22.4.04

Abril, o dia era o 25

As rádios locais enlouqueceram com a proximidade da efeméride dos 30 anos da Revolução de Abril e debitam continuamente músicas dessa época, feitas com palavras escolhidas para significar outra coisa que não aquela que os censores da PIDE julgavam ouvir.
José Mário Branco, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Paulo de Carvalho, Sérgio Godinho, Ary dos Santos, compunham poemas e músicas que só uns poucos entendiam, que traziam um sopro de esperança, que davam força para resistir a quem sabia que gaivota significava liberdade, estrela saudade, vampiros os ditadores, Grândola fraternidade.
Eram as “músicas da utopia” de quem sabia que “a cantiga também era uma arma”. E que tinham em comum, todas elas, a resistência, a esperança de mudar, o alento de continuar a organizar a revolta, “a bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém”, dizia o Zeca, enquanto chamava para que viessem mais cinco. “Há sempre uma candeia, dentro da própria desgraça, há sempre alguém que semeia, canções no vento que passa”, gritava Manuel Alegre enquanto o Sérgio Godinho incitava “Não me digas que nunca sentiste, uma força crescer-te nos dedos, e uma raiva crescer-te nos dentes, não me digas que não me compreendes”.

Eu lembro-me de um dia em que uma menina de 10 anos, a meio de uma manhã de aula, foi mandada embora da escola, para casa, porque estava a passar-se algo.
Desci a rua a pé, no meio da estranha quietude nas ruas, até casa, passando pelas amoreiras onde enchia os bolsos de folhas para os bichos da seda, ou amoras que manchavam o bibe branco com monograma.
Em casa, os meus pais, conspiradores mas estranhamente alegres, ouviam rádio baixinho. Havia uma espécie de electricidade no ar. Mandavam-me estar quieta e não fazer barulho. A música era repetida muitas vezes, intercalada com vozes que eu não percebia. E o meu pai a transbordar, a sorrir, a emocionar-se, a brilhar como um raio de sol no momento em que não aguenta mais e resolve sair para a rua, dizendo-me: “ficas sempre junto ao rádio; assim que o senhor começar a falar carregas nestes dois botões, quando ele acabar, neste. Faz isso minha filha, não se engana?”, “não, pai”, com um sentimento de orgulho por sentir que uma grande responsabilidade me estava entregue.
E ali fiquei, gravando as notícias que chegavam, “Aqui posto de comando”, dando conta da prisão de Marcelo Caetano, da invasão das instalações da António Maria Cardoso, com ordem de prisão aos Pides, que queimavam documentos antes de tentar fugir.
Ainda hoje guardo comigo essa cassete de rádio, degradada, mas que contém, um pouco roufenha, a memória desse dia.
Devo aos meus pais, o espírito de Abril, que sempre pautou todos os outros dias da sua vida, o terem-me formado na pessoa que hoje sou, inconformada com a injustiça, solidária com os mais fracos, resistente aos aproveitadores e abusadores, combatente na construção de um mundo melhor e mais justo para os vindouros…

Nos dias seguintes viveu-se uma espécie de estado de graça, com toda a gente nas ruas, portas sempre abertas, com lágrimas e sorrisos ao mesmo tempo, com cravos, muitos cravos e conversas e abraços entre os vizinhos. E sempre a música…
Não sabia bem se estavam todos contentes por alguma coisa que eu tivesse feito…mas não importava muito porque estava feliz.

Hoje vesti um casaco de cabedal que pertenceu, nessa época ao meu pai e senti-me mais próximo dele, onde quer que esteja. Obrigado, pai.

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