Talvez depois se sentasse. As pernas penduradas já do lado de lá, a balançar, as mãos no regaço ou estendidas para o céu, tão altas que quase tocariam as nuvens. Aqueles pedaços brancos de algodão, que às vezes tentava alcançar subindo para cima de um monte de terra. Ficaria ali muito tempo. Sentada, a recuperar o fôlego, à espera que o coração parasse de bater em galope louco, resultado de um misto do esforço dispendido na subida e da ansiedade que a consumia. Dividida entre o medo do desconhecido, e o desejo de desvendar os seus mistérios.
Certa vez, ousara subir para duas ou três das enormes lajes que compunham o muro, a perder de vista em direcção ao céu. Mas não mais que isso. Sabia que no dia em que se decidisse, já não haveria volta atrás. A subida teria que ser de sentido único, irreversível. Seria o dia em que deixaria de ser quem era, para passar a ser quem sempre tinha querido ser. Aquela por quem esperara toda a vida. Quieta, ali, enclausurada na arena plana delimitada pelo muro, naquele espaço à sua medida onde estava desde que se conhecia e onde, aos dias azuis se sucediam as noites e as estrelas, num calendário que ela seguia religiosamente, para nunca se esquecer de quanto tempo passara. Desconhecia tudo o que estava para além destes seus dias, do regato cristalino onde se banhava, desta espécie de redoma que lhe permitia existir com tranquilidade e segurança, contudo, sem magia.
Às vezes encostava-se às paredes de pedra fria, ao musgo fresco com cheiro de terra, fechava os olhos e deixava que despertassem todos os outros sentidos. Aspirava com deleite o aroma que adivinhava do lado de lá, a flores e a maresia, ouvia o piar aflito de um pássaro mais incauto que, por vezes, ali se prendia, sentia com a palma das suas mãos suaves a rugosidade da pedra. Colava todo o seu corpo ao muro, como se quisesse, dessa forma, abraçar o mundo que estava do outro lado. Tão próximo...
Uma noite, àquela hora em que a aurora já raia de cor-de-rosa o escuro do céu, acordou em sobressalto. Mais que o estrondo, o barulho, tinha sido o tremor no seu peito o que a havia despertado. O pressentimento.
E quando se ergueu, ainda confusa, olhando em redor, não viu o muro. O círculo de céu azul que via sobre a sua cabeça todos os dias, tinha crescido para todos os lados, rodeava-a, estendia a mão receosa ainda e tocava a imensidão. Deu alguns passos hesitantes, depois mais um e foi então que o viu. Estava ali de pé, parado, imponente como uma estátua de sal, contra o brilho do sol acabado de nascer, que a ofuscava.
Sem nada dizer, encarou-o com o seu olhar sonhador e deu-lhe a mão.
Sonhava todos os dias com o momento em que haveria de pousar os braços no topo do muro e deixar-se ficar, em êxtase, em contemplação. Talvez depois se sentasse. As pernas penduradas já do lado de lá, a balançar, as mãos no regaço ou estendidas para o céu, tão altas que quase tocariam as nuvens. Aqueles pedaços brancos de algodão, que às vezes tentava alcançar subindo para cima de um monte de terra. Ficaria ali muito tempo. Sentada, a recuperar o fôlego, à espera que o coração parasse de bater em galope louco, resultado de um misto do esforço dispendido na subida e da ansiedade que a consumia. Dividida entre o medo do desconhecido, e o desejo de desvendar os seus mistérios.
Certa vez, ousara subir para duas ou três das enormes lajes que compunham o muro, a perder de vista em direcção ao céu. Mas não mais que isso. Sabia que no dia em que se decidisse, já não haveria volta atrás. A subida teria que ser de sentido único, irreversível. Seria o dia em que deixaria de ser quem era, para passar a ser quem sempre tinha querido ser. Aquela por quem esperara toda a vida. Quieta, ali, enclausurada na arena plana delimitada pelo muro, naquele espaço à sua medida onde estava desde que se conhecia e onde, aos dias azuis se sucediam as noites e as estrelas, num calendário que ela seguia religiosamente, para nunca se esquecer de quanto tempo passara. Desconhecia tudo o que estava para além destes seus dias, do regato cristalino onde se banhava, desta espécie de redoma que lhe permitia existir com tranquilidade e segurança, contudo, sem magia.
Às vezes encostava-se às paredes de pedra fria, ao musgo fresco com cheiro de terra, fechava os olhos e deixava que despertassem todos os outros sentidos. Aspirava com deleite o aroma que adivinhava do lado de lá, a flores e a maresia, ouvia o piar aflito de um pássaro mais incauto que, por vezes, ali se prendia, sentia com a palma das suas mãos suaves a rugosidade da pedra. Colava todo o seu corpo ao muro, como se quisesse, dessa forma, abraçar o mundo que estava do outro lado. Tão próximo...
Uma noite, àquela hora em que a aurora já raia de cor-de-rosa o escuro do céu, acordou em sobressalto. Mais que o estrondo, o barulho, tinha sido o tremor no seu peito o que a havia despertado. O pressentimento.
E quando se ergueu, ainda confusa, olhando em redor, não viu o muro. O círculo de céu azul que via sobre a sua cabeça todos os dias, tinha crescido para todos os lados, rodeava-a, estendia a mão receosa ainda e tocava a imensidão. Deu alguns passos hesitantes, depois mais um e foi então que o viu. Estava ali de pé, parado, imponente como uma estátua de sal, contra o brilho do sol acabado de nascer, que a ofuscava.
Sem nada dizer, encarou-o com o seu olhar sonhador e deu-lhe a mão.
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