17.8.04

Ela

sentia-se ansiosa.
Era a primeira vez, depois de uma longa viagem, que iria de novo àquele local, o primeiro, o mais significativo, onde um dia, havia muito tempo, se tinham encarado de frente.
Muito próximos. Surpresos, disfarçando hábilmente o embaraço por tão inesperado encontro.

A partir desse dia tudo mudara. Tinha passado a haver um espaço, uma referência, um sítio onde, por "casualidade" se poderiam tornar a ver.
E isso aconteceu muitas e muitas vezes. Nesse e noutros sítios, que, por necessidade, tinham tido que inventar.
E viram-se, e olharam-se e sentaram-se à mesma mesa e falaram e trocaram confidências e riram de coisas sem sentido.
Nunca se tocaram. Nunca tiveram certezas. Apenas sinais disfarçados de que poderia ser...ou não.

Nesse dia ela iria voltar.
Disposta a um último olhar, uma certeza final.

Olhou-se no espelho que lhe reflectiu o cabelo ainda molhado, o olhar transparente, nublado de alguma insegurança, de dúvidas. Ajeitou o suave traço azul sobre as pestanas, sacudiu o cabelo e colocou no pescoço e nos pulsos o aroma que sempre a acompanhara desde o início da história. Havia coisas que gostava de manter fácilmente reconheciveis...

Saiu para a rua (como diria o Rui Veloso...) finalmente confiante.
Fez alguns kms, estacionou e inspirou fundo, quando saiu do carro e olhou para o seu destino.
Tudo se mantinha igual. A disposição das mesas e cadeiras, o cheiro característico, o vai-vem dos funcionários, o relógio na parede, com os ponteiros a parecer voar, sempre que se tratava de esperar e ele não aparecia.
Até as velhas flores de plástico, em vasos de plástico, numa desesperada tentativa de imitação de vida, se mantinham nos mesmos pontos estratégicos. Talvez com um pouco mais de pó...

Ele não a viu.
De costas, parecia conversar com alguns companheiros de mesa.

Aproximou-se, passo a passo, observando-o discretamente, como sempre fizera...os olhos castanho-dourado, os braços esguios, morenos, as mãos de pintor...de dedos longos, o cabelo onde nunca tinha encostado a sua face...

Quando contornou a mesa e se colocou na sua frente, olhando-o em silêncio, percebeu que ele sabia que ali estava. No olhar cego um lampejo de brilho e nas narinas um frémito quase imperceptível denunciaram aquilo por que ela sempre esperara: tinham passado muitos anos e nenhum tinha desistido.

Foi quando ele lhe estendeu a mão e puderam, por fim, sentir a faísca na pele um do outro.
Abraçaram-se e seguiram em direcção ao horizonte, à Utopia, até ao fim das suas vidas.

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