16.1.05

Queria

escrever qualquer coisa sobre Confiança. Ou talvez seja sobre Amizade. Se calhar, sobre ambas. Não sei.

Quando somos objecto da confiança de alguém, de uma forma espontânea, até mesmo inesperada, pesa-nos em seguida a enorme responsabilidade de continuarmos a ser merecedores dela. O medo de não estar à altura. Ou de que outros tentem fazer crer que não estamos à altura.
Há coisas que, de tão raras que são, têm um valor incalculável e é natural que as queiramos preservar, a todo o custo.
Este espaço em branco também serve para isso. Para firmarmos "contratos" com as pessoas de quem gostamos, que nos lêem.
Para lhes dizer palavras que não dissémos noutros lugares, por não termos espaço, ou tempo, ou não sabermos como as dizer ou, simplesmente, acharmos que, nessa altura, não era preciso dizê-las porque tínhamos os olhos e esses também falam.

Contaste-me coisas antigas da tua vida como quem confia um segredo guardado a sete-chaves. Com uma ponta de mágoa no fundo do olhar e uma imensa coragem para dizer o que disseste, essas coisas que guardas contigo e que, imagino, não sejam nada fáceis de contar. As coisas que te tornaram a pessoa que hoje és, o percurso do qual me pareceu que te orgulhas, apesar de tudo.
De que deves orgulhar-te, digo-to eu.
Contaste-as com a voz firme, embora numa altura ou outra a baixasses de tom, como que com medo de acordar fantasmas que tens tentado manter adormecidos há muito, muito tempo. Nunca se sabe o que pode acontecer se eles acordarem...

"não quero fechar-me, mas não posso abrir-me", faz agora todo o sentido que tentei descortinar, de entre muitos possíveis, na altura em que o escreveste.
Ouvi-te, querendo dizer-te que não duvides, que sim, tudo farei para ser merecedora dessa confiança que em mim depositaste.
De mim, dir-te-ão o céu e o inferno. Ou, se calhar, já o fizeram.
Custou um bocado até me habituar a isso, fui apanhada de surpresa muitas vezes, ao vir a saber coisas que se diziam, facas que se espetavam no sítio mais sensível, aquele onde as feridas não saram. Demorou tempo até perceber que, por não querer mal às pessoas, ou até mesmo ignorar que elas existiam, isso não significava que não me quisessem elas mal a mim. Vá-se lá saber porquê...Talvez porque a inveja existe e o rancor, mesmo que nada faças para o provocar, é a manifestação da falta de carácter de tanta gente que nos rodeia com sorrisos e palmadinhas nas costas. Depois habituei-me. Passei a ignorar. E mais, a rir, de cada vez que alguém amigo me contava mais um episódio sórdido de uma qualquer novela rasca que se passava nas minhas costas. Tem mesmo que ser assim se queres seguir em frente.
Sigo em frente de cabeça levantada.
Se te disserem de mim o céu ou o inferno, não os ouças. Antes de te deixares tentar por, em função disso construires uma imagem de mim, pergunta-me. De olhos nos olhos. Porque é dentro dos olhos que se vê a verdade.
Olhos e mãos e risos. E palavras e silêncios, é disso que se compõe uma forte amizade. E é nesse muro de confiança que batem e caem no chão todas as tentativas de destruição que possam vir de fora.

Quero que saibas que podes contar comigo. Que me encheste de uma espécie de orgulho infantil por me teres falado de ti como o fizeste. Por me entregares a tua confiança.
Que, apesar de seres "inconveniente", "irregular", "terrível", há uma dessas palavras que se sobrepõe às outras três: "AMIGO".

Acho que, afinal, era sobre isto que queria escrever. O maior tesouro do mundo, a construção da amizade. Como a raposa disse ao "Principezinho", quando este lhe perguntou o que havia de fazer para ter um amigo:

- Precisas de ser muito perseverante - explicou a raposa. - Ao princípio, sentas-te ali na erva, um pouco longe de mim. Espreitar-te-ei pelo canto do olho e tu nada dirás. A linguagem é fonte de mal-entendidos. Depois, dia a dia, vens sentar-te um bocadinho mais perto...

Sim, parece-me que é esta a maneira.

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