Ou de como o vento assobia no cume da montanha...
Era uma vez o vento.
Um ente livre e brincalhão que gostava de assustar os mais incautos quando se punha a soprar por um tubo sem ser esperado, produzindo assobios que deixavam intrigados os que o ouviam pois não tinham sido eles a produzi-los e, ainda assim, eles existiam.
Mas o vento também era inteligente e sabia que, para além de soprar por tubos, era necessário que passasse pelos mares e provocar ondulação que mudava as coisas de sítio num eterno movimento dos fundos oceâncos que mantinha o equilíbrio dos ecossistemas, ou para enfunar as velas de um navio que tinha pressa de chegar a um destino longínquo.
Também sabia que as nuvens esperavam que ele as empurrasse de lugar para lugar, para que pudessem encontrar-se umas com as outras e aumentar de tamanho e dar origem a choques eléctricos que as transformariam em gotas.
Gotas de chuva essenciais à sobrevivência do Homem...(esta é para ti Gotinha ;-))).
E ainda tinha a missão de, soprando, levar consigo grãos de areia, sementes, de voo em voo, dando origem a dunas altas e a flores silvestres que nasciam nos vales férteis.
Mas o vento um dia entristeceu. Parecia que lhe faltava ainda alguma coisa muito importante...
Foi até ao cume da montanha, que era para onde ele gostava de ir quando precisava de se isolar e reflectir, naquele silêncio imponente de neves antigas que nunca derretiam e árvores altíssimas que dançavam sempre que ele por elas passava, sentou-se num rochedo e começou a pensar:
-Mas que me falta fazer?-reflectia-Já soprei por mares e dunas e campos cultivados onde fiz cair a chuva que necessitavam para que as sementes germinassem.
Já empurrei veleiros onde donzelas suspiravam por chegar depressa aoa braços do seu amado. Mas que diabo me falta?
Enquanto pensava e repensava, o vento ouviu um ruído próximo de alguém que parecia lamentar-se. Curioso, levantou-se e viu um pequeno monge (soube que era um monge pelas vestes e pela cabeça rapada, para além dos olhos em bico, claro)que chorava sentado à porta de um templo esculpido na montanha, lá mesmo no alto, onde o ar era puro e as manhãs transparentes de tanta luz.
-Que tens tu, pequeno monge?-perguntou o vento.
-É a minha obra...não funciona-retorquiu o pequeno, desconsolado.
-A tua obra?-cusco, o vento-E onde está ela?
O monge levantou-se, deu a sua pequena mão ao vento e disse-lhe que o acompanhasse ao interior do templo.
Aí, subiram a escadaria em caracol que levava ao topo, mesmo ao cimo de tudo e entraram numa sala, tão alta que até as nuvens passavam em farrapos muito abaixo dela.
-Ali-apontou o monge, choroso.
Foi então que o vento viu que, numa das paredes, não existia parede mas sim uma abertura enorme onde se econtrava instalado um estranho sistema de tubos, longos, curtos, curvos na ponta, alguns largos como condutas de água, outros tão finos que quase pareciam pertencer a um colar de alguma princesa.
-Isto é a minha obra-explicou o monge-construí-a para que pudesse alegrar-nos a vida neste templo. Para produzir um som tão puro como o canto dos anjos, mas nunca funcionou...
O vento, de súbito, percebeu o que lhe faltava para sentir que a sua vida tinha sido completa, (afinal, aquilo que ele mais gostava era de brincar com tubos!) e, deixando o pequeno monge inspirou fundo e desatou a soprar, a soprar, entrando por aquele complicado labirinto de tubos, saltitando de um para outro alegre, veloz, depois acalmando, assobiando devagar como se uma suave carícia percorresse o metal brilhante...
Dizem que, nas aldeias do sopé dessa montanha, os habitantes se quedaram mudos, pararam as tarefas que desempenhavam e escutaram, maravilhados, a mais bela música que jamais tinham ouvido.
E a partir desse dia, foi sempre assim, o vento, assobiando nos tubos.(não, não é nas gruas, esse romance é da Lídia Jorge, não tem nada a ver com este post) ;-))))
Era uma vez o vento.
