3.3.04

Alguém

me disse para escrever, como uma libertação, uma terapia. Pode ser que resulte. Pelo menos hoje. Hoje, quando nem sei sequer se tenho algo a dizer. Ou se quero.
Hoje quando sonho e idealizo o que não tenho agora, o que nem sei se quereria ter...Puta de vida que me empederniste desta forma.
Ou será que apenas criei uma fina película de desilusão e defesas? À espera de serem quebradas, uma a uma? Não sei.

Mas sei que a escrita desde sempre me acompanhou. Desde tempos imemoriais. Desde as notas de rodapé ao lado da matéria, nos cadernos das diferentes disciplinas, no liceu. Até aos pequenos cadernos que coleccionávamos, eu e a minha melhor amiga, nos tempos da faculdade, para onde derramávamos mágoas e euforias, sempre, sempre, extremos.
Costumava dizer que era de extremos (aliás, devia ser esse o nome deste blog). E continuo a achar que é isso que sou. Um ser intenso, seja qual fôr o extremo em que me encontre. Nada mau, para quem também se gaba de dizer que, ou vive intensamente, ou então não vive. Bah...tretas. Palavras, nada mais que palavras.

Não sei se quero viver intensamente. Viver intensamente cansa.
Está-se melhor acomodado, sem sentimentos que exijam mais esforço do que aquele que me habituei aos poucos a fazer para me iludir que vivo. Um dia atrás do outro. Apenas. Sem pensar no que será, daqui a algo mais longe que uma semana.

Também costumo dizer que funciono melhor sob pressão. Mais tretas. Desculpas de quem não sabe, nunca soube, ser organizada. Mas também de quem se viu forçada a encarar o dia seguinte como uma incógnita. A morte de alguém muito querido faz-nos ficar assim, acho eu. Como fazer planos se, naquele dia também os tínhamos e, de repente, num segundo, tudo mudou? Ná, não faço planos.

Por isso me tem custado tanto começar um blog. Porque não sou boa em planos, nem em compromissos.
E um blog é, de certa forma, um compromisso, acima de tudo connosco próprios, mas também, com aqueles que, por um acaso, aqui vieram parar e vão voltando.
Não sei se conseguirei honrar este compromisso. Ou sequer se quererei fazê-lo, amanhã.
Mas disseram-me para escrever, como uma libertação.
E, pelo menos hoje, parece que funcionou.

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