22.7.04

A espera

- Não estou preparado - declarou ele, desviando o seu dourado olhar cor de mel.
Não desvendem ainda os segredos da caixa de Pandora.  Não a abram, que a luz nacarada que dela sair poderá cegar-me. Os palácios de janelas em chamas, as arcas cheias de pedrarias, o doce odor dos nardos, o âmbar puro e cristalino com o universo dentro, preso, eterno. Não, não me mostrem o segredo da imortalidade, não estou preparado.
 
- Não estou preparado - disse, quando ela o beijou com a sua boca carnuda, carmim, perfumada de framboesa e jasmim. Não me abraces com esse veludo que é a tua pele sobre a minha pele. Não quero saber do bater do teu coração, louco, sobre o meu peito, das nossas mãos entrelaçadas, dos pássaros em voo enlouquecido e livre, das estrelas do mar, do pó de ouro no horizonte ao entardecer, não estou preparado.
 
- Não estou preparado - gritou durante os dias e noites e noites e mais dias de uma vida em que nunca soube o que era deixar o espírito vogar livre, sobre montanhas de alvos picos, entrar em cavernas húmidas cobertas do musgo que cresce na penumbra, descer por límpidas cascatas de cristal fresco, rebolar em campos verdes salpicados de minúsculas flores raras, conversar com os duendes e os seres mágicos das florestas encantadas, perdidas na bruma. 
O espírito fora do corpo, a flutuar sem peso, como um tecido feito da mais fina e transparente teia de aranha, todas as gavetas da alma abertas, escancaradas, sem segredos, não estou preparado.
 
- Não, não estou preparado - pensou, no último dia da sua vida, no instante em que a luz se fazia escuridão aos poucos e o doce abismo da inexistência o sugava para o fundo, mais fundo, cada vez mais fundo, sem dar luta...
Não estou preparado.

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