26.10.04

O canário

Passa um algodão pelos olhos enquanto se observa no espelho.
Com cuidado, retira todos os vestígios de uma maquilhagem diligentemente aplicada por uma jovem, irredutível aos seus pedidos de "Já chega", "Não me ponha essa coisa gordurosa" "Era só uma coisa discreta..." e a resmunguice do costume. O que valia era o profissionalismo da miúda e o facto de já a conhecer, de outros carnavais...
Vai pensando nos últimos acontecimentos enquanto o rosto se despe de produtos e retoma a cor original, as olheiras, as pequenas sardas, algumas rugas, e só pára quando o espelho lhe devolve a imagem limpa e lavada e o olhar de sempre. Demora-se um bocado nesse olhar, o seu. Pensa que lhe parece menos brilhante, tenta comparar-se consigo própria há uns anos atrás e conclui que, apesar de tudo, gosta mais de si agora. Física e mentalmente mais velha, é certo, mas com uma serenidade conferida pela experiência de vida que parece envolvê-la numa luz suave. É uma luz que a cobre como um manto quase invisível, tecido com algum material misterioso, muito mais fino que a mais fina teia de aranha. E por isso nem todos a vêem. Convence-se que quem sabe disto é mesmo "O Principezinho" e que só alguém que veja com os olhos do coração descobrirá a luz. Pode nunca se cruzar com quem saiba ver assim. Pode até passar junto a esse alguém, a milímetros de distância, caminhando rápidamente em sentido oposto, ou retirar o seu carro de um estacionamento no minuto exacto em que essa pessoa estaciona ao seu lado. São escassos segundos de diferença que determinam o rumo de uma vida. E por isso acredita em acasos. O acaso contra o destino. Não aceita que lhe falem em destino, linhas escritas algures no nada, onde está previsto o que vai acontecer, ao minuto, a cada ser humano deste planeta. Já o acaso sim, a decisão repentina de virar por uma estrada diferente da habitual, o atraso que faz perder um último avião, os segundos a mais para pagar um café, por causa de uma carteira que se abre e espalha todo o seu conteúdo no chão, o carro que afinal não pega ao sair do estacionamento e alguém que estaciona ao lado se oferece para verificar...Não adianta lutar contra ele, o acaso.
Satisfeita com as conclusões vai apagando todas as luzes no último gesto de todos os dias enquanto na sua mente desfila um conjunto de decisões para o resto da sua vida.

Antes de se deitar, num gesto automático e irracional, abre a janela...

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