3.12.04

Porque me orgulho

de ser quem sou.
Título com destinatário.


As ruas quase desertas da cidade, têm neste final de tarde de Verão, um encanto especial.

É aquela hora em que o sol tinge de fogo o azul límpido do céu, antes de desaparecer aos poucos no horizonte, lá para os lados da estrada para o Penedo Gordo. Gosto de ir até aí de vez em quando, parar o carro no desvio que leva a Pisões e sair, só para ver um pôr-do-sol único e deslumbrante.
É também a hora em que uma brisa fresca começa a entrar pelas janelas do carro, trazendo aromas de terra, árvores e flores à medida que se avança pela cidade, esta hora em que os pássaros parecem enlouquecidos, ébrios de liberdade, tal é o barulho e o remoinho de asas e os voos picados.
Dou por mim a pensar em como é bela esta cidade. Na sua evolução desde há cerca de 20 anos, quando a deixei, para seguir o rumo que alguns jovens de 18 anos seguiam nessa altura: a entrada na universidade.
Não existia, nesse tempo, nenhuma construção no espaço adjacente à mata.
Havia apenas a mata e mato.
Circulando ao longo da variante, avalio o empenho e vontade necessários para fazer com que tudo aquilo nascesse. Por parte de autarcas e empresários. Com investimentos públicos e de privados, o mato deu lugar a uma zona habitacional consolidada, ao campus Universitário, um Complexo Desportivo de grande qualidade, tudo emoldurado, até final deste ano, pela extensa área verde de lazer, o Parque da Cidade, desde há muito projectada nos nossos corações e nos planos de desenvolvimento da autarquia e agora em construção ao abrigo do Programa Polis.

Aliás, era interessante que os bejenses que amam Beja tanto quanto eu (ou pelo menos alguns, que o bradam aos sete ventos, onde quer que encontrem tempo de antena, seja ele em páginas de jornal, de blogues, nas rádios locais ou no Luís da Rocha), mas mais não fazem que cultivar a maledicência, soubessem que, estes projectos e obras que, de forma acintosa e irónica criticam, estavam previstos há muito, existiam em estudos prévios e concretizar-se-iam com ou sem Polis, de forma natural, gradual, tal como aconteceu nestes anos, com todos os outros projectos que cresceram nesta cidade. Dependendo, evidentemente, da obtenção de financiamentos do Estado para poder constar em Plano de Actividades. São pequenas coisas que toda a gente devia saber. E saberia, caso se interessasse em participar na vida da cidade, lesse os documentos que são públicos, assistisse ás reuniões, em suma, procurasse informação em vez de despejar patacoadas.

É que, dá ideia que, quem pratica o desporto local da má-língua (os tais que não têm “inconfessáveis intenções políticas” mas foram candidatos às últimas eleições autárquicas, pelas forças políticas actualmente na oposição), pensa que todas estas obras nasceram de repente, do nada, que não foram discutidas, amadurecidas, desejadas, durante anos de trabalho, por aqueles, nos quais orgulhosamente me incluo, que têm sido capazes de levar a cabo a difícil tarefa que foi fazer crescer esta terra. Aqueles que entendem e aceitam legítimas discordâncias, afinal não podemos gostar todos do mesmo, mas que também sabem reconhecer de longe os que lançam mão da demagogia barata e teatral e destilam falácias sem pudor, para atingir objectivos, sejam eles quais forem.

Passo o cemitério, admiro a escultura do Jorge Vieira, a mesma que em 1964 ganhou o 1º prémio do Concurso para a valorização plástica do maciço norte da ponte sobre o Tejo, onde nunca chegaria a ser colocada pois o escultor, ao ser convidado para conceber a placa com o nome da ponte, perguntou ao Secretário de Estado do regime o dito nome e, ao saber que seria Ponte de Oliveira Salazar, virou costas e deixou-os a falar sozinhos. É claro que, a seguir, foi despedido.
Em boa hora o fez para que, 35 anos mais tarde, viesse enfim a criar esta escultura que hoje possuímos, todos os bejenses, agora valorizada pelo arranjo paisagístico da principal entrada da cidade.
Dá-me vontade de parar o carro, sentar-me um pouco num dos bancos junto à Ermida de Santo André, ou na relva fresca salpicada de “aloendros” coloridos e seguir depois, a pé, pelo “corredor” da Rua de Lisboa, até às Portas de Mértola, o circuito que será possível percorrer, logo que esteja concluído o parque subterrâneo da Avenida Miguel Fernandes.

E torno a pensar nos que bradam contra o executivo Municipal, que procurou a melhor solução para criar caminhos pedonais, com a pretensão de devolver a cidade às pessoas, de reduzir o tráfego automóvel no centro histórico, de incutir de novo o gosto, tão antigo no Alentejo, das longas caminhadas em família, ao fim da tarde, pela fresca ( na Rua António Sardinha as faixas de rodagem estão um pouco estreitas e também eu eliminaria aquele separador central que me parece desnecessário, mas já repararam como estão bonitos os passeios?).
Este executivo que concebeu a Biblioteca Municipal, trazendo-a para aquele que foi o edifício e o projecto de referência das Bibliotecas Nacionais de Leitura Pública, em 1993.
Lembrar-se-ão da biblioteca antiga, junto ao Estádio Flávio Santos onde, respeitosamente, no silêncio obrigatório do espaço, ao balcão, pedíamos ao saudoso senhor Martins que nos emprestasse o cobiçado livro dos Cinco, ali da estante, inatingível? A memória é curta e esse tempo e esse silêncio são difíceis de recordar hoje, quando, no amplo átrio de entrada da Biblioteca os livros nos dizem “Leve-me para casa” e podemos pegar-lhes, levá-los até à cafetaria e cheirá-los, saboreá-los, como ao café que ali tomamos.