Um ente livre e brincalhão que gostava de assustar os mais incautos quando se punha a soprar por um tubo sem ser esperado, produzindo assobios que deixavam intrigados os que o ouviam pois não tinham sido eles a produzi-los e, ainda assim, eles existiam.
Mas o vento também era inteligente e sabia que, para além de soprar por tubos, era necessário que passasse pelos mares e provocar ondulação que mudava as coisas de sítio num eterno movimento dos fundos oceâncos que mantinha o equilíbrio dos ecossistemas, ou para enfunar as velas de um navio que tinha pressa de chegar a um destino longínquo.
Também sabia que as nuvens esperavam que ele as empurrasse de lugar para lugar, para que pudessem encontrar-se umas com as outras e aumentar de tamanho e dar origem a choques eléctricos que as transformariam em gotas.
Gotas de chuva essenciais à sobrevivência do Homem...(esta é para ti Gotinha ;-))).
E ainda tinha a missão de, soprando, levar consigo grãos de areia, sementes, de voo em voo, dando origem a dunas altas e a flores silvestres que nasciam nos vales férteis.
Mas o vento um dia entristeceu. Parecia que lhe faltava ainda alguma coisa muito importante...
Foi até ao cume da montanha, que era para onde ele gostava de ir quando precisava de se isolar e reflectir, naquele silêncio imponente de neves antigas que nunca derretiam e árvores altíssimas que dançavam sempre que ele por elas passava, sentou-se num rochedo e começou a pensar:
-Mas que me falta fazer?-reflectia-Já soprei por mares e dunas e campos cultivados onde fiz cair a chuva que necessitavam para que as sementes germinassem.
Já empurrei veleiros onde donzelas suspiravam por chegar depressa aoa braços do seu amado. Mas que diabo me falta?
Enquanto pensava e repensava, o vento ouviu um ruído próximo de alguém que parecia lamentar-se. Curioso, levantou-se e viu um pequeno monge (soube que era um monge pelas vestes e pela cabeça rapada, para além dos olhos em bico, claro)que chorava sentado à porta de um templo esculpido na montanha, lá mesmo no alto, onde o ar era puro e as manhãs transparentes de tanta luz.
-Que tens tu, pequeno monge?-perguntou o vento.
-É a minha obra...não funciona-retorquiu o pequeno, desconsolado.
-A tua obra?-cusco, o vento-E onde está ela?
O monge levantou-se, deu a sua pequena mão ao vento e disse-lhe que o acompanhasse ao interior do templo.
Aí, subiram a escadaria em caracol que levava ao topo, mesmo ao cimo de tudo e entraram numa sala, tão alta que até as nuvens passavam em farrapos muito abaixo dela.
-Ali-apontou o monge, choroso.
Foi então que o vento viu que, numa das paredes, não existia parede mas sim uma abertura enorme onde se econtrava instalado um estranho sistema de tubos, longos, curtos, curvos na ponta, alguns largos como condutas de água, outros tão finos que quase pareciam pertencer a um colar de alguma princesa.
-Isto é a minha obra-explicou o monge-construí-a para que pudesse alegrar-nos a vida neste templo. Para produzir um som tão puro como o canto dos anjos, mas nunca funcionou...
O vento, de súbito, percebeu o que lhe faltava para sentir que a sua vida tinha sido completa, (afinal, aquilo que ele mais gostava era de brincar com tubos!) e, deixando o pequeno monge inspirou fundo e desatou a soprar, a soprar, entrando por aquele complicado labirinto de tubos, saltitando de um para outro alegre, veloz, depois acalmando, assobiando devagar como se uma suave carícia percorresse o metal brilhante...
Dizem que, nas aldeias do sopé dessa montanha, os habitantes se quedaram mudos, pararam as tarefas que desempenhavam e escutaram, maravilhados, a mais bela música que jamais tinham ouvido.
E a partir desse dia, foi sempre assim, o vento, assobiando nos tubos.(não, não é nas gruas, esse romance é da Lídia Jorge, não tem nada a ver com este post) ;-))))
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