9.11.04

Caminhava

sem rumo, com passos lentos sobre as lajes seculares, que acordavam ecos nas ruas desertas àquela hora. Sem rumo, apreciando apenas o perfume da noite, uma janela antiga, os candeeiros de parede derramando a sua luz amarelada no caminho. As ruelas e becos com mais de vinte séculos tinham, áquela hora um encanto especial nunca perceptível à luz fria e crua do dia.
Deixava o pensamento voar, solto, por entre aquelas paredes de taipa, os telhados onde o musgo se formava entre as telhas, as árvores (tílias?) que desenhavam sombras fantasmagóricas no chão.
E olhava, furtivamente, para dentro de algumas janelas semiabertas, mesmo de noite, mercê de antigos hábitos de confiar, de afirmar hospitalidade, há sempre lugar para mais um, venham mais cinco, será benvindo quem vier por bem. Nunca fora de outra forma, ao longo dos tempos, em terras onde a pobreza era a lei mas apesar disso, ou talvez por isso, sempre se conseguia com engenho e arte enganar o estômago, fosse acrescentando umas fatias de pão escuro à àgua perfumada de coentros e alho, ou cozendo mais umas couves com batatas, apanhadas da horta à hora a que chegara, sem avisar, o visitante.
Olhava, por entre as cortinas de linho, sentindo-se como que a roubar pedaços daquelas vidas, onde havia luzes, e calor de lareiras acesas e sons de risos e conversas. Aspirava com sofreguidão, quase com volúpia, aromas de refeição quente acabada de colocar sobre a mesa, cheiros de azinho a queimar, café fresco que adivinhava fumegante na caneca de barro.
E caminhava. Desfiando sonhos e memórias como contas de um rosário em ladainha domingueira. Memórias de outro tempo, outras ruas e outras casas com os mesmos cheiros, os mesmos sons. Outros tempos em que, do lado de dentro, se sentava a outras mesas e sorvia o café forte, fumegante, em goles pequenos da caneca de barro e estendia as pernas para o lume e alguém lhe acariciava o cabelo, de passagem, por entre sorrisos.
Caminhava. Sem rumo.
A igreja, branca, estratégicamente iluminada por neons de um branco-amarelado. Olhou-a como quem cumprimenta um velho amigo, o coração cheio de ternura e orgulho por estar ali e aquela igreja também, testemunhas da cidade. Céus, como amava aquela cidade! Que sempre fora a sua, má mãe diriam uns, melhor madrasta, apregoariam outros, não lhe interessava, era sua e melhor que todas as outras que tinha conhecido ou aquelas que nem conseguia imaginar.
Quase no fim da rua, sem se anunciar, no desembocar de uma curva, ali estava, imponente, o castelo. Personagem de outras histórias, de batalhas e conquistas, miséria e glória, de amores e traições e sangue derramado em lavagens de honra ofendida. Sorriu-lhe, cúmplice. Os cartões que arrumara no recanto escondido junto à muralha, debaixo de uma velha oliveira, continuavam no lugar. Estendeu-os e deitou-se com as estrelas como tecto. Felizmente não chovia. Tirou do bolso do casaco esburacado uma velha fotografia amarelecida e amarrotada e ficou ali, a contemplar-se garboso e sorridente no retrato, a mulher sentada com o filho mais novo no colo. A miúda, crescida, muito séria à sua frente, as suas mãos sobre os ombros pequenos num gesto inconsciente de protecção. Adormeceu a sorrir, feliz.
Quem passou por ali naquela noite, apenas viu mais um vagabundo, velho, sujo, talvez bêbado e apressou o passo, deviando o olhar.

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