29.1.05

Intimidade(s)

ou de como um post pode ser um excelente momento publicitário.

Secava os cabelos, uma nuvem castanho-clara a esvoaçar-lhe em torno do rosto.
VRummm.....sempre gostara de divagar enquanto o barulho do secador a isolava do mundo exterior à casa-de-banho. VrUmmmm....o barulho, o vapor a envolvê-la e o ar quente a intensificar o cheiro do shampô: maçã verde.
Secava o cabelo à solta, livre, sempre detestara cabelos engomados, as mulheres que acabadas de sair da cabeleireira ostentavam aquelas coisas enroladas à volta das orelhas ou do pescoço, consoante o tamanho e o corte. Não. Liso, apenas uma escova simples, para apanhar os mais rebeldes, de preferência despenteado.
Observava-se, como sempre, distraídamente, enquanto fazia os gestos mecânicos: escova, secador, escova, secador, os olhos, as pequenas imperfeições da pele, "mais uma puta de uma ruga, tá bem, são de expressão e então? é uma ruga e pronto". Um risco, gravado na pele, o mapa da vida, dos risos e das lágrimas, desenhado em sulcos mais profundos no rosto, junto aos olhos. Os olhos. Uma porta aberta para a sua alma, escancarada, à mercê de quem souber ler almas. Transparentes, ali ainda mais, depois do banho, a luz do espelho, cara lavada. Não que fosse normalmente muito diferente, mania do minimalismo, como em tudo. Cara lavada, que é como quem diz, um risco preto sobre as pestanas e um pouco de rímel. Os olhos, "estarão hoje mais fundos que o costume, não sei se ficam mais nublados quando estou triste? sei, de certeza, que não têm o brilho incendiado dos sonhos e das grandes paixões".
Acabou a tarefa, mecânica, desligou o secador da tomada, apoiou-se na bacia algum tempo e olhou-se.
Ninguém sabe o que disseram, ela e o espelho naqueles minutos suspensos do tempo em redor, paralelos, íntimos. Trocaram confidências e silêncios, as duas imagens dela, real e virtual. Entenderam-se.
Olhou para a prateleira de vidro e hesitou entre um "Eternity Moment" de Calvin Klein e um "Glamourous" de Ralph Lauren. Não. Nesta noite, sentia-se mais "Fragile" de Jean Paul Gaultier.
Apagou a luz e saiu.

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