12.9.04

O dia

não seria diferente de todos os anteriores. Duche, água quente a escorrer pelo corpo para afugentar de vez o sono e os medos. De quê? De tudo e de nada em particular. A roupa formal, inerente às tarefas do dia, o relógio Gucci de aros de metal, única peça de acessório a que, geralmente, se permitia. O perfume, sempre. Fresco mas, ao mesmo tempo, desprendendo alguma sensualidade, à medida que passam as horas e a nota de fundo permanece enquanto o resto se evapora. Olhou-se no espelho e a imagem reflectida não lhe desagradou. Tentou imaginar como apareceria essa imagem a outros olhos. Os únicos que importavam.
Uma ponta de insegurança não deixou que fizesse um juízo isento. Sabia do que lhe diziam outros, do elogio verbalizado ou apenas pressentido no modo de a olharem com ar apreciador. Mas nada disso contava. O olhar que queria que permanecesse estava ausente, quase sempre, desse quotidiano. Saíu para o ar fresco da manhã, colocando os óculos escuros.
O café do costume, o telemóvel a iniciar a rotina normal, o jornal folheado com distracção.
E a presença indelével de outros momentos, naquele mesmo lugar, de risos e confidências, de um calor morno no peito, agora oprimido por um peso indefinido e persistente.
Passara já muito tempo. Tempo demasiado para manter uma expectativa. Os sonhos também precisam de alimento ou então enfraquecem, definham aos poucos como uma flor sem àgua.
O olhar claro perdeu-se em direcção à porta do café.
O dia não seria muito diferente de todos os anteriores.

Mais um re-post da Cortina e que se mantém, infelizmente, muito actual...

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