do cheiro do linho lavado.
Trouxe para casa um pano antigo, com mais de 100 anos, de linho com letras bordadas, uma data e duas iniciais.
Depois de lavado ficou um pouco mais fino mas o cheiro leva-me 100 anos atrás no tempo, a quem o teve nas mãos e bordou pacientemente aqueles símbolos.
O cheiro fresco a sabão que as fibras desprendem faz com que imagine uma história de amor, uma paixão impossível, vivida em sobressalto pela dama do lenço, no varandim de sua casa, à espera da hora exacta em que o amado passava por debaixo dele, do ruído dos cascos do cavalo no empedrado do pavimento.
Por detrás da fímbria da cortina ei-la que suspira, o seu colo estremece e ruboriza, à fugaz visão do porte do cavaleiro. Ele lança um olhar à janela, um subtil e brevíssimo aceno de cabeça e segue caminho, confiante que o bilhete que enviou pela aia terá chegado ás mãos da sua dama.
O lenço no varandim é o sinal.
Ele vira-se, o olhar vislumbra o branco que esvoça, como uma asa de ave em busca de liberdade, e sorri.
Nessa noite, ao bater das 12 badaladas, ela será sua.
Tenho o lenço à minha frente. Será que ele serviu tão nobre missão?
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