24.10.04

Eu sei

que venho tarde.
Que deveria ter sido logo no dia, como todo aquele que quer prestar homenagem que se preze.
Mas também sei que ela era daquelas que não ligava a essas coisas. E que largaria uma gargalhada de criança se lho dissessem, talvez respondendo que: "deixa lá, não te preocupes, depois de me semearem eu volto".

Por isso aqui fica. Hoje, como poderia ter sido ontem ou no próprio dia 13, ou daqui a uns meses.

Semeei o canário

Semeei o canário.
É talvez uma semente que tenha demorado um pouco mais a nascer, porque tem asas e as asas crescem devagar. Mas eu sei, tenho a certeza que ainda um dia, subitamente, no alto duma árvore qualquer, eu avistarei essa ave. Como os meus olhos começam a ficar míopes e já confundo, muitas vezes, canários com raios de sol, espero que alguém, que ainda acredita em asas, me ajude a descobri-lo. E que não desista nunca de esperar a ave. Mesmo que ela tarde. Porque ela virá, temos que acreditar, perfumada de flores de laranjeira, rasgando portas de luz e inaugurando, com o seu canto, os dias claros de ums Primavera tão desejada.
E virá para sempre.

Maria Rosa Colaço, "Não quero ser grande"


Espero o canário Maria Rosa. Vou esperá-lo até ele vir é a melhor homenagem que me ocorre fazer-te. E que um raio de sol te ilumine lá onde estás.

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