14.10.04

Colocou

a mão fora da janela do carro, como sempre fazia, abrindo-a muito, os dedos bem afastados, como se quisesse agarrar o mundo ou apenas sentir o ar fresco da manhã.
Cheirava a asfalto molhado e relva cortada e o ar frio batia-lhe no rosto, despertando-a. Gostava de fazer isto, fosse Verão ou Inverno, enquanto percorria o caminho que a afastava de casa e a conduzia a outros destinos.
O dia, brilhante, convidava a passeio, pés descalços à beira-mar, amêijoas ao natural numa esplanada de onde se pudesse admirar as ondas e as gaivotas. Lembrou-se de outros dias, antigos, onde o cenário fora esse. E das pessoas com quem os tinha vivido. Pareceram-lhe muito longe, numa vida que não fosse a sua, como um cenário de filme que nos lembramos de ver passar à nossa frente mas do qual não fazemos parte. Resmundou um palavrão entredentes quando se lembrou do mais recente. Tinha jurado a si mesma, numa jura a cruzar o coração que nunca tornaria a acontecer. E ali estava. Depois de ter rasgado o último guião que escrevera em cima de uma nuvem branca, fofa, efémera como todas as nuvens. Que anormal! Não aprenderia nunca?
Riu-se quando constatou que toda a sua vida assim fora. Cenários de filmes em que tinha entrado e que, como era normal nos filmes, tinham tido o seu "the end".
Travou, por instinto, quando vislumbrou, no meio dos pensamentos, a luz amarela do semáforo. O olhar perdeu-se no infinito durante a breve espera e não reparou no peão que, insistentemente, a olhava e sorria.

Havia muito tempo que dissera a alguém uma frase:
"Há momentos na vida que podem ser a única oportunidade que temos, seja para o que fôr. É necessário estar atentos e agarrá-los nessa altura pois poderá nunca existir outra"

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