Obrigadinho por perguntarem (o tanas).
Para além de chegar a casa e ter o móvel no pátio do prédio, obedientemente colocado pelo atrasado senhor que só me ligou às 19.20!, cheguei mais leve. Isto sem contar que tive que arrastar, sózinha, o móvel, pesadíssimo, art-déco, anos 50 tão a ver, para dentro de casa.
Mas, dizia eu, mais leve, sim.
Como que emergida dum grande lago, desprendendo de mim enquanto caminhava, pingos de um líquido purificante, chamado cultura.
A cave da biblioteca como um lago, imenso, profundo, escuro, silencioso.
Uma única voz, no silêncio.
Um homem debaixo do foco (que ele repudiou logo de início), fala.
De democracia, de Abril, o povo, a ditadura, hipocrisia, críticos que criticam sem ter lido aquilo que foram ali chamados a criticar.
Diz que os Governos não governam, são governados.
O povo vota, elege o Governo. E este, eleito, o que faz a seguir?
Submete-se às regras que governam o mundo, ao FMI e sua "draconiana" repartição dos dinheiros de todos nós.
E o povo, que faz?
Não pode dizer ao FMI, vamos lá conversar, isto assim tá mal, a malta vive mal.
Nem o Governo que esse povo elegeu o pode fazer.
Porque o FMI não foi eleito por ninguém. Nem presta contas. A ninguém.
A voz é baixa, serena, pausada. O homem que assim fala tem 84 anos e um raciocínio límpido, nem um papel à frente, ele sabe o que quer dizer. O que tem para dizer. No meio do discurso um humor impávido mas mordaz, ácido, certeiro, arranca risos na plateia, sem que ele precise de sorrir.
Termina: "Façam com as minhas palavras o que quiserem. Mas como eu digo na contracapa do livro, numa citação que faço do Livro das Vozes (são livros que não existem e eu invento): Uivemos, diz o cão. Temos sido sempre cães que ladramos, mas já lá diz o povo que, cão que ladra não morde. Ou ainda, os cães ladram e a caravana passa.
Agora, imaginem um cão a uivar, ali, sempre, ao lado, mete mais medo, leva a fazer qualquer coisa".
Foi mais ou menos esta a mensagem.
José Saramago, goste-se ou odeie-se, lúcido.
Para além de chegar a casa e ter o móvel no pátio do prédio, obedientemente colocado pelo atrasado senhor que só me ligou às 19.20!, cheguei mais leve. Isto sem contar que tive que arrastar, sózinha, o móvel, pesadíssimo, art-déco, anos 50 tão a ver, para dentro de casa.
Mas, dizia eu, mais leve, sim.
Como que emergida dum grande lago, desprendendo de mim enquanto caminhava, pingos de um líquido purificante, chamado cultura.
A cave da biblioteca como um lago, imenso, profundo, escuro, silencioso.
Uma única voz, no silêncio.
Um homem debaixo do foco (que ele repudiou logo de início), fala.
De democracia, de Abril, o povo, a ditadura, hipocrisia, críticos que criticam sem ter lido aquilo que foram ali chamados a criticar.
Diz que os Governos não governam, são governados.
O povo vota, elege o Governo. E este, eleito, o que faz a seguir?
Submete-se às regras que governam o mundo, ao FMI e sua "draconiana" repartição dos dinheiros de todos nós.
E o povo, que faz?
Não pode dizer ao FMI, vamos lá conversar, isto assim tá mal, a malta vive mal.
Nem o Governo que esse povo elegeu o pode fazer.
Porque o FMI não foi eleito por ninguém. Nem presta contas. A ninguém.
A voz é baixa, serena, pausada. O homem que assim fala tem 84 anos e um raciocínio límpido, nem um papel à frente, ele sabe o que quer dizer. O que tem para dizer. No meio do discurso um humor impávido mas mordaz, ácido, certeiro, arranca risos na plateia, sem que ele precise de sorrir.
Termina: "Façam com as minhas palavras o que quiserem. Mas como eu digo na contracapa do livro, numa citação que faço do Livro das Vozes (são livros que não existem e eu invento): Uivemos, diz o cão. Temos sido sempre cães que ladramos, mas já lá diz o povo que, cão que ladra não morde. Ou ainda, os cães ladram e a caravana passa.
Agora, imaginem um cão a uivar, ali, sempre, ao lado, mete mais medo, leva a fazer qualquer coisa".
Foi mais ou menos esta a mensagem.
José Saramago, goste-se ou odeie-se, lúcido.
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