por vezes, as nossas memórias, como quem segue pelos trilhos marcados no caminho que desbrava uma floresta. São marcas indeléveis no percurso, que modificaram a face do arvoredo e lhe deram novo rosto, deixaram carreiros de terra batida onde antes havia mato, e ao lado do caminho o círculo de pedras onde acendemos uma fogueira para combater o frio da noite.
Ficaram por lá, essas marcas da passagem por aquele caminho, em direcção a outros.
E assim são também as memórias que temos de tempos idos, em que caminhámos por dentro de nós e nos transformámos, de jovens à descoberta do mundo, em adultos, pessoas mais ricas e plenas de vivências bonitas.
Muitos anos mais tarde, por uma picardia do destino, cruzamo-nos com outras pessoas que, nessa altura, provávelmente, se sentaram de costas viradas para nós na ponta de um mesmo banco corrido. Ou se debruçaram na mesma balaustrada de madeira de uma certa discoteca junto ao mar, talvez a escassos metros de distância, na varanda sobre os rochedos iluminados, onde as vagas morriam docemente em noites de lua-cheia...Há caminhos escritos nas estrelas, sem qualquer dúvida. E o Seagull foi um dos vários locais marcantes da minha juventude, nos loucos anos 80. Tal como o Jamaica e o Tokyo, ou os bolos quentes da padaria da Praça do Chile, numa qualquer das alvoradas esfomeadas que nos encontravam à saída de mais uma noite inesquecível.
São registos que não é possível esquecer, responsáveis pelo que somos hoje como pessoas. Foram momentos de sorver a vida em todo o seu esplendor, de criar laços, de desenvolver sentimentos de pertença e de partilha. Quantas vezes nos teremos cruzado, nas filas que esperavam pela saída dos tabuleiros de pastéis de nata e bolas de berlim fumegantes, a espalhar o seu doce aroma pelas avenidas envoltas na humidade da madrugada? Quantas noites no Cais do Sodré, com Jim Morrison e Riders on the Storm nos ouvidos e uma superbock na mão, escadas que um desce e outro sobe, a caminho dos lavabos?
E, no entanto, hoje, aqui estamos nós. Capazes dos mesmos actos loucos e irrefletidos desse tempo.
Com a mesma irreverência desses tempos de cabelos compridos e vestes negras. Em que sonhávamos ser jornalistas, antropólogos no meio de uma tribo perdida ou artistas de circo.
Eis-nos, no adro de uma pequena igreja branca com barras azuis, numa qualquer localidade perdida do interior, numa tarde soalheira de Primavera.
Nos olhos, o mistério de uma chispa que afinal não tem idade. Nas mãos abertas, a química complexa, como se fosse o magnetismo de um metal raro. No peito e nos corações, o esvoaçar de asas que, só quem sabe o valor das pequenas coisas consegue sentir.
Hoje, os locais são outros, já quase não há florestas por desbravar, a padaria do Chile poderá ter fechado. Mas a força que move os seres especiais, essa, não morre nunca.
Com a mesma irreverência desses tempos de cabelos compridos e vestes negras. Em que sonhávamos ser jornalistas, antropólogos no meio de uma tribo perdida ou artistas de circo.
Eis-nos, no adro de uma pequena igreja branca com barras azuis, numa qualquer localidade perdida do interior, numa tarde soalheira de Primavera.
Nos olhos, o mistério de uma chispa que afinal não tem idade. Nas mãos abertas, a química complexa, como se fosse o magnetismo de um metal raro. No peito e nos corações, o esvoaçar de asas que, só quem sabe o valor das pequenas coisas consegue sentir.
Hoje, os locais são outros, já quase não há florestas por desbravar, a padaria do Chile poderá ter fechado. Mas a força que move os seres especiais, essa, não morre nunca.
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