O executivo que criou o sistema de transportes públicos urbanos e construiu ligações viárias entre os bairros periféricos, outrora “ilhas”, quase isoladas da cidade ou que comprou autocarros de piso rebaixado para fácil acesso de pessoas com mobilidade reduzida.
E que foi responsável pelo nascimento da AMALGA, em conjunto com mais sete municípios geridos por outras forças políticas, num verdadeiro exercício de democracia que é pôr de lado as “tricas” partidárias, em prol do desenvolvimento comum. Assim nasceu um parque ambiental considerado inovador no nosso país (seriam os maldizentes tão democráticos, estando no poder? Pela recente experiência na gestão da Associação de Municípios do Distrito de Beja, parece-me que não...).

Mas o objectivo desta crónica era dizer-vos do passeio, Domingo, ao final da tarde.
No Jardim do Bacalhau, acerco-me do Monumento ao Prisioneiro Político Desconhecido e recordo, novamente, o Jorge Vieira. O amor que tinha a esta cidade, nascido e consolidado em relações de amizade que aqui manteve até ao final.
Foi a Beja que doou posteriormente a sua obra e foi aqui, na “sua” Casa-Museu que recebeu das mãos do Presidente Jorge Sampaio a Condecoração com a Grã - Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.
Parece que o vejo, nesse dia, humilde, com os seus suspensórios vermelhos, dizendo com embaraço que não ligava muito àquelas coisas, como se achasse que precisava de se justificar por tamanho reconhecimento do seu mérito, e sorrio, passo a mão na escultura, agora acessível a toda a população que deseje admirá-la de perto e lembro-me da conversa que tive um destes dias com alguém que me dizia que, os que sempre despejam fluente verborreia contra tudo o que se faz e tudo o que não se faz, tinham, é claro, estado contra a mudança desta escultura. Não entendiam o conceito de arte urbana, a arte ao alcance da mão, literalmente. Ou simplesmente, queriam era dizer mal. Mas, sobretudo, desconheciam que fora esse o desejo do Jorge Vieira, e que os seus amigos o puderam, finalmente, concretizar.

Quase a anoitecer, passando pela obra da Noémia Cruz ( e a arte não se discute, ou se gosta ou não), no Largo de São João, observo o pormenor que a muitos passará despercebido, da simulação da sombra dos edifícios construída na calçada, em pedra mais escura, anseio pela reabertura do Pax-Júlia, espreito as obras do futuro Espaço Museológico da Rua do Sembrano e mal consigo esperar para me sentar na ampla praça que será a entrada do Museu e deixar os meus filhos brincar com os repuxos de água, projectados pelo arquitecto numa tarde de Agosto, enquanto passeava pela cidade e magicava numa solução para refrescar o ambiente sufocante que se sentia.
Sorrio a um par de namorados muito jovem que, em breve, poderá trocar as suas juras de amor eterno, passeando no alto da muralha da cidade, ao longo da Rua Capitão João Francisco de Sousa, com a planície e o pôr-de-sol como pano de fundo, num entardecer parecido com o de hoje...
E não consigo evitar uma ponta de orgulho por pertencer a esta cidade, por ter tido o privilégio de participar, modestamente, na sua construção, por saber que os seus responsáveis durante estes anos, quiseram, acima de tudo, fazer por ela o melhor que puderam e souberam. Ignoraram críticas destrutivas mas recolheram o apoio de muitas opiniões construtivas e idealizaram, discutiram, projectaram investimentos para transformar Beja numa terra onde valha a pena viver. De onde os jovens não tenham que sair para prosseguir estudos superiores. E onde possam permanecer depois de formados e contribuir para o seu progresso e desenvolvimento.
Decerto houve coisas erradas, escolhas menos conseguidas, não é de deuses iluminados
que falamos mas apenas de homens, comuns, que erram e aprendem e tornam a tentar.

Anoiteceu, entretanto. A magia, agora, é a da luz amarelada dos antigos candeeiros de parede, projectada nas calçadas de laje antiga, polida pelos tempos e pelos passos de quem cá viveu, e por cá permanece.
Apresso o passo, está quase na hora de assistir a mais uma das ofertas culturais do Município, um espectáculo de teatro.

Entro na Casa da Cultura e ainda penso, de relance, que nunca tive o prazer de ver aqui os senhores da má-língua, nem em qualquer outra das iniciativas promovidas pela Câmara Municipal de Beja. Apetece-me chamá-los, talvez se vissem com os seus olhos aquilo que criticam do “ouvi dizer”, a sua postura fosse um pouco mais inteligente.
Mas logo os esqueço…a luz baixa de intensidade, uma música suave brota do palco, escutemos, o espectáculo vai começar.

Texto publicado num jornal local, a propósito das intervenções do Programa Polis na cidade.

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