31.3.04

Sono

O descanso a descer sobre as minhas pernas, o meu corpo, como um rio de águas calmas e tépidas. O olhar que se nubla, desfocando aos poucos um raio de sol teimoso que entra pela fresta de uma persiana semi-cerrada.
O mundo do irreal insinua-se, devagarinho e deixo-me puxar, escorrego em direcção ao lugar de todos os sonhos, de todos os desejos, onde tudo é possível e existe. Onde o chão é de côr azul (porque é a minha favorita) e as nuvens cor-de-rosa (porque gosto de algodão doce). Onde o ar é perfumado de aromas de magia e especiarias.

E eu sou de novo criança e leve e sem matéria, porque sou só espírito. E sorrio, e rio e rio e rio. Como só as crianças sabem rir. Porque não sabem ainda o que significa carregar nas costas o peso do mundo, da vida, das muitas vidas que vivemos enquanto vivemos um dia atrás do outro. As nossas e as de outros. Porque, sendo crianças têm ainda o mundo por descobrir.
Quisera que nenhuma criança descobrisse os males do mundo...apenas o sol e o céu azul e os aromas de terra molhada e relva cortada e cães a rebolar e a ladrar e árvores e sombras e florestas sem troncos queimados. Mas com duendes e fadas escondidos nas raízes...fechar as cancelas dessa floresta encantada e nunca deixar entrar os maus.

Quem me dera acreditar em deuses para lhes pedir que não deixem morrer a inocência das crianças. Que as faz ver o mundo com a cor azul de uns olhos puros

E queria que persistisse aquela réstea que existe ainda, em cada um de nós, lá bem no fundo, escondida dentro de uma das gavetas do "Pássaro da Alma".

Agora tenho que acordar, são horas de ir deitar os miudos. Acho que lhes vou contar uma história...