23.8.04

Manhã

Dou-me conta, em certos momentos, do quanto gosto da vida.
Nas manhãs nubladas e frescas em que, meio estremunhada, me apercebo dos cheiros e sons familiares de um prédio que desperta aos poucos, os ruídos de àgua a correr, uma porta que bate, alguém que dá uma resposta no andar de baixo (estas construções modernas...), o cheiro das torradas, o aroma da casa ainda adormecida, quente, aconchegada a fugir pelas janelas que escancaro para deixar entrar o ar que renova todo este ciclo.
Saio de casa e apanho de frente com este ar, limpo ainda, antes das emissões gasosas da vida na cidade terem tido tempo de o contaminar.
Gosto de conduzir de manhã com as janelas do carro abertas e a música ligada, num despertar gradual que se prolonga até depois do primeiro café do dia. Em chávena grande.
Gosto do ritual de entrar no café do costume, ouvir os bons dias dos proprietários, de mistura com uma laracha relativa ao meu estado do dia: ensonado, enjoado (mais própriamente "enjoadinha" no tom carinhoso da dona do café), mal-humorado...só alguém com o conhecimento de 6 anos a partilhar as minhas manhãs se pode dar ao luxo de tecer este tipo de comentários. E é também disto que eu gosto. Desta cumplicidade assente numa base de respeito em que posso resmungar que me ponham à frente o habitual café e depressa, e sentar-me silenciosa sem que ninguém interfira porque sabem que uns 15 minutos depois as coisas mudam, o humor melhora e a conversa já flui em torno que um qualquer assunto da actualidade local.
Sinto-me priveligiada por sair em direcção ao trabalho, do outro lado da rua, cumprimentar meia dúzia de pessoas e chegar ao meu gabinete, sossegado, silencioso enquanto não decido ligar o rádio, com uma vista linda da janela. É um previlégio fazer-se o que se gosta. Falo de alto porque também sei o que é o reverso da medalha. E não há dinheiro que pague gostarmos do trabalho que temos pela frente, a cada dia.
É nestes dias, cinzentos e frescos que a lucidez me ataca e me leva a tomar consciência clara de tudo isto.
Apesar de muito resmungar, barafustar, queixar-me como uma menina mimada de tudo e mais alguma coisa, sei que sou uma priveligiada. E sinto-me grata por isso.

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