ou se a magia será para todos...
-Venham todos! Venham! É entrar, é entrar! O menino e a menina. O espectáculo vai começar! Venham ver os palhaços, os cães e gatos amestrados, a mulher barbada...É entrar! É entrar!!
E a malta lá foi, obedientes, com os ouvidos a estoirar da potente voz do "Director" e mais os apitos de um microfone fanhoso com o volume no máximo...
O circo cheio, a Festa de Natal para as crianças dos funcionários de uma entidade qualquer. Cheiro a pipocas a aguçar o apetite - mãe compra! e os pacotinhos nas mãos dos meninos, só de alguns...
Eram muitos, os meninos. Com as mães, os pais, outros com as avós, outros, ainda, com as irmãs mais velhas, meninas-mulheres, pouco mais altas que a minha cintura a tomar conta de um bando de irmãos por ordem descendente de tamanho, até ao último, que mal sabia andar mas acompanhava os demais, mercê de um qualquer instinto que carregamos em nós desde que nascemos e nos faz saber sermos pertença daquele grupo, daquela manada em particular e não de outra qualquer.
A magia do circo no ar, na música ambiente, muito alta para parecermos muitos, na equilibrista Vanessa, no malabarista António, nos animais exóticos (um camelo, dois cavalos e um pónei, que por sua vez serviram para, no intervalo, a família circense arrecadar mais uns euros, são duas voltas à pista, venham todos, meninos e meninas, venham, e eles foram...mas só alguns). A magia no brilho das lantejoulas do fato da trapezista Glória, tão corajosa, lá no alto, sem rede, a voar, voar...como alguns meninos gostariam de poder...voar.
As luzes, os brilhos, o maior de todos no olhar daquelas crianças, todas, por momentos (breves, muito breves) iguais, no encantamento com que olhavam para o alto, até os pescoços doerem de tanto admirar as voltas da Glória, tão linda...ou no gosto com que riram das asneiras dos palhaços - quem te mandou ser Parvo? Toma!, volta já aqui! toma!, numa ficção em que um é superior ao outro e o outro faz de conta que é palerma mas está é a comer por parvo o que lhe quer bater e nunca consegue acertar. Tão parecida com a realidade...
A magia a esgotar-se no momento em que as luzes se apagam e a irmã recolhe os pequeninos todos, com modos de mulher, de mãe, com modos de enfado por um papel que não lhe devia competir, com empurrões bruscos e muito pouco afecto, com uma palmada na cabeça do que ficou para trás porque a bota que calçava, sem cordões, lhe saiu do pé, Outra vez! és mesmo parvo!, não, não é ficção mas a vida de muitas famílias que hoje ali estavam e que, depois do maior espectáculo do mundo, recolheram de novo às casas degradadas onde moram, sem pipocas, sem balões e sem terem dado uma volta no pónei. Apenas com o coração ainda cheio de cores, brilhos e gargalhadas e quente, tão quente por lembrar a Glória lá no alto, tão alto, a voar, a voar...
No circo, como na vida, a magia é efémera e é só para alguns e se me disserem que estou amarga, pergunto-vos se o Natal não é suposto simbolizar a paz, justiça, fraternidade e igualdade entre os Homens?
-Venham todos! Venham! É entrar, é entrar! O menino e a menina. O espectáculo vai começar! Venham ver os palhaços, os cães e gatos amestrados, a mulher barbada...É entrar! É entrar!!
E a malta lá foi, obedientes, com os ouvidos a estoirar da potente voz do "Director" e mais os apitos de um microfone fanhoso com o volume no máximo...
O circo cheio, a Festa de Natal para as crianças dos funcionários de uma entidade qualquer. Cheiro a pipocas a aguçar o apetite - mãe compra! e os pacotinhos nas mãos dos meninos, só de alguns...
Eram muitos, os meninos. Com as mães, os pais, outros com as avós, outros, ainda, com as irmãs mais velhas, meninas-mulheres, pouco mais altas que a minha cintura a tomar conta de um bando de irmãos por ordem descendente de tamanho, até ao último, que mal sabia andar mas acompanhava os demais, mercê de um qualquer instinto que carregamos em nós desde que nascemos e nos faz saber sermos pertença daquele grupo, daquela manada em particular e não de outra qualquer.
A magia do circo no ar, na música ambiente, muito alta para parecermos muitos, na equilibrista Vanessa, no malabarista António, nos animais exóticos (um camelo, dois cavalos e um pónei, que por sua vez serviram para, no intervalo, a família circense arrecadar mais uns euros, são duas voltas à pista, venham todos, meninos e meninas, venham, e eles foram...mas só alguns). A magia no brilho das lantejoulas do fato da trapezista Glória, tão corajosa, lá no alto, sem rede, a voar, voar...como alguns meninos gostariam de poder...voar.
As luzes, os brilhos, o maior de todos no olhar daquelas crianças, todas, por momentos (breves, muito breves) iguais, no encantamento com que olhavam para o alto, até os pescoços doerem de tanto admirar as voltas da Glória, tão linda...ou no gosto com que riram das asneiras dos palhaços - quem te mandou ser Parvo? Toma!, volta já aqui! toma!, numa ficção em que um é superior ao outro e o outro faz de conta que é palerma mas está é a comer por parvo o que lhe quer bater e nunca consegue acertar. Tão parecida com a realidade...
A magia a esgotar-se no momento em que as luzes se apagam e a irmã recolhe os pequeninos todos, com modos de mulher, de mãe, com modos de enfado por um papel que não lhe devia competir, com empurrões bruscos e muito pouco afecto, com uma palmada na cabeça do que ficou para trás porque a bota que calçava, sem cordões, lhe saiu do pé, Outra vez! és mesmo parvo!, não, não é ficção mas a vida de muitas famílias que hoje ali estavam e que, depois do maior espectáculo do mundo, recolheram de novo às casas degradadas onde moram, sem pipocas, sem balões e sem terem dado uma volta no pónei. Apenas com o coração ainda cheio de cores, brilhos e gargalhadas e quente, tão quente por lembrar a Glória lá no alto, tão alto, a voar, a voar...
No circo, como na vida, a magia é efémera e é só para alguns e se me disserem que estou amarga, pergunto-vos se o Natal não é suposto simbolizar a paz, justiça, fraternidade e igualdade entre os Homens?
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