27.4.04

Aqui estão eles

Cadernos de viagem II

Percorrer a Marginal numa qualquer noite de 2004, perto de atingir os 40 anos de idade, não é, definitivamente, o mesmo que fazê-lo aos 18.

Uma chuva míuda caía sobre o carro, que deslizava em direcção ao Casino. Passava da meia-noite e o céu estava cinzento, carregado, prenhe de uma chuva prestes a rebentar, em torrente, como as águas de um parto.
Água a juntar-se a outra água, o mar, ali, ao lado da estrada, onde sempre esteve, a desfazer-se em espuma nas praias onde, aos 18 anos, apanhava sol depois da directa da noite anterior.

Agora, quase aos 40, não ia fazer nenhuma directa. Apenas uma passagem rápida pelo Casino, com amigos, com estatuto para o fazer. Um copo, uma volta nas máquinas e de regresso a Lisboa para mais um congresso no dia seguinte.
Estatutos...

Aos 18 anos, com as minhas calças de ganga e ténis desbotados, não tinha estatuto para entrar no Casino, ou para qualquer outra coisa semelhante. Ou melhor, tinha, de jovem inconsequente, estudante irreverente e pelintra.
Mas as curvas da Marginal, feitas nessa altura tinham outro sabor. O sabor da aventura, da descoberta. Da vertigem da velocidade, em picanço com os carros dos outros amigos do grupo. A inconsciência do perigo. Ou a idéia (errada) da imortalidade. Não sei, talvez fosse, apenas, a juventude.
A caminho da 2001 no Autódromo, ou apenas de um bar da moda em Cascais. Com o dinheiro no bolso, à conta para beber, não mais que duas imperiais. Não sei como, mas conseguia beber-se sempre mais que isso...

O dinheiro no bolso hoje, perto dos 40, chegava para comprar o barril inteiro da imperial...mas o sabor não era o mesmo.
A curva do Mónaco já parecia perigosa, a hora começava a adiantar-se demasiado, face aos compromissos marcados para o dia seguinte. O encanto da descoberta não existia, pura e simplesmente. Apenas o sono e o cansaço. Ou talvez a solidão, uma opção assumida, mas pesada em alturas como aquela. De recordações.

Lembranças de outras noites, de contar estrelas e molhar os pés no mar. De não existirem relógios, ou pressões, deveres, ou culpas. Só o disfrutar do momento, intensamente. Ver o sol nascer na linha do horizonte, elevar-se devagarinho sobre o mar, acordando as águas escuras que, em pouco tempo, se pintavam de um azul claro e limpo.
E o calor.
Depois da humidade fria da noite (por mais que fosse Verão), os raios laranja a espalhar um calor de conforto sobre os corpos cansados. E felizes.
E a simpatia dos naturais da zona, tantas vezes, oferecendo um pão quente e um café àquele grupo de jovens, olheirentos, pelintras mas sorridentes e inofensivos. Outros tempos. Ainda não eram os tempos da desconfiança e do individualismo.

Hoje, perto dos 40, depois da noite dormida num hotel, o pequeno-almoço tomado com requinte, na sala de refeições, de impecáveis toalhas de linho branco nas mesas e solícitos empregados, sabe a stress, hora marcada, agenda preenchida, falsos sorrisos em redor de nós, à medida do interesse que os suscita, sabe à aprendizagem da sacanice, do "jeito de cintura" necessário para sobreviver neste mundo.

Este mundo que já não é o local de utopia dos nossos 18 anos.

E amarga. Deixa um travo na boca, amargo, de saudade e sonhos perdidos.





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