16.4.04

Passo a explicar

Já diz um amigo meu, alentejano, que "ovelhas não se fizeram pr'ó mato", que é como quem diz que, certas pessoas não se deviam meter em certas coisas. Melhor ainda: que mulheres não servem para fazer certas tarefas, não quero saber que refilem comigo, suas feministas radicais, eu cá uso soutien mas acho que lavar o carro é coisa que os homens sabem e gostam de fazer e não tenho que ser eu, que odeio, e mainada!

É por isso que, cá por casa, para além de uma persiana completamente avariada, que não fecha (e logo no quarto...), problema engenhosamente ultrapassado com uma cortina escura a tapar o cortinado, na hora de dormir, até ao dia em que venha cá a casa o faz-tudo, mantém-se por aplicar um candeeiro de tecto, há um autoclismo que funciona depois de aberta a tampa e puxado manualmente, e um animal com várias patas apoderou-se definitivamente da arrecadação, até que alguém me entre lá dentro para o exterminar.

Mas quando estou neura (e isso é muitas vezes) dá-me para as mudanças.

E desta, foi para reconverter um móvel, usualmente designado sapateira, que, nunca tendo cumprido a função para a qual foi concebido - guardar sapatos - se transformou no poço sem fundo de tudo quanto é tralha indesejada mas não passível de deitar fora (por enquanto). O dito, três gavetas em cima, três portas em baixo, uma prateleira horizontal no interior, na minha tortuosa mente, transformou-se no sítio ideal para armazenar livros (as dezenas que não têm lugar de honra na estante da sala, mas não deixam de andar por aqui aos montes). O único senão era retirar-lhe as portas, o que transformaria aquilo em mini-estante, que ficaria a matar ali no corredor central...

Armada de chaves de fenda e alicate, iniciei o combate. E quando meto uma na cabeça...O pior foi que os gonzos das portas estavam, digamos, um pouco, calcinados, presos com pregos! onde já se viu, e não com parafusos.

As portas sairam.
Os livros ficaram lindos, arrumados, finalmente visíveis nas suas brilhantes lombadas, com espaço de sobra ainda para mais umas dezenas...

Os bocados de madeira que entretanto saltaram junto com as portas, foram colados com cola-tudo e uma pincelada de verniz. Nem se nota nadinha!

O bocado de estuque, que caiu quando o alicate se desprendeu do prego que puxava e saltou, rasando uma jarra de cristal para aterrar em cheio na parede oposta, será tapado no fim-de-semana. Dizem que com um bocado de gesso e água aquilo fica um mimo.

O facto de a vizinha de baixo ter deixado de me falar e começar, desde então, a martelar metódicamente, todos os dias, às 8 da manhã, não deve ter nada que ver com este episódio.

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