20.8.04

Vazio

Quizera haver esquecido o que é a mágoa...
Enganei-me durante muito tempo, dizendo-me que sim, num palco que inventei para existir, no meio de um empolgante cenário que construí, feito de cortinas de pesados veludos púrpura, véus de tule azul transparente, lantejoulas brilhantes, holofotes de todas as cores...e música, sempre a música.
Ali a mágoa não entrava porque o guião do espectáculo não continha essa palavra.
E o espectáculo tem que continuar.
Enganei-me durante muito tempo, representando o papel de actriz principal, rímel nas pestanas, boca carmim sempre a sorrir, vénias aos aplausos do público. E depois o camarim. Uma estrela na porta, já desbotada, a descolar-se num canto. O espelho rodeado de lâmpadas redondas, brancas.
Sentada, tirando lentamente a peruca e limpando com grossos rolos de algodão as camadas de pintura, olho-me no espelho e vejo a verdade que a luz crua não deixa mais esconder.
A mágoa. No fundo dos olhos. No peito. Em cada músculo deste corpo franzino. A mágoa por alguém, por mim, por nada. Pelo vazio.

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