Correndo o risco de estar a subir a passos largos a escada que conduz ao fim do anonimato e desagua no patamar de cima, o da exposição nua e crua, mas porque a A. pediu, aqui vai:
Era uma vez uma rodapé e um pé de página que viviam dentro de um livro, que é o lugar onde geralmente vivem os rodapés e os pés de página. Pelo menos a maioria. Uma estava na página 212 e o outro na página 213. Assim, estavam sempre juntos. Aos poucos, foram descobrindo que qualquer coisa nascia dentro deles. A princípio, não ligaram. Afinal eram amigos desde que nasceram e sempre tinham estado juntos.. Mas, um dia, alguém folheou o livro numa livraria e eles, por momentos, ficaram separados. E foi nesse instante em que sentiram a falta um do outro que descobriram o amor. Sim, porque o amor também é uma descoberta.
O senhor que havia folheado o livro, voltou a fechá-lo, comprou-o e levou-o para casa. Colocou-o numa estante e eles voltaram a estar muito juntinhos, fazendo tudo o que o amor pede.
Um dia, e nestas "estórias" há sempre um dia, o senhor tirou o livro da estante e sentou-se, a lê-lo. Passado algum tempo, pôs o livro em cima da secretária, aberto na página 212, saiu para o trabalho e nunca mais voltou. Tinha morrido atropelado.
A mulher, em sua memória, decidiu não mexer em nada, deixar tudo como estava. E assim, a rodapé e o pé de página ficaram separados para sempre.
in, Rodapé, revista da Biblioteca municipal de José Saramago, Primavera de 2001, com o seguinte comentário do Director : "Quando ouvi esta estória", pensei que talvez a Rodapé não seja mais que o secreto desejo de voltar a unir aquelas duas páginas. Aquelas ou outras".
Era uma vez uma rodapé e um pé de página que viviam dentro de um livro, que é o lugar onde geralmente vivem os rodapés e os pés de página. Pelo menos a maioria. Uma estava na página 212 e o outro na página 213. Assim, estavam sempre juntos. Aos poucos, foram descobrindo que qualquer coisa nascia dentro deles. A princípio, não ligaram. Afinal eram amigos desde que nasceram e sempre tinham estado juntos.. Mas, um dia, alguém folheou o livro numa livraria e eles, por momentos, ficaram separados. E foi nesse instante em que sentiram a falta um do outro que descobriram o amor. Sim, porque o amor também é uma descoberta.
O senhor que havia folheado o livro, voltou a fechá-lo, comprou-o e levou-o para casa. Colocou-o numa estante e eles voltaram a estar muito juntinhos, fazendo tudo o que o amor pede.
Um dia, e nestas "estórias" há sempre um dia, o senhor tirou o livro da estante e sentou-se, a lê-lo. Passado algum tempo, pôs o livro em cima da secretária, aberto na página 212, saiu para o trabalho e nunca mais voltou. Tinha morrido atropelado.
A mulher, em sua memória, decidiu não mexer em nada, deixar tudo como estava. E assim, a rodapé e o pé de página ficaram separados para sempre.
in, Rodapé, revista da Biblioteca municipal de José Saramago, Primavera de 2001, com o seguinte comentário do Director : "Quando ouvi esta estória", pensei que talvez a Rodapé não seja mais que o secreto desejo de voltar a unir aquelas duas páginas. Aquelas ou outras".
